Há vários anos, ouvi essa história que jamais vou me esquecer.
Uma moça, que tendo morado no Nordeste muitos anos atrás, me contou que
um certo programa de televisão parava a cidade inteira no interior onde
ela residia. Rigorosamente naquela hora, as famílias se juntavam em
torno da televisão, ignorando toda a programação dos outros canais. Os
bares que tinham uma televisão em algum cantinho paravam, e as pessoas
se acotovelavam para ver. Por meia hora, a cidade se tornava um deserto.
O programa que motivava isso tudo?
Uchuu Senkan Yamato, tradicionalmente conhecido aqui no Brasil como
Patrulha Estelar, nos tempos em que era colocado antes do Jornal da
Manchete para segurar a audiência.
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Essa história é talvez um caso de exceção, mas é também uma seqüência de
tapas na cara em vários mitos. Um em particular, de que Brasileiro e
ficção científica não tem nada a ver. E de que não há anime ou mangá "de
apelo universal", ou pelo menos de que anime, por definição, seja um
produto de alcance limitado. Uma das perguntas válidas que me vieram
sobre a "sensibilidade específica do brasileiro" foi: o Brasileiro
realmente compraria essa dose de emoções quando ele a tem nas
telenovelas?
Eu acredito que sim. Porque estamos falando de um fator cultural ligado
ao nosso povo há muito mais de um século. O brasileiro foi educado no
gosto pelos folhetins através dos "romances em fascículos", onde se
republicavam materiais primordialmente franceses como Rocambole, de
Ponson du Terrail, Os Mistérios de Paris, de Eugene Sue, e onde saíam os
açucarados e chatíssimos romances de José de Alencar, que hoje em dia
dão calafrios em qualquer aluno do segundo grau (meu calvário nessa
época foi o insuportável "Senhora", e não é preconceito – eu sempre
digeri bem Machado de Assis, até para surpresa de muita gente quando eu
era adolescente) e ajudam ao coitado a ver a leitura como tudo, menos
entretenimento. O problema para se acabar com esse inferno é que sempre
tem algum professor com "douto saber" no ministério da Educação para
defender a imposição desse material aos estudantes, mas estamos nos
desviando do assunto.
Nessa época, os folhetins eram lidos em roda, e aqueles que não sabiam
ler escutavam alguém que lesse em voz alta. Folhetim é peripatético por
natureza, e dependia da intensidade dramática para manter o leitor
sintonizado na história, acompanhando os ganchos instalados na trama
para manter as respirações presas, as perguntas no ar. "Quem matou
quem?""Como ele vai escapar dessa?""Ela conseguirá desmentir essa
calúnia?""Quem é o homem de manto preto?""Ela aguentará essa injustiça?"
E sempre isso tudo vinha numa carga dramática que hoje irá nos parecer
excessiva, mexicana, o que for...
Mas reparem na audiência de "Senhora do Destino". Que tem de tudo:
Heroína injustiçada, com uma tragédia nas mãos(sequestrada por sua
filha), vilões que nem de longe podem ser classificados como seres
humanos... Aquela coisa horrível que foi ao ar meses atrás, "Da Cor do
Pecado", levantou a audiência e Sylvio de Abreu disse que "o público
queria ver a tal atriz como vilã e queria ver uma negra como heroína"...
Por mais que eu concorde que não dá para refletir a sociedade na mídia
sem mais "cor" na televisão, nos quadrinhos ou onde tiver mais que ser –
os fanzines que tentam emular mangás fingindo que estamos no Japão, aqui
no Brasil, chegam a me dar vontade de bater a cabeça na parede às vezes
– a forma com que essa frase foi colocada tornou o que ele disse uma
grande besteira. "Da Cor do Pecado" funcionou, mesmo sendo uma
bomba(diferente da competência planejada de Senhora do Destino), porque
deu o passo atrás necessário para reconquistar o público: no melodrama,
você sabe muito bem QUEM são os personagens. Eles são tipos, não gente(a
verdadeira competência na arte de construir tipos é quando você NÃO
percebe que eles não são gente). Quando você, que nunca assistiu aquela
porcaria, passava na frente da tela, sabia muito bem o papel de cada
personagem pela sua atitude, e por isso mesmo a história funcionava,
sendo de imediata absorção. Melodrama é uma forma de comunicação popular
fácil, e ali ela estava se prestando a manipulação ideológica: me
incomodava muito o insuportável fedelho que era o filho da heroína por
ser apresentado como negro, não como mulato; se eu tivesse um filho com
uma mulher negra, eu sentiria isso como uma rejeição a uma herança que
ele também deveria partilhar. O Brasileiro é o melhor de mil mundos, e
estamos imitando os americanos no que eles têm de pior – sua maldita
estratificação social, onde todo mundo tem que ser rotulado e cada um
tem que ficar com sua turma. Nossa mistura é o que faz de nós o que
somos. Isso é demagogia.
E como o melodrama é comunicação fácil através de papéis demarcados, ele
se presta bem como veículo para qualquer tipo de mensagem ideológica.
Não dá para questionar o fato de que Patrulha Estelar também era um
artigo de auto-estima nacionalista japonês, e isso sempre foi um tanto
distante para nós. Quando os dramas de honra, dever, paixões e dores
intensas, sacrifícios, ranger de dentes e lágrimas da tripulação da
Yamato foram ao ar, os japoneses tomaram a série como uma mostra de seu
espírito nacional em meio àquele estágio avançado de sua reconstrução
como nação, a ponto do tema de abertura da série ter virado quase um
segundo hino nacional durante sua exibição, podendo ser ouvido tanto em
bares quanto em escolas no Japão. Auto-estima é MUITO importante(e
acredito que deveríamos pensar nisso em nossa produção nacional, ao
invés de perdermos tempo com mentalidade de "vamos escrever os
anti-heróis de terceiro mundo" – mas claro, se alguém fizer isso
abertamente, vão dizer que seu discurso seria perfeito para a Ditadura
Militar. Ela virou um bicho papão ideológico para todo aquele que não
comunga desse discurso que só serve para levar para baixo).
Aqui no Brasil, o que hipnotizou tanta gente foi a mistura de ação,
trama épica(o nome escolhido no ocidente para a série foi mais do que
adequado; "Argo" remete ao mito de Jasão e dos Argonautas em busca, mar
adentro, do Velocino de Ouro, e serve muito bem para uma nave que
mergulha em jornadas infindáveis sempre em busca de um objetivo distante
contra o qual tem que enfrentar sempre vários inimigos. O resto é o de
praxe; paixões separadas por distâncias proibitivas; sacrifícios
heróicos; atos de nobreza extrema... enfim, a série poderia ser definida
como melodrama de ficção científica de guerra. Talvez se seu sucessor
naqueles tempos fosse um pacote com as duas primeiras séries de
Gundam(em especial a segunda e melhor, Zeta Gundam, que é especialmente
trágica), os animes não tivessem que enfrentar tantas restrições e
reservas culturais aqui no Brasil.
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