ANIME PRÓ»»CANAIS»»COLUNAS»»TOWER OF STRENGHT


Contra os donos da ignorância

01 - 02 - 03


Eu já aviso que este texto vai ser chato. Quando você menciona coisas como LEI, sempre corre o risco de ser chato. Mas é essa chatice que nos garante lugares na sociedade. É essa chatice que define os direitos que temos. É essa chatice que precisamos saber para que possamos nos defender. Esse é um dos momentos. Lembrem-se: se o RPG cair, quem vocês acham que será o próximo alvo?
**************************

Originalmente eu pensava em fazer uma coluna leve. Eventualmente eu preciso disso. Alguns leitores me pediram para eu comentar sobre mangás que eu lesse e acho bons – na verdade, os mangás que eu gosto se tornaram uma pergunta bem recorrente recentemente. É fato: se eu não gostasse de animes e mangás, eu não estaria aqui.

E pretendia fazer uma coluna sobre "Quadrinhos de Gênero". Pura e simplesmente. Porque não estamos no Japão, e classificações como "Shonen e Shoujo" não fazem sentido. Aí veio a máfia que conhecemos bem, entrando com um processo retirando o livro de Tormenta das lojas, como parte de sua campanha contra o rpg – seguida pelo maldito burburinho provocado por um assassinato no Espírito Santo, cometido por dois caras que obviamente não são jogadores – Primeiro porque foi verificado o roubo. Segundo, porque quem conhece rpg sabe que essa história de aposta não cola.

Eu jogo há anos e nunca vi ninguém apostando nada em mesas de rpg. Que cenário foi? Que sistema? Como se deu o jogo? Quem foi o mestre? Como se PERDE um jogo de RPG?

Perguntas como essas, feitas por quem entende do assunto, desarmariam os assassinos rapidinho. Mas a promotoria não sabe disso, e canais sensacionalistas de televisão querem fazer de tudo um circo em nome da audiência, nem se preocupando se o fator liberdade de expressão está em jogo.

Em miúdos, essa história que eles contam é tão claramente falsa que dá nos nervos.

Porque isso? Porque eu acredito que este simplesmente seja um caso de roubo e assassinato comum e para evitar que a população se jogasse contra eles, decidiram se valer do RPG para tirar seus rabos da reta: Graças a isso, ninguém fala neles da mesma forma da qual falam da moça de sobrenome alemão cujo nome esqueci e que matou seus pais ao lado do namorado, há anos atrás. Apostaram na desinformação do povão – e deu certo. A mídia aceitou suas palavras como verdade imediata, porque é mais conveniente satanizar um jogo que ninguém conhece direito no mundo real – é chato dizer isso, mas as pessoas que não jogam não se interessam em entender como as coisas funcionam.

A primeira versão que eu estava escrevendo dessa coluna era muito mais furiosa. Mas o óbvio veio: Simplesmente explodindo no papel, o que eu faria? Engrossaria o caldo pela liberdade de expressão, mas e daí? Os verdadeiros inimigos não se importam conosco. Eles têm suas próprias ovelhas a tocar, que lhes dão dinheiro, que votam neles, e que garantem que eles possam impôr suas posições contra quem não comunga das posições deles.

Nessas horas, o jeito é jogar de igual para igual. O Brasil é uma nação regida por leis.

Nosso país não tem Ordem, mas tem Leis. É lutando para que as leis que fazem a ordem valer a todos sejam impostas, as leis que permitem que ninguém tenha o direito de tomar o espaço de ninguém, que poderemos ter Lei e ter Ordem.
**************************

Em "O Homem que Matou o Facínora", de John Ford, há uma frase maravilhosa escrita no quadro negro: Educação é a base da Lei e da Ordem. Aqueles que procuram exercer controle se valem justamente da estupidez alheia. O primeiro passo é desafiar a estupidez. Estar sempre disposto a esclarecer quando o inimigo estiver a difamar sempre vai ser de ajuda.
**************************

Para início de conversa, uma lei que poderia tirar do ar os rpgs, ou as histórias em quadrinhos, ou o que seja, nos termos da lei, é inconstitucional nos termos de hoje em dia. Jânio bem que tentou proibir os quadrinhos, mas graças a Deus ele foi "renunciado". Se ele o tivesse feito, dificilmente os militares se preocupariam em trazê-los de volta.

Adolfo Aizen, o cabeça por trás da EBAL, por outro lado publicava materiais que não davam lucro, mas que em compensação serviam para livrar a empresa de eventuais perseguições militares enquanto ele mandava para as bancas coisas como o Judoka, Tarzan e o material DC em geral. Adaptações de livros clássicos, e de biografias históricas – ou ao menos histórias que lidam com ambientes de época e que, se forem bem cuidadas nesse quesito, podem despertar interesse para um estudo mais formal nos que o lêem. Por que não? Isso livrou a cara da EBAL em um momento nevrálgico. Se ele publicasse, digamos, Lanterna & Arqueiro, com todo o seu conteúdo político naquele momento, as coisas poderiam não ter sido tão boas...

Vamos ser honestos: essas coisas não precisam ser chatas. Vagabond pode não ser um bom exemplo – eu o acho um porre – mas ele é adaptação de um livro clássico japonês e mal ou bem, segue um caminho mais livre do que aquelas adaptações de "A Moreninha" que saíram pela Ebal. É de se lamentar que não haja iniciativas equivalentes por aqui – ao menos da parte dos futuros desenhistas que pegaram em um lápis após ver Cavaleiros do Zodíaco e Yu Yu Hakusho na televisão.

Na época em que o RPG sofreu perseguições por causa dos crimes em Ouro Preto, onde novamente o nome do jogo foi mencionado, uma das inciativas mais importantes para evitar grandes catástrofes foi o projeto Mini-Gurps. Claro que muitos jogadores até hoje não gostaram muito do fato de que eles só lançaram cenários históricos. No entanto, eles estão aí até hoje e você sempre pode pegar um "Mini-Gurps Entradas e Bandeiras" ou "Quilombo dos Palmares".

Essa é uma postura defensiva, mas funcional. Se um bando de repórteres sensacionalistas quiserem puxar você e seu grupo para jogarem algo na frente das câmeras, escolha estes. Surpreenderá quem está doido para falar sobre um bando de góticos de butique jogando Vampiro.


Avançar >>

[ topo ]