Gente, eu tô cansado. Sério.
Pode não parecer, mas eu não sou um rabugento. No entanto, duas colunas
minhas recentes já foram movidas pelas pedradas que recebo. Fico de pé,
mas isso está criando um efeito colateral: estou deixando de falar de
outras coisas por conta de reações exaltadas que acabam me forçando a
uma resposta – a última graças a Deus ganhou um foco mais racional por
razões óbvias. Além disso, eu também tenho mais o que fazer e o leitor
tem mais o que ler.
Geralmente eu apelo para colunas com múltiplos temas quando o tempo está
apertado(e ultimamente está), e nenhum desses mesmos temas consegue
encher uma página inteira. Mas agora é diferente. Preciso esticar as
pernas e falar de coisas mais agradáveis...
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Deu aqui mesmo: Estão usando a plataforma PSP para
lançar filmes.
Sinceramente, acho esse conceito muito interessante...
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Tecnologia e mídia sempre estiveram diretamente relacionados. As
animações que nossos pais e avós adoravam na maioria eram feitos para
cinemas, com orçamentos maiores. Quando se aventou a idéia de desenhos
animados feitos para a televisão, surgiu o problema: eles eram muito
caros. Logo veio uma inovação que mudaria a história da animação para
sempre: a animação capturada, onde se desenham diferentes partes de um
personagem, prontos para serem cambiados em diferentes poses possíveis
graças às maravilhas da matemática combinatória. Dêem uma olhada no Fred
Flintstone. Um tronco, algumas poses diferentes de braços, algumas
expressões diferentes de olhos, algumas posições diferentes de pernas, e
temos um personagem para ser animado a baixo custo.
O nível só voltaria a subir lá pelo final dos anos noventa, quando se
deram conta de que quanto mais complexo o traço do personagem, mais
limitada seria sua movimentação justamente pelo tempo de execução do
personagem. Vide coisas como He-Man, com personagens que se moviam como
bonecos articulados. No seu clássico Batman – The Animated Series, Paul
Dini e Bruce Timm simplificaram ao extremo o visual dos personagens para
poder dedicar mais tempo de produção a narrativa e movimentação mais
elaborados. Ao lado das inovações temáticas de "Os Simpsons", essas
produções ajudaram a tirar a animação americana da lama em que
qualitativamente afundou a partir de meados dos nos setenta – cochilo
que durou tempo o suficiente para o Japão se tornar uma potência nesse
terreno em território internacional. Os japoneses investiram não na
técnica de animação, mas de narrativa, o que faz com que desenhos
antigos continuem impressionando em certos momentos. Ashita no Joe
impressiona, mesmo com uma animação tosca, porque a narrativa emprestada
dos faroestes italianos conduz o olho do espectador o tempo todo, aliado
a uma carga de drama extremamente intensa à qual não dá para ficar
indiferente. E em Rosa de Versalhes, prestem atenção à linguagem de
cortes usada para estabelecimento de tensão na cena em que, após muita
enrolação, Maria Antonieta tem que se dirigir à amante do rei, Du Barry,
para evitar um problema maior..
Essa criatividade narrativa segurou as pontas da animação japonesa por
muito tempo, e criou uma verdadeira escola. Hoje, veio o dinheiro para
aplicar na técnica. E sem tanta falta de recursos, se improvisa menos...
A propósito, não estou falando nos palitinhos da Gainax em Karekano.
Experimentar é uma coisa, enganar é outra. Mas vamos voltar ao assunto.
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Vamos esperar o retorno desses filmes para PSP. Porque eles criam algo
novo: a possibilidade de você assistir a filmes em qualquer canto,
usando uma plataforma portátil. É lógico que pode dar certo e pode não
dar. Mas convenhamos: se der certo, quanto tempo vai levar até que se
façam filmes e animações DIRETAMENTE PARA A PLATAFORMA?
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Coisas como estas são observadas por pessoas que tem não apenas visão
comercial, mas capacidade para pô-la em prática. Diz a lenda que, no
longa-metragem de Macross, "Do You Remember Love", por um único
fotograma uma lata de Budweiser ocupa a tela como um todo durante a
batalha final do filme, embutida como um dos muitos mísseis disparados
em combate. Preciso confirmar, mas eu acredito – e se for, mensagem
subliminar é isso aí. Isso acontece porque animes – e mangás – no Japão
são parte de todo um negócio que movimenta milhões por ano. E que
envolve investidores que querem ter um retorno de alguma forma, e esse
retorno está longe de ser baixo.
Há possibilidade de convergir interesses de investidores para desbravar
um novo território de divulgação e clientes? Há. Mas para isso ele tem
que crescer. Já falei muito disso em outras colunas e não quero me
repetir, mas o fato é: o mercado tem que ser aberto na marra para poder
atrair o interesse de todos os que poderiam injetar dinheiro nele.
O ponto mais nevrálgico é esse: forçar a criação pela demanda. A
mão-de-obra já existe. E para sobreviver, se volta para o exterior
quando se dá conta que o mercado é pequeno. Algumas pessoas vêem esses
artistas como vendidos, mas o fato é: Levante as mãos aqueles que
ouviram falar de Mike Deodato, o desenhista de Hulk e Homem Aranha,
quando ele era Deodato Borges Filho.
O outro, e igualmente dramático, é remover a mentalidade de que
quadrinho e desenho animado é coisa ou de moleque ou de maluco. Há
alguns anos, foi feito um programa sobre quadrinhos que, se não me falha
a memória, era chamado "Comicmania", no canal nove do Rio de Janeiro,
parte do grupo CNT. Ele foi enfiado para lá na madrugada, sujeito a
mudanças de horário injustificadas – o público acabava sendo vencido
pelo sono. Mas a apresentadora apareceu nos jornais, havia um público
seco para ver o programa, houve divulgação entre o público que assistia
o antigo Top TV na Record...
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