Há um elemento que foi perdido nas minhas últimas colunas a respeito do
porque o mercado tem que ser aberto à revelia dos fandoms. Vamos a ele
então para fechar o assunto por ora – e quem diria, novamente temos uma
coluna curta.
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Geralmente eu e a Tia Lela da coluna Shoujo Mangá estamos em um ringue.
Mas sempre leio meus vizinhos neste condomínio que são as colunas da
AnimePro. Na sua última coluna, ela
menciona um mangá arqueológico mas extremamente longevo chamado "A Filha
do Nilo", que teria se iniciado sabe-se quando... e continua sendo
publicado até hoje. E uma de suas frases me chamou a atenção: "Ouke no
Monshou tem uma trama com todos aqueles ingredientes básicos dos filmes
mudos de Rodolfo Valentino e que são mantidos pelos romances baratos de
banca de jornal até hoje."
Aí me vem a mente os romance-rosa de banca de jornal. Que vendem até
hoje.
Uma coisa que eu disse há muito tempo atrás, numa coluna muito distante,
foi que se houve uma época em especial que o shoujo tinha chance de
mercado de verdade, foi na época das fotonovelas. Sim, fotonovelas.
Histórias em quadrinhos com fotos montadas em ordem, ao invés de
desenhadas, com histórias açucaradas que dóem. Nessa época(anos
setenta), haviam muitos shoujos que não desgostariam as leitoras dessas
coisas, principalmente se pensarmos nas novelas das seis que imperavam
no período.
Nesse sentido, este era um material que agradava a sensibilidade do
leitor correspondente à sua faixa de público – e não ria. Fotonovelas
eram chamadas de leitura de empregada doméstica. Hoje em dia, nem isso
elas lêem – quando muito lêem esses livrinhos de segunda, que estão aí,
firmes e fortes. No entanto, independente de qualquer coisa, tínhamos um
precedente cultural: elas liam quadrinhos, mesmo fotografados.
Eu já cheguei a ver uma dessas fotonovelas. Eram de uma breguice só. Mas
tinham um público fidelíssimo.
E que não era um fandom fechado.
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Ao mesmo tempo, o roteirista de tv Lúcio Manfredi("Um só Coração"), em
uma lista de ficção científica do qual faço parte, soltou essa
observação válida: "Eu acho que fazer uma ficção científica que chegue
até o público brasileiro não tem nada a ver com conteúdo, com ter ou não
índio-tacape-samba. Aliás, não precisa nem ter brasileiro como
personagem. Mas tem, sim, que ter uma forma capaz de refletir e atingir
a sensibilidade específica do público brasileiro (que, lembremos,
(...)provavelmente se identifica mais com O Código da Vinci do que com o
Bumba-Meu-Boi)."
Não conheço a Filha do Nilo, mas em nosso território inexplorado de
mercado isso, devidamente espelhado e com uma programação visual de capa
que enfatizasse a associação com esses romances-rosa, me pareceria uma
escolha mais sensata do que um elenco de J-Rock.
Lamento dizer, pessoal, mas o brasileiro fora do nosso alcance de visão
tem um pé na breguice.
E tem uma lógica de mundo que funciona à parte. Conta a lenda que Tonico
e Tinoco vendiam mais do que Roberto Carlos. É difícil confirmar, porque
na hora de contabilizar vendagens de discos, cortavam esse tipo de
material – porque, em miúdos, "não contava" – e para o pessoal da cidade
não contava mesmo.
Aí fica a pergunta: como achar a sensibilidade específica citada? Notem
que o problema dos quadrinhos é o mesmo que afeta a literatura de massas
aqui no Brasil: O que raios pode vender por aqui? E aqui fica a pergunta
que interessa neste site: seria mangá, por acaso?
Bem, poderia ser...
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... e também poderia não ser. O fato é que fora do eixo dos grandes
sucessos, ou até dentro do eixo de mangás mais antigos, há muito
material que poderia ter penetração fácil, com custo de direitos mais
baratos e traço ainda bem apresentável mesmo com a idade. Os quadrinhos
antigamente eram mais dramáticos, e poderiam apelar bem a uma cultura
que já tem um pé no melodrama cultivado por anos de novela na televisão.
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Isso envolve também produzir localmente o material, mas convenhamos: só
há mercado quando há uma estrutura que compense o investimento. No site
do Studio Seasons (o mesmo que deu às bancas Oiran), há uma
tabela de preços bem justa. Posso dizer muito bem que elas valorizam
seu trabalho, mas para muita gente, pagar isso para uma equipe seria
apavorante, "incondizente com o valor de mercado". Porque isso?
Porque o mercado dos fandoms, já citado em colunas anteriores, não dá
retorno para justificar o investimento necessário. E por isso um
quadrinhista muitas vezes vai ter que se contentar com bem menos do que
isso para poder trabalhar... e aí chega uma quadrinhista que veio de um
sucesso(dentro de nossos padrões nanicos de vendagem, porque num país
com nossa população, toda vendagem de quadrinhos parece nanica em
comparação) e dá, como grande conselho para os autores novos, um
"arranje um segundo emprego". É triste demais para mim.
Isso cria uma perspectiva óbvia: quem vai ter que desbravar o mercado
vai ser material estrangeiro, até que a estrutura desenvolvida para a
otimização das vendagens dos mesmos possa ser aplicada com a produção
local.
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Isso cria um problema: que raios de material pode atingir essa
"sensibilidade específica" do público? Nesse sentido, já sabemos que
ouvir fã é canoa furada. Por outro lado, com a dependência que estes
fizeram as editoras criar em relação a eles, trazer esses materiais sem
que o público possa alcançá-los também é, essencialmente, outra canoa
furada.