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Na falta do que dizer...

01 - 02


Sempre que não há um grande assunto a se dizer, uma grande novidade, um lançamento notável, ou algo apenas interessante, só restam duas saídas: arrancar os cabelos e chorar, ou... falar de tudo um pouco. Novamente, estou quebrando o vidro de emergência.
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B'tX saiu nas bancas e ao menos mostrou uma surpresa: Kurumada evoluiu. Não que seja nada espetacular, mas o acabamento do seu trabalho atual é bem melhor e mais limpo do que sua toscaria nos tempos dos Cavaleiros do Zodíaco. Já está arte-finalizando melhor e, provavelmente, deve ter melhores assistentes – a reticulagem está melhor pensada.

Infelizmente ele não evoluiu muito mais além disso.

Kurumada tem boas idéias; falta a ele competência para executá-las, mas o sistema vigente garantiu que não houvessem problemas com isso – na época da Jump ele estava rodeado de editores para garantir que o material desse certo mesmo assim. Os Cavaleiros foram uma grande sacada comercial, do ponto de vista dos fabricantes de brinquedos. E não há nada errado nisso: Gundam também foi criado para vender brinquedos. Mas dêem uma olhada em Zeta Gundam, o melhor exemplo do ponto que estou definindo aqui. De um lado, é a história mais dramática, memorável e intensa do universo Gundam, trazendo os personagens da série original bem mais velhos, amadurecidos, com experiências de vida que jogam novas perspectivas sobre a visão que temos dos personagens. A carga de drama é feita com tanta competência que esconde o outro lado dessa dicotomia: praticamente a cada dois ou três episódios somos apresentados a um modelo novo, feito para vender garage kits.

Na verdade, Cavaleiros era potencial puro. Foi a animação quem o elevou à enésima potência. Shingo Araki(Rosa de Versalhes, Babel II) era melhor character designer do que Kurumada; as "esticadas" na primeira fase, feita por "roteiristas fantasmas", foram não só bem-vindas como tornaram os personagens algo mais classificáveis como super-heróis – o que combinou bem com eles. Kurumada deve ter percebido isso: no seu Episódio G, há uma ligação maior do cenário com o mundo real, e isso deu alguma consistência que a série não tinha. Esse tipo de ligação foi feita na série de tv, quando os cavaleiros foram convocados para capturar cavaleiros vilões que atacaram um navio, lembram?

O roteiro é auto-clonagem mesmo e todo mundo sabe disso. Que se malhe o cachorro morto, tudo bem. Mas há medalhões que fazem roteiros tão ruins quanto, e por serem cultuados, ou melhores desenhistas(ser melhor desenhista do que o Kurumada não é difícil), geram pedradas a rodo. O roteiro de B'tX é medíocre, mas tem mais pé e cabeça do que X, da Clamp.

Não deixa de ser curioso que o roteiro de Episódio G, posterior a B'tX, mesmo não sendo brilhante, é até decente. Talvez longe do lápis ele renda melhor, afinal.
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Ainda no território "A Volta dos que não foram": Xuxa está de volta, apesar da estabilidade da TV Globinho e de seus desenhos. Hoje em dia se sabe o óbvio: ninguém assiste programa infantil por causa da apresentadora, o negócio é desenho animado mesmo.

Esse é o país dos problemas endêmicos. Em todos os tipos de terreno. Xuxa não é um ser humano, é um problema encarnado. Fiz uma inteira coluna a respeito do assunto, que afinal de contas influencia a nós no sentido de como os desenhos animados são exibidos no Brasil. Nessa coluna, escrevi e repito: "Dez anos de Xuxa. Dez anos de uma babá eletrônica que despejou um misto de consumismo, vulgaridade, cérebro desligado e tendenciosidade cujo ponto alto foram os circos que se fizeram quanto ao nascimento de sua filha programada para prosseguir com esse ciclo de estupidez e a verdadeiramente simbólica cena da apresentadora, vestida como uma alien, no palácio do planalto, sendo recebida por Fernando Collor. E para quem quer só ver desenhos animados... Bom, é um calvário."

Enquanto isso, o desenho animado infantil Anabel estreiará na Nick em breve – e a Cartoon já mostra intenção de trazer o bloco Adult Swim. Existe vida fora do mundo da tv aberta, feliz e infelizmente. Feliz porque é uma saída. Infelizmente porque não é uma saída para todo mundo.

Qual é a verdadeira origem do famoso "padrão de qualidade Globo?" É simples: havia uma classe média mais exigente, e com maior poder aquisitivo, precisando de programas onde se pudessem veicular anúncios que os assistissem. Apenas isso. Para estes, haviam seriados, longa-metragens e novelas das dez, que eram esteticamente mais ousadas. Já repararam o não-surgimento de nada comparável a Saramandaia(que foi meramente diluída por seus "sucessores") ou O Rebu(uma novela passada numa única noite, com vaivéns cronológicos, e com trilha sonora composta por Raul Seixas)?

Hoje em dia essa classe média migrou para a televisão a cabo. Lá eles têm os longas e os seriados que tanto apreciam, e esse público vive tão a parte do público médio que conheço muita gente que chama "Plantão Médico" pelo seu nome original "E.R." – e ainda pronunciam "Í-Árrrr", distanciando-se ainda mais do ser humano normal que não tem tv por assinatura. Mas a tv por assinatura, como o próprio nome diz, é paga. Isso é o bastante – compra-se o que quer. A Globo tem seu próprio sistema de tv por assinatura, porque iria competir consigo mesma? Bom dizer que o Multishow é parte do sistema NET/Globosat, e se não me engano, foi nela onde Wings of Honneamise foi exibido.

Portanto, para a Globo, o jogo passou a ser popularizar. Acredito que seja possível fazer material popular mas com qualidade. A própria Globo fez isso muito bem nos anos setenta e oitenta. Mas sob a atual norma, ser popular é descer alguns graus na escala evolutiva. Consta que a cúpula da Globo, há alguns anos, se reuniu para discutir um provável remake de "A Escrava Isaura". Desistiram, porque "O que importa hoje em dia é ver gente bonita". Resultado: outro canal comprou a idéia e tem a vice-liderança do horário.
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