Sempre que não há um grande assunto a se dizer, uma grande novidade, um
lançamento notável, ou algo apenas interessante, só restam duas saídas:
arrancar os cabelos e chorar, ou... falar de tudo um pouco. Novamente,
estou quebrando o vidro de emergência.
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B'tX saiu nas bancas e ao menos mostrou uma surpresa: Kurumada evoluiu.
Não que seja nada espetacular, mas o acabamento do seu trabalho atual é
bem melhor e mais limpo do que sua toscaria nos tempos dos Cavaleiros
do Zodíaco. Já está arte-finalizando melhor e, provavelmente, deve ter
melhores assistentes – a reticulagem está melhor pensada.
Infelizmente ele não evoluiu muito mais além disso.
Kurumada tem boas idéias; falta a ele competência para executá-las, mas
o sistema vigente garantiu que não houvessem problemas com isso – na
época da Jump ele estava rodeado de editores para garantir que o
material desse certo mesmo assim. Os Cavaleiros foram uma grande sacada
comercial, do ponto de vista dos fabricantes de brinquedos. E não há
nada errado nisso: Gundam também foi criado para vender brinquedos. Mas
dêem uma olhada em Zeta Gundam, o melhor exemplo do ponto que estou
definindo aqui. De um lado, é a história mais dramática, memorável e
intensa do universo Gundam, trazendo os personagens da série original
bem mais velhos, amadurecidos, com experiências de vida que jogam novas
perspectivas sobre a visão que temos dos personagens. A carga de drama é
feita com tanta competência que esconde o outro lado dessa dicotomia:
praticamente a cada dois ou três episódios somos apresentados a um
modelo novo, feito para vender garage kits.
Na verdade, Cavaleiros era potencial puro. Foi a animação quem o elevou
à enésima potência. Shingo Araki(Rosa de Versalhes, Babel II) era melhor
character designer do que Kurumada; as "esticadas" na primeira fase,
feita por "roteiristas fantasmas", foram não só bem-vindas como tornaram
os personagens algo mais classificáveis como super-heróis – o que
combinou bem com eles. Kurumada deve ter percebido isso: no seu Episódio
G, há uma ligação maior do cenário com o mundo real, e isso deu alguma
consistência que a série não tinha. Esse tipo de ligação foi feita na
série de tv, quando os cavaleiros foram convocados para capturar
cavaleiros vilões que atacaram um navio, lembram?
O roteiro é auto-clonagem mesmo e todo mundo sabe disso. Que se malhe o
cachorro morto, tudo bem. Mas há medalhões que fazem roteiros tão ruins
quanto, e por serem cultuados, ou melhores desenhistas(ser melhor
desenhista do que o Kurumada não é difícil), geram pedradas a rodo. O
roteiro de B'tX é medíocre, mas tem mais pé e cabeça do que X, da Clamp.
Não deixa de ser curioso que o roteiro de Episódio G, posterior a B'tX,
mesmo não sendo brilhante, é até decente. Talvez longe do lápis ele
renda melhor, afinal.
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Ainda no território "A Volta dos que não foram": Xuxa está de volta,
apesar da estabilidade da TV Globinho e de seus desenhos. Hoje em dia se
sabe o óbvio: ninguém assiste programa infantil por causa da
apresentadora, o negócio é desenho animado mesmo.
Esse é o país dos problemas endêmicos. Em todos os tipos de terreno.
Xuxa não é um ser humano, é um problema encarnado. Fiz uma
inteira coluna a respeito do assunto,
que afinal de contas influencia a nós no sentido de como os desenhos
animados são exibidos no Brasil. Nessa coluna, escrevi e repito: "Dez
anos de Xuxa. Dez anos de uma babá eletrônica que despejou um misto de
consumismo, vulgaridade, cérebro desligado e tendenciosidade cujo ponto
alto foram os circos que se fizeram quanto ao nascimento de sua filha
programada para prosseguir com esse ciclo de estupidez e a
verdadeiramente simbólica cena da apresentadora, vestida como uma alien,
no palácio do planalto, sendo recebida por Fernando Collor. E para quem
quer só ver desenhos animados... Bom, é um calvário."
Enquanto isso, o desenho animado infantil Anabel estreiará na Nick em
breve – e a Cartoon já mostra intenção de trazer o bloco Adult Swim.
Existe vida fora do mundo da tv aberta, feliz e infelizmente. Feliz
porque é uma saída. Infelizmente porque não é uma saída para todo mundo.
Qual é a verdadeira origem do famoso "padrão de qualidade Globo?" É
simples: havia uma classe média mais exigente, e com maior poder
aquisitivo, precisando de programas onde se pudessem veicular anúncios
que os assistissem. Apenas isso. Para estes, haviam seriados,
longa-metragens e novelas das dez, que eram esteticamente mais ousadas.
Já repararam o não-surgimento de nada comparável a Saramandaia(que foi
meramente diluída por seus "sucessores") ou O Rebu(uma novela passada
numa única noite, com vaivéns cronológicos, e com trilha sonora composta
por Raul Seixas)?
Hoje em dia essa classe média migrou para a televisão a cabo. Lá eles
têm os longas e os seriados que tanto apreciam, e esse público vive tão
a parte do público médio que conheço muita gente que chama "Plantão
Médico" pelo seu nome original "E.R." – e ainda pronunciam "Í-Árrrr",
distanciando-se ainda mais do ser humano normal que não tem tv por
assinatura. Mas a tv por assinatura, como o próprio nome diz, é paga.
Isso é o bastante – compra-se o que quer. A Globo tem seu próprio
sistema de tv por assinatura, porque iria competir consigo mesma? Bom
dizer que o Multishow é parte do sistema NET/Globosat, e se não me
engano, foi nela onde Wings of Honneamise foi exibido.
Portanto, para a Globo, o jogo passou a ser popularizar. Acredito que
seja possível fazer material popular mas com qualidade. A própria Globo
fez isso muito bem nos anos setenta e oitenta. Mas sob a atual norma,
ser popular é descer alguns graus na escala evolutiva. Consta que a
cúpula da Globo, há alguns anos, se reuniu para discutir um provável
remake de "A Escrava Isaura". Desistiram, porque "O que importa hoje em
dia é ver gente bonita". Resultado: outro canal comprou a idéia e tem a
vice-liderança do horário.
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