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Um pouco de Sentimento

01 - 02


Há vários anos, ouvi essa história que jamais vou me esquecer.

Uma moça, que tendo morado no Nordeste muitos anos atrás, me contou que um certo programa de televisão parava a cidade inteira no interior onde ela residia. Rigorosamente naquela hora, as famílias se juntavam em torno da televisão, ignorando toda a programação dos outros canais. Os bares que tinham uma televisão em algum cantinho paravam, e as pessoas se acotovelavam para ver. Por meia hora, a cidade se tornava um deserto. O programa que motivava isso tudo?

Uchuu Senkan Yamato, tradicionalmente conhecido aqui no Brasil como Patrulha Estelar, nos tempos em que era colocado antes do Jornal da Manchete para segurar a audiência.
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Essa história é talvez um caso de exceção, mas é também uma seqüência de tapas na cara em vários mitos. Um em particular, de que Brasileiro e ficção científica não tem nada a ver. E de que não há anime ou mangá "de apelo universal", ou pelo menos de que anime, por definição, seja um produto de alcance limitado. Uma das perguntas válidas que me vieram sobre a "sensibilidade específica do brasileiro" foi: o Brasileiro realmente compraria essa dose de emoções quando ele a tem nas telenovelas?

Eu acredito que sim. Porque estamos falando de um fator cultural ligado ao nosso povo há muito mais de um século. O brasileiro foi educado no gosto pelos folhetins através dos "romances em fascículos", onde se republicavam materiais primordialmente franceses como Rocambole, de Ponson du Terrail, Os Mistérios de Paris, de Eugene Sue, e onde saíam os açucarados e chatíssimos romances de José de Alencar, que hoje em dia dão calafrios em qualquer aluno do segundo grau (meu calvário nessa época foi o insuportável "Senhora", e não é preconceito – eu sempre digeri bem Machado de Assis, até para surpresa de muita gente quando eu era adolescente) e ajudam ao coitado a ver a leitura como tudo, menos entretenimento. O problema para se acabar com esse inferno é que sempre tem algum professor com "douto saber" no ministério da Educação para defender a imposição desse material aos estudantes, mas estamos nos desviando do assunto.

Nessa época, os folhetins eram lidos em roda, e aqueles que não sabiam ler escutavam alguém que lesse em voz alta. Folhetim é peripatético por natureza, e dependia da intensidade dramática para manter o leitor sintonizado na história, acompanhando os ganchos instalados na trama para manter as respirações presas, as perguntas no ar. "Quem matou quem?""Como ele vai escapar dessa?""Ela conseguirá desmentir essa calúnia?""Quem é o homem de manto preto?""Ela aguentará essa injustiça?" E sempre isso tudo vinha numa carga dramática que hoje irá nos parecer excessiva, mexicana, o que for...

Mas reparem na audiência de "Senhora do Destino". Que tem de tudo: Heroína injustiçada, com uma tragédia nas mãos(sequestrada por sua filha), vilões que nem de longe podem ser classificados como seres humanos... Aquela coisa horrível que foi ao ar meses atrás, "Da Cor do Pecado", levantou a audiência e Sylvio de Abreu disse que "o público queria ver a tal atriz como vilã e queria ver uma negra como heroína"... Por mais que eu concorde que não dá para refletir a sociedade na mídia sem mais "cor" na televisão, nos quadrinhos ou onde tiver mais que ser – os fanzines que tentam emular mangás fingindo que estamos no Japão, aqui no Brasil, chegam a me dar vontade de bater a cabeça na parede às vezes – a forma com que essa frase foi colocada tornou o que ele disse uma grande besteira. "Da Cor do Pecado" funcionou, mesmo sendo uma bomba(diferente da competência planejada de Senhora do Destino), porque deu o passo atrás necessário para reconquistar o público: no melodrama, você sabe muito bem QUEM são os personagens. Eles são tipos, não gente(a verdadeira competência na arte de construir tipos é quando você NÃO percebe que eles não são gente). Quando você, que nunca assistiu aquela porcaria, passava na frente da tela, sabia muito bem o papel de cada personagem pela sua atitude, e por isso mesmo a história funcionava, sendo de imediata absorção. Melodrama é uma forma de comunicação popular fácil, e ali ela estava se prestando a manipulação ideológica: me incomodava muito o insuportável fedelho que era o filho da heroína por ser apresentado como negro, não como mulato; se eu tivesse um filho com uma mulher negra, eu sentiria isso como uma rejeição a uma herança que ele também deveria partilhar. O Brasileiro é o melhor de mil mundos, e estamos imitando os americanos no que eles têm de pior – sua maldita estratificação social, onde todo mundo tem que ser rotulado e cada um tem que ficar com sua turma. Nossa mistura é o que faz de nós o que somos. Isso é demagogia.

E como o melodrama é comunicação fácil através de papéis demarcados, ele se presta bem como veículo para qualquer tipo de mensagem ideológica. Não dá para questionar o fato de que Patrulha Estelar também era um artigo de auto-estima nacionalista japonês, e isso sempre foi um tanto distante para nós. Quando os dramas de honra, dever, paixões e dores intensas, sacrifícios, ranger de dentes e lágrimas da tripulação da Yamato foram ao ar, os japoneses tomaram a série como uma mostra de seu espírito nacional em meio àquele estágio avançado de sua reconstrução como nação, a ponto do tema de abertura da série ter virado quase um segundo hino nacional durante sua exibição, podendo ser ouvido tanto em bares quanto em escolas no Japão. Auto-estima é MUITO importante(e acredito que deveríamos pensar nisso em nossa produção nacional, ao invés de perdermos tempo com mentalidade de "vamos escrever os anti-heróis de terceiro mundo" – mas claro, se alguém fizer isso abertamente, vão dizer que seu discurso seria perfeito para a Ditadura Militar. Ela virou um bicho papão ideológico para todo aquele que não comunga desse discurso que só serve para levar para baixo).

Aqui no Brasil, o que hipnotizou tanta gente foi a mistura de ação, trama épica(o nome escolhido no ocidente para a série foi mais do que adequado; "Argo" remete ao mito de Jasão e dos Argonautas em busca, mar adentro, do Velocino de Ouro, e serve muito bem para uma nave que mergulha em jornadas infindáveis sempre em busca de um objetivo distante contra o qual tem que enfrentar sempre vários inimigos. O resto é o de praxe; paixões separadas por distâncias proibitivas; sacrifícios heróicos; atos de nobreza extrema... enfim, a série poderia ser definida como melodrama de ficção científica de guerra. Talvez se seu sucessor naqueles tempos fosse um pacote com as duas primeiras séries de Gundam(em especial a segunda e melhor, Zeta Gundam, que é especialmente trágica), os animes não tivessem que enfrentar tantas restrições e reservas culturais aqui no Brasil.

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