Dado óbvio e ululante: Não estamos no Japão.
Dã. Que conclusão brilhante. Mas infelizmente essa conclusão não é tão
evidente para muita gente, em especial do fandom. Como estou
especificamente falando das diferenças "Shoujo", "Shonen" e similares,
desta vez eu dou um (pequeno) desconto, sem muita dor de cabeça: quando
se mergulha em um mundo, tende-se a catalogá-lo nos termos em que ele
nos é apresentado. É da natureza do ser humano catalogar o que lhe cai
em mãos, separar em categorias, dividir, ordenar. Mesmo no lar de uma
pessoa muito bagunceira existe uma certa ordem invisível para qualquer
um que não seja ele – mas mesmo assim, ordem.
Alguns fazem disso uma obsessão, como o cineasta Peter Greenaway, autor
de filmes muito chatos de se assistir mas muito interessantes de se
ver, mesmo com sua chatice. Muitos leitores dessa lista vão dormir
ao assistir "O Livro de Cabeceira", mas jamais vão se esquecer,
visualmente, dele. O que interessa a Greenaway é registrar e catalogar
todo tipo de signo visual. Seu cinema é para poucos, por ser voltado
diretamente ao registro dos signos. É uma classificação particular. Não
se enquadra em uma discussão de caráter geral. Mas a discussão é
pertinente.
Tanto o cinema quanto os quadrinhos são essencialmente histórias
contadas através de imagens. Não dá para comparar um filme do Greenaway
com um "novo filme do Van Damme" feito para o mercado de dvd/vídeo – e
mesmo que nunca tenhamos visto nenhum filme dos dois, sabemos do que se
tratam, pelo estande onde eles ficam nas locadoras, pela programação
gráfica da capa do dvd (que normalmente é o cartaz de cinema desses
filmes), pelos nomes, pelos subtítulos chamativos ou não. Em termos de
classificação, o primeiro é enquadrado genericamente como "drama", mas
para termos práticos é o que chamamos de "cinema de autor". No segundo,
podemos ver "ação brucutu" escrita na testa.
Gênero é uma separação pela percepção superficial do conteúdo. E é ela
quem nos norteia. Claro, há materiais que pertencem a dois ou mais
gêneros. Comédia de faroeste. Suspense de ficção científica. Romance
histórico. O que for. Mas essencialmente procuramos materiais de acordo
com os gêneros no qual eles se encaixam.
E nossos gêneros NÃO SÃO "Shonen" ou "Shoujo" ou "Josei" ou "Seinen" ou
não sei mais o quê. Em termos práticos, não faz sentido pedir "por um
shonen" ou "por um shoujo". No Brasil, Shoujo e Shonen NÃO existem.
Calma que eu explico.
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Em primeiro lugar, vá numa locadora. Veja as classificações. Ação.
Comédia. Drama. Suspense. Terror. Aventura(que não é a mesma coisa que
ação). Romance. Guerra. Artes Marciais. A classificação é farta. Algumas
subdivisões são feitas em certas locadoras – na Blockbuster, filmes
ganhadores de oscar são colocados em uma área e filmes nacionais são
tratados como um gênero a parte (e sinceramente eu acho que NÃO DEVERIA
ser assim – mas vou comentar isso mais adiante). Numa livraria, as
classificações variam, mas não muito. Auto-Ajuda, literatura nacional,
literatura estrangeira, infanto-juvenis, infantis, negócios, ciências,
etc. – mas mesmo assim podemos ver alguma sombra da divisão não por
faixa etária, mas por conteúdo. Você sabe que vai encontrar Desventuras
em Série em um canto não muito distante de onde se encontra o seu Harry
Potter. Livros policiais estão, em geral, juntos. Livros de sobrenatural
e ficção científica (quando se pode encontrá-los), idem.
O mesmo raciocínio vale para filmes. Quando o seu Manel, de cinquenta e
dois anos, vai para a locadora, todos nós sabemos que ele está a fim de
ver um filme policial e estamos conversados. E pensando bem, esse é um
dos trunfos do mercado de dvd/vídeo: ele subdivide tudo e dá o que quer
para quem o quer.
Pois bem. Agora vamos à lista de
classificações da Tokyopop, a mesma que chutou o pau da barraca,
mandou o mercado direto para escanteio e domina as vendagens nos Estados
Unidos: Ação, Drama, Horror, Romance, Comédia, Fantasia, Mistério e
Ficção Científica. Alguns caem em duas ou mais classificações, mas
de resto não faz diferença.
Alguém falou em Shoujo e Shonen por aqui? Não. E acredito seriamente que
foi essa classificação que permitiu à empresa crescer nas livrarias,
oferecendo algo a um público médio que estava já saturado de
super-heróis aprisionados nas grades de nerdice das gibiterias
americanas.
Mas termos japoneses não importam para o cidadão comum que não é fã.
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Ofereça um quadrinho e diga: "É policial", "É drama histórico", "É
comédia romântica", que as pessoas vão saber do que se trata. Um dos
problemas do mangá no Brasil na minha opinião é que ao voltar tudo para
o fã, eles acabaram tornando o mangá, nas bancas, algo como o cinema
brasileiro nas locadoras: um gênero a parte. E aí é que a porca torce o
rabo.
Por que? Porque se enfatiza, dessa forma, mais a sua procedência do que
a natureza do que eles têm a oferecer ao seu público. E no mundo real,
as pessoas lêem materiais dentro do seu espectro de TEMAS favoritos, não
movidos pelo hype dos fãs na Internet. Acredito seriamente que o
naufrágio de dois mangás infantis (Dr. Slump e Shin-Chan) tenha se dado
simplesmente porque esses materiais foram colocados lado a lado com os
outros mangás. Só que para o fã hardcore, Arale e Shin-Chan não
interessam. Nunca vi Dr. Slump ao lado da Mônica nas bancas.
Em miúdos, o que acontece aqui é mais ou menos como quando separamos o
lixo em vidros, plásticos e papéis para fins de reciclagem, e na hora de
tudo ser levado ao lixão... ele é misturado, porque os lixeiros
simplesmente jogam o material todo junto, de uma tacada só. Não se vê
papel, plástico, alumínio ou lixo orgânico. Se vê lixo. E não, amiguinho
do "talibanime" que está doido para me pintar como um monstro... eu NÃO
ESTOU chamando mangá de lixo – apenas quero dizer que o fato dele ser
visto como mangá, e não como outra história em quadrinhos, apenas
enfraquece seu potencial, quando sua força vem justamente de sua
subdivisão em nome da busca por públicos diferentes.
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