Quem leu os jornais e soube das tempestades do Rio de Janeiro, mais um
blecaute em certos bairros da Zona Oeste da cidade no dia
seguinte(seguido por outro no dia posterior... oh, droga...), já deve
ter idéia do porque do atraso dessa coluna – principalmente quando
falarmos de um pico de luz e de um arquivo de texto devidamente
corrompido após a catástrofe. Eu pensei em colocar uma coluna mais
curta, mas quando vi que ela iria ao ar em uma terça-feira no mínimo,
achei melhor deixá-la para sexta seguinte. Desculpem aqueles que
esperavam por mim – e vamos adiante.
Em todo caso, eu iria falar sobre Fruit Basket. Antes que a notícia
ficasse velha. No entanto, os quarenta anos da Globo dão algo muito
importante a se pensar – e por isso mesmo, ela toma frente na fila.
Quanto a Furuba(ô, apelido de duplo sentido)... bom, a revista número um
ainda estará nas bancas quando eu abrir a boca sobre ela – ou ao menos
eu espero...
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Essa história é meio velhinha: Quando comentado ao acaso sobre um
brasileiro que, em um chat com uma japonesa que fazia cursos de mangá no
seu país de origem (desconfio que se tratava da Gegika Sonjuko de Kazuo
Koike), mencionou sobre a produção de quadrinhos no Brasil, ela
recomendou uma coisinha que não deixei de esquecer:
"Faça de seu país, dentro do possível, o melhor país do mundo."
A Globo de certa forma apostou nessa fórmula – e deu certo. Mal ou bem,
ela se especializou em produzir sonhos enquanto o cinema brasileiro, em
seu tempo, decidiu ou mostrar nossos horrores – ou jogar baixaria nas
telas para desafogar o extremo desses mesmos horrores no nosso dia a
dia. Pode conferir. O auge da Globo, se pensarmos bem, foi nos anos
setenta e oitenta. Dos noventa para cá, só ladeira abaixo. Não há muito
o que comemorar nesta data dos quarenta anos. Porque isto?
Bom, o que vamos falar daqui em diante diz respeito a dramaturgia e
entretenimento, independentemente do fato da Globo ter sido sempre um
instrumento praticamente assumido de manipulação ideológica – e não
estou fazendo dela o bicho papão que a esquerda gosta de fazer: ela na
verdade sempre teve suas agendas e podem ser aliadas ao poder ou não. A
Globo sempre serviu aos interesses da própria Globo, nada mais, nada
menos, e nisso ela não é diferente de qualquer corporação, ainda mais no
ramo das comunicações – basta ver o exemplo da Fox News americana, que
na Guerra do Iraque se mostrou um dos exemplos mais vergonhosos de
jornalismo tendencioso já vistos. Corporações se aliam a quem está por
cima e a quem possa melhor garantir seus interesses, e se o governo Bush
e seus aliados hipoteticamente caissem de forma particularmente infame e
vergonhosa ante aos olhos do próprio público americano, tenho certeza
que a Fox News seria a primeira a fazer um circo em cima do caso.
Empresas não tem ideologia.
Como diria a dupla caipira favorita do meu pai, Alvarenga e Ranchinho:
"Dito isto, vamos ao que vende."
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Numa coluna bem anterior, "Quadrinhos,
Uma Telenovela" comparei a crise criativa das telenovelas com a
crise criativa dos mangás. A comparação procedia, porque ambos
desempenham o mesmo papel social em seus respectivos países. Não quero
me repetir, mas não custa uma recapitulação rápida de um detalhe: Se a
imitação do conteúdo do material estrangeiro que permeava o imaginário
do espectador foi quem garantiu a estabilidade inicial dos formatos
teledramatúrgicos para o público, foi a sua posterior nacionalização que
lhes deu uma cara(ironicamente, quem deu esse passo foi a finada TV
Tupi, enquanto a Globo apostava em dramas românticos de época, passados
em outros países, muito na crista dos velhos filmes hollywoodianos do
gênero).
Mas essencialmente: o trunfo dessa abordagem cotidiana, em contraponto à
suas origens "de época" foi não ter mexido na estrutura básica de sua
dramaturgia de folhetim, apenas tê-la tornado mais... "reais." E coloco
esse "reais" entre aspas bem grandes. Novela é essencialmente ficção,
escapismo, conto de fadas. E com isso, ela vem se sustentando muito bem,
obrigado.
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Nessa comemoração de quarenta anos, volta e meia aparece o Sérgio
Chapelin falando sobre a "fábrica de sonhos". Bingo. É isso que eles se
pretendem ser. E por isso a Globo se instalou no imaginário brasileiro.
Mas ela só conseguiu isso porque nunca desafiou demais a cultura do
brasileiro médio. E talvez por isso o SBT volta e meia seja um calo no
sapato da Vênus Platinada.
Explica-se, com um exemplo que vai me garantir protestos mas que antes
de mais nada diz respeito a uma postura POPULAR, não necessariamente
minha – e que uso como mero exemplo: Recentemente, no "A Praça é Nossa",
o Moacyr Franco apareceu com um dos seus personagens dizendo que criava
sapos. Aí deixou os anfíbios vendo a TV Globo por alguns dias. Quando
voltou, "estava uma loucura": vendo novela, big brother e o diacho, e
viraram todos gays, porque por todo o horário nobre da Globo gay é que
não faltava. Vão chamar de homofobia?
Já devo ter citado isto antes em alguma coluna, mas como não lembro qual
foi, vou citar de novo: numa espetacular – e extremamente sensata –
coluna de Martha Medeiros para "O Globo" em 1º de Agosto do ano passado
(2004), ela definiu de forma exata essa discrepância entre dois mundos
que não se tocam: "A maioria esmagadora dos brasileiros não vê graça em
comer endívias, vivem em lugares que em nada se parecem com a casa cor,
adora combinar brinco, colar e pulseira, não está nem aí para o que é
chique e o que é tendência – principalmente tendência de comportamento.
Neste país de credos e origens tão distintas, há de tudo, inclusive
ainda muito puritanismo e conservadorismo, e a gente, da turma do
umbigo, nem se toca que nossas idéias cosmopolitas e arrojadas podem
soar a eles como uma violência."
Aí, vão dizer: "Pô, vai usar um exemplo tirado de A Praça é Nossa? Isso
é coisa de ralé..."
Se você disser isso, vai chegar ao cerne da questão. Não é o povo que é
ralé. Somos nós que somos muito bestas. Afinal, desde quando Tenchi Muyo
e Love Hina são sinônimos de humor inteligente e refinado? E mais ainda,
já se perguntaram se é refinamento que os outros querem?
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