Essencialmente: Quando eu estava na sétima série, eu odiava uma menina
que fui forçado a conhecer na escola. E seu nome era Pollyanna Whittier.
Na verdade, eu a conheci através de sua segunda marca de existência no
mundo, "Poliana Moça" (Pollyanna Grows Up), de Eleanor Porter,
imposta pelos professores. Só outra pessoa, da qual já tinha ouvido
falar mas novamente só fui conhecer através da vida escolar, conseguiu
me trazer maior desprazer: José de Alencar, o maior responsável por toda
uma geração de adolescentes odiarem a literatura em todo o Brasil. Eu
por sorte já havia lido gente muito melhor, e já gostava de livros;
estava vacinado.
Não sei se esse livro ainda é imposto nas escolas. Espero que não. Os
garotos da sexta série estavam sendo forçados a ler Poliana(Pollyanna),
o original. Eu não me interessava em ver como tudo aquilo começou e não
vou dar grandes sinopses. Basta saber que a protagonista era uma garota
muito boazinha que topava com pessoas desesperançadas e ensinava a todas
elas o "jogo do contente". Explica-se: Quando ela era bem menor,
esperava ganhar uma boneca – e o pai, um missionário, lhe deu um par de
muletas. A menina ficou infeliz, mas o objetivo disso era uma lição:
"qualquer coisa, no fundo, no fundo, tem o poder de tornar a nós
contentes". No caso em questão, era o fato dela NÃO precisar de muletas.
Ela entendeu. E mimetizou esse aprendizado num jogo que consistia em
encontrar o lado bom de tudo de ruim que lhe acontecesse, e dessa forma
ficar feliz, ao invés de ficar fula e tomar alguma atitude.
Ora, eu nunca fui de acreditar em teorias da conspiração, mas na minha
cabeça de adolescente que já começava a pôr a cabeça para funcionar,
aquilo se chamava demagogia – e não seria surpresa se o livro tivesse
sido imposto à grade dos jovens estudantes durante o regime militar(hoje
eu acredito que isso seja bem mais antigo). Aquilo é um manual horroroso
de conformismo, de baixar a cabeça quando as coisas "são como são". Para
quem desde cedo acreditou na iniciativa própria, na vontade de virar o
jogo e vencer, um manual do pensamento conformista como o jogo do
contente só conseguiu uma coisa. Me revoltar. E passei a desconfiar
desse tipo de pensamento. Não foi a toa que Alan Moore, no seu Liga
Extraordinária, sugeriu brilhantemente que a personagem fosse, pura e
simplesmente, masoquista...
Não dá para ler o primeiro volume de Fruit Basket sem lembrar de
Pollyanna. Mas eu não estou mais na sétima série. Já posso ser
imparcial.
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Para quem ficou sem coragem de comprar – como eu, que levei séculos para
tomar a iniciativa, atrasando a produção desta coluna em semanas, até
que respirei fundo e fui; e que adoraria trocar o voluminho verde pelo
Tex Gigante, pelo Pato Donald do Barks, até por Witch Collection(onde as
histórias não estão acompanhadas pelas malditas matérias sobre
comportamento tween): Tohru é uma moça, que sendo órfã e vivendo na casa
do avô, é delicadamente expulsa por ele – só lhe restando viver numa
barraca de camping num terreno baldio para não cair na sarjeta, e
aparentemente (porque a autora não deixa bem clara a natureza do
cenário), trabalhar como faxineira no que parece ser um prédio de
escritórios.
A carga dramática dessa situação, que seria melodramaticamente explorada
nos anos setenta, aqui é bem suavizada. Por um imenso golpe do destino,
ela acaba perdendo a barraca num desmoronamento de barranco. Mas por
sorte, o terreno não é baldio e tem dono: faz parte da enorme extensão
de posses da família Sohma, da qual faz parte o cara mais bonito da
escola...
(Sim, podem chamar os mariachis e tocar as maracas.)
Claro, os traços são enganadores quanto a aparência do sujeito – o Yuki
merece todas as piadas quanto à sua masculinidade possíveis, graças à
forma com que ele é desenhado, mas uma leitura superficial já denota que
essa é uma acusação injusta. Pelo menos, no primeiro volume. Logo, ela
quer tornar a vida dos outros mais felizes – e diferente de Pollyanna,
ao menos nesse aspecto, ela tem um objetivo na vida maior do que fazer
apenas isso da vida: no caso em questão, Tohru quer estudar
decentemente, coisa que sua finada mãe não conseguiu.
Mas de resto é quase a mesma personagem. Quando ela tem que trabalhar,
aparentemente como faxineira, aparece um discurso assustadoramente
familiar: "Um dia eu terei que morar sozinha! O melhor é pensar que esta
é uma chance de me preparar para esta dura realidade! É isso
mesmo, as coisas podem ser boas ou ruins, só depende de meu ponto de
vista! E isto vale mesmo que eu esteja morando numa barraca em
promoção, por falta de dinheiro... Os vendedores ambulantes não batem à
minha porta..." A menina conclui essa pérola com a seguinte frase:
"Não fraquejarei! Qualquer lugar pode se tornar um lar! ATÉ UMA
BARRACA PODE SE TORNAR UM LAR!"
Eu pessoalmente achei o primeiro volume algo mal escrito no primeiro
capítulo, onde a autora se vê com uma sobrecarga de informação
necessária e não parece saber lidar com ela; nos capítulos posteriores,
ainda no mesmo volume, ela escreve com mais fluência narrativa, mas até
engrenar, a leitura do texto é meio atravancada. De resto, É algo
novelesco, emocional... e sinceramente, rasteiro. Como Pollyanna.
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As críticas desferidas contra essa série são válidas? São. A escolha do
título está errada? Talvez não. Eu poderia fazer mil comentários, mas
sinceramente, um amigo definiu melhor do que eu em poucas palavras: "Arte
fraca, uma Sailor Moon sem magia. O roteiro se resume a dramas infantis
de aceitação e 'socialização', basicamente uma Pollyanna(sim, ele notou
o óbvio também) contra um "mundo cruel", mas nem tão cruel assim. ;-)
Poderia ser perfeitamente uma novela global das seis. Ou mesmo o
"Malhação"..." Lendo o material, eu não tenho como discordar. E aí a
gente chega ao ponto.
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Tohru não é a Miaka de Fushigi Yuugi – Graças a Deus. O seu raciocínio é
acessível a um ser humano que não seja otaku. O que de um lado é, e por
outro lado não é, algo muito animador, diga-se de passagem. Quanta gente
leu Poliana e achou um livro "lindo?" Se não quiser fuçar opiniões a
respeito do livro no google para encontrar a resposta, fuçe na rua; será
mais fácil encontrar isso do que encontrar quem leia mangás.
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