ANIME PRÓ»»CANAIS»»COLUNAS»»TOWER OF STRENGHT


Fabricando Sonhos

01 - 02


Quem leu os jornais e soube das tempestades do Rio de Janeiro, mais um blecaute em certos bairros da Zona Oeste da cidade no dia seguinte(seguido por outro no dia posterior... oh, droga...), já deve ter idéia do porque do atraso dessa coluna – principalmente quando falarmos de um pico de luz e de um arquivo de texto devidamente corrompido após a catástrofe. Eu pensei em colocar uma coluna mais curta, mas quando vi que ela iria ao ar em uma terça-feira no mínimo, achei melhor deixá-la para sexta seguinte. Desculpem aqueles que esperavam por mim – e vamos adiante.

Em todo caso, eu iria falar sobre Fruit Basket. Antes que a notícia ficasse velha. No entanto, os quarenta anos da Globo dão algo muito importante a se pensar – e por isso mesmo, ela toma frente na fila. Quanto a Furuba(ô, apelido de duplo sentido)... bom, a revista número um ainda estará nas bancas quando eu abrir a boca sobre ela – ou ao menos eu espero...
**************************

Essa história é meio velhinha: Quando comentado ao acaso sobre um brasileiro que, em um chat com uma japonesa que fazia cursos de mangá no seu país de origem (desconfio que se tratava da Gegika Sonjuko de Kazuo Koike), mencionou sobre a produção de quadrinhos no Brasil, ela recomendou uma coisinha que não deixei de esquecer:

"Faça de seu país, dentro do possível, o melhor país do mundo."

A Globo de certa forma apostou nessa fórmula – e deu certo. Mal ou bem, ela se especializou em produzir sonhos enquanto o cinema brasileiro, em seu tempo, decidiu ou mostrar nossos horrores – ou jogar baixaria nas telas para desafogar o extremo desses mesmos horrores no nosso dia a dia. Pode conferir. O auge da Globo, se pensarmos bem, foi nos anos setenta e oitenta. Dos noventa para cá, só ladeira abaixo. Não há muito o que comemorar nesta data dos quarenta anos. Porque isto?

Bom, o que vamos falar daqui em diante diz respeito a dramaturgia e entretenimento, independentemente do fato da Globo ter sido sempre um instrumento praticamente assumido de manipulação ideológica – e não estou fazendo dela o bicho papão que a esquerda gosta de fazer: ela na verdade sempre teve suas agendas e podem ser aliadas ao poder ou não. A Globo sempre serviu aos interesses da própria Globo, nada mais, nada menos, e nisso ela não é diferente de qualquer corporação, ainda mais no ramo das comunicações – basta ver o exemplo da Fox News americana, que na Guerra do Iraque se mostrou um dos exemplos mais vergonhosos de jornalismo tendencioso já vistos. Corporações se aliam a quem está por cima e a quem possa melhor garantir seus interesses, e se o governo Bush e seus aliados hipoteticamente caissem de forma particularmente infame e vergonhosa ante aos olhos do próprio público americano, tenho certeza que a Fox News seria a primeira a fazer um circo em cima do caso. Empresas não tem ideologia.

Como diria a dupla caipira favorita do meu pai, Alvarenga e Ranchinho: "Dito isto, vamos ao que vende."
**************************

Numa coluna bem anterior, "Quadrinhos, Uma Telenovela" comparei a crise criativa das telenovelas com a crise criativa dos mangás. A comparação procedia, porque ambos desempenham o mesmo papel social em seus respectivos países. Não quero me repetir, mas não custa uma recapitulação rápida de um detalhe: Se a imitação do conteúdo do material estrangeiro que permeava o imaginário do espectador foi quem garantiu a estabilidade inicial dos formatos teledramatúrgicos para o público, foi a sua posterior nacionalização que lhes deu uma cara(ironicamente, quem deu esse passo foi a finada TV Tupi, enquanto a Globo apostava em dramas românticos de época, passados em outros países, muito na crista dos velhos filmes hollywoodianos do gênero).

Mas essencialmente: o trunfo dessa abordagem cotidiana, em contraponto à suas origens "de época" foi não ter mexido na estrutura básica de sua dramaturgia de folhetim, apenas tê-la tornado mais... "reais." E coloco esse "reais" entre aspas bem grandes. Novela é essencialmente ficção, escapismo, conto de fadas. E com isso, ela vem se sustentando muito bem, obrigado.
**************************

Nessa comemoração de quarenta anos, volta e meia aparece o Sérgio Chapelin falando sobre a "fábrica de sonhos". Bingo. É isso que eles se pretendem ser. E por isso a Globo se instalou no imaginário brasileiro. Mas ela só conseguiu isso porque nunca desafiou demais a cultura do brasileiro médio. E talvez por isso o SBT volta e meia seja um calo no sapato da Vênus Platinada.

Explica-se, com um exemplo que vai me garantir protestos mas que antes de mais nada diz respeito a uma postura POPULAR, não necessariamente minha – e que uso como mero exemplo: Recentemente, no "A Praça é Nossa", o Moacyr Franco apareceu com um dos seus personagens dizendo que criava sapos. Aí deixou os anfíbios vendo a TV Globo por alguns dias. Quando voltou, "estava uma loucura": vendo novela, big brother e o diacho, e viraram todos gays, porque por todo o horário nobre da Globo gay é que não faltava. Vão chamar de homofobia?

Já devo ter citado isto antes em alguma coluna, mas como não lembro qual foi, vou citar de novo: numa espetacular – e extremamente sensata – coluna de Martha Medeiros para "O Globo" em 1º de Agosto do ano passado (2004), ela definiu de forma exata essa discrepância entre dois mundos que não se tocam: "A maioria esmagadora dos brasileiros não vê graça em comer endívias, vivem em lugares que em nada se parecem com a casa cor, adora combinar brinco, colar e pulseira, não está nem aí para o que é chique e o que é tendência – principalmente tendência de comportamento. Neste país de credos e origens tão distintas, há de tudo, inclusive ainda muito puritanismo e conservadorismo, e a gente, da turma do umbigo, nem se toca que nossas idéias cosmopolitas e arrojadas podem soar a eles como uma violência."

Aí, vão dizer: "Pô, vai usar um exemplo tirado de A Praça é Nossa? Isso é coisa de ralé..."

Se você disser isso, vai chegar ao cerne da questão. Não é o povo que é ralé. Somos nós que somos muito bestas. Afinal, desde quando Tenchi Muyo e Love Hina são sinônimos de humor inteligente e refinado? E mais ainda, já se perguntaram se é refinamento que os outros querem?
**************************

Avançar >>

[ topo ]