Eu já aviso que este texto vai ser chato. Quando você menciona coisas
como LEI, sempre corre o risco de ser chato. Mas é essa chatice que nos
garante lugares na sociedade. É essa chatice que define os direitos que
temos. É essa chatice que precisamos saber para que possamos nos
defender. Esse é um dos momentos. Lembrem-se: se o RPG cair, quem
vocês acham que será o próximo alvo?
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Originalmente eu pensava em fazer uma coluna leve. Eventualmente eu
preciso disso. Alguns leitores me pediram para eu comentar sobre mangás
que eu lesse e acho bons – na verdade, os mangás que eu gosto se
tornaram uma pergunta bem recorrente recentemente. É fato: se eu não
gostasse de animes e mangás, eu não estaria aqui.
E pretendia fazer uma coluna sobre "Quadrinhos de Gênero". Pura e
simplesmente. Porque não estamos no Japão, e classificações como "Shonen
e Shoujo" não fazem sentido. Aí veio a máfia que conhecemos bem,
entrando com um processo retirando o livro de Tormenta das lojas, como
parte de sua campanha contra o rpg – seguida pelo maldito burburinho
provocado por um assassinato no Espírito Santo, cometido por dois caras
que obviamente não são jogadores – Primeiro porque foi verificado o
roubo. Segundo, porque quem conhece rpg sabe que essa história de aposta
não cola.
Eu jogo há anos e nunca vi ninguém apostando nada em mesas de rpg. Que
cenário foi? Que sistema? Como se deu o jogo? Quem foi o mestre? Como se
PERDE um jogo de RPG?
Perguntas como essas, feitas por quem entende do assunto, desarmariam os
assassinos rapidinho. Mas a promotoria não sabe disso, e canais
sensacionalistas de televisão querem fazer de tudo um circo em nome da
audiência, nem se preocupando se o fator liberdade de expressão está em
jogo.
Em miúdos, essa história que eles contam é tão claramente falsa que dá
nos nervos.
Porque isso? Porque eu acredito que este simplesmente seja um caso de
roubo e assassinato comum e para evitar que a população se jogasse
contra eles, decidiram se valer do RPG para tirar seus rabos da reta:
Graças a isso, ninguém fala neles da mesma forma da qual falam da moça
de sobrenome alemão cujo nome esqueci e que matou seus pais ao lado do
namorado, há anos atrás. Apostaram na desinformação do povão – e deu
certo. A mídia aceitou suas palavras como verdade imediata, porque é
mais conveniente satanizar um jogo que ninguém conhece direito no mundo
real – é chato dizer isso, mas as pessoas que não jogam não se
interessam em entender como as coisas funcionam.
A primeira versão que eu estava escrevendo dessa coluna era muito mais
furiosa. Mas o óbvio veio: Simplesmente explodindo no papel, o que eu
faria? Engrossaria o caldo pela liberdade de expressão, mas e daí? Os
verdadeiros inimigos não se importam conosco. Eles têm suas próprias
ovelhas a tocar, que lhes dão dinheiro, que votam neles, e que garantem
que eles possam impôr suas posições contra quem não comunga das posições
deles.
Nessas horas, o jeito é jogar de igual para igual. O Brasil é uma nação
regida por leis.
Nosso país não tem Ordem, mas tem Leis. É lutando para que as leis que
fazem a ordem valer a todos sejam impostas, as leis que permitem que
ninguém tenha o direito de tomar o espaço de ninguém, que poderemos ter
Lei e ter Ordem.
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Em "O Homem que Matou o Facínora", de John Ford, há uma frase
maravilhosa escrita no quadro negro: Educação é a base da Lei e da
Ordem. Aqueles que procuram exercer controle se valem justamente da
estupidez alheia. O primeiro passo é desafiar a estupidez. Estar sempre
disposto a esclarecer quando o inimigo estiver a difamar sempre vai ser
de ajuda.
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Para início de conversa, uma lei que poderia tirar do ar os rpgs, ou as
histórias em quadrinhos, ou o que seja, nos termos da lei, é
inconstitucional nos termos de hoje em dia. Jânio bem que tentou proibir
os quadrinhos, mas graças a Deus ele foi "renunciado". Se ele o tivesse
feito, dificilmente os militares se preocupariam em trazê-los de volta.
Adolfo Aizen, o cabeça por trás da EBAL, por outro lado publicava
materiais que não davam lucro, mas que em compensação serviam para
livrar a empresa de eventuais perseguições militares enquanto ele
mandava para as bancas coisas como o Judoka, Tarzan e o material DC em
geral. Adaptações de livros clássicos, e de biografias históricas – ou
ao menos histórias que lidam com ambientes de época e que, se forem bem
cuidadas nesse quesito, podem despertar interesse para um estudo mais
formal nos que o lêem. Por que não? Isso livrou a cara da EBAL em um
momento nevrálgico. Se ele publicasse, digamos, Lanterna & Arqueiro, com
todo o seu conteúdo político naquele momento, as coisas poderiam não ter
sido tão boas...
Vamos ser honestos: essas coisas não precisam ser chatas. Vagabond pode
não ser um bom exemplo – eu o acho um porre – mas ele é adaptação de um
livro clássico japonês e mal ou bem, segue um caminho mais livre do que
aquelas adaptações de "A Moreninha" que saíram pela Ebal. É de se
lamentar que não haja iniciativas equivalentes por aqui – ao menos da
parte dos futuros desenhistas que pegaram em um lápis após ver
Cavaleiros do Zodíaco e Yu Yu Hakusho na televisão.
Na época em que o RPG sofreu perseguições por causa dos crimes em Ouro
Preto, onde novamente o nome do jogo foi mencionado, uma das inciativas
mais importantes para evitar grandes catástrofes foi o projeto
Mini-Gurps. Claro que muitos jogadores até hoje não gostaram muito do
fato de que eles só lançaram cenários históricos. No entanto, eles estão
aí até hoje e você sempre pode pegar um "Mini-Gurps Entradas e
Bandeiras" ou "Quilombo dos Palmares".
Essa é uma postura defensiva, mas funcional. Se um bando de repórteres
sensacionalistas quiserem puxar você e seu grupo para jogarem algo na
frente das câmeras, escolha estes. Surpreenderá quem está doido para
falar sobre um bando de góticos de butique jogando Vampiro.
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