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Razão e sensibilidade especifica
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01 - 02


Há um elemento que foi perdido nas minhas últimas colunas a respeito do porque o mercado tem que ser aberto à revelia dos fandoms. Vamos a ele então para fechar o assunto por ora – e quem diria, novamente temos uma coluna curta.
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Geralmente eu e a Tia Lela da coluna Shoujo Mangá estamos em um ringue. Mas sempre leio meus vizinhos neste condomínio que são as colunas da AnimePro. Na sua última coluna, ela menciona um mangá arqueológico mas extremamente longevo chamado "A Filha do Nilo", que teria se iniciado sabe-se quando... e continua sendo publicado até hoje. E uma de suas frases me chamou a atenção: "Ouke no Monshou tem uma trama com todos aqueles ingredientes básicos dos filmes mudos de Rodolfo Valentino e que são mantidos pelos romances baratos de banca de jornal até hoje."

Aí me vem a mente os romance-rosa de banca de jornal. Que vendem até hoje.

Uma coisa que eu disse há muito tempo atrás, numa coluna muito distante, foi que se houve uma época em especial que o shoujo tinha chance de mercado de verdade, foi na época das fotonovelas. Sim, fotonovelas. Histórias em quadrinhos com fotos montadas em ordem, ao invés de desenhadas, com histórias açucaradas que dóem. Nessa época(anos setenta), haviam muitos shoujos que não desgostariam as leitoras dessas coisas, principalmente se pensarmos nas novelas das seis que imperavam no período.

Nesse sentido, este era um material que agradava a sensibilidade do leitor correspondente à sua faixa de público – e não ria. Fotonovelas eram chamadas de leitura de empregada doméstica. Hoje em dia, nem isso elas lêem – quando muito lêem esses livrinhos de segunda, que estão aí, firmes e fortes. No entanto, independente de qualquer coisa, tínhamos um precedente cultural: elas liam quadrinhos, mesmo fotografados.

Eu já cheguei a ver uma dessas fotonovelas. Eram de uma breguice só. Mas tinham um público fidelíssimo.

E que não era um fandom fechado.
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Ao mesmo tempo, o roteirista de tv Lúcio Manfredi("Um só Coração"), em uma lista de ficção científica do qual faço parte, soltou essa observação válida: "Eu acho que fazer uma ficção científica que chegue até o público brasileiro não tem nada a ver com conteúdo, com ter ou não índio-tacape-samba. Aliás, não precisa nem ter brasileiro como personagem. Mas tem, sim, que ter uma forma capaz de refletir e atingir a sensibilidade específica do público brasileiro (que, lembremos, (...)provavelmente se identifica mais com O Código da Vinci do que com o Bumba-Meu-Boi)."

Não conheço a Filha do Nilo, mas em nosso território inexplorado de mercado isso, devidamente espelhado e com uma programação visual de capa que enfatizasse a associação com esses romances-rosa, me pareceria uma escolha mais sensata do que um elenco de J-Rock.

Lamento dizer, pessoal, mas o brasileiro fora do nosso alcance de visão tem um pé na breguice.

E tem uma lógica de mundo que funciona à parte. Conta a lenda que Tonico e Tinoco vendiam mais do que Roberto Carlos. É difícil confirmar, porque na hora de contabilizar vendagens de discos, cortavam esse tipo de material – porque, em miúdos, "não contava" – e para o pessoal da cidade não contava mesmo.

Aí fica a pergunta: como achar a sensibilidade específica citada? Notem que o problema dos quadrinhos é o mesmo que afeta a literatura de massas aqui no Brasil: O que raios pode vender por aqui? E aqui fica a pergunta que interessa neste site: seria mangá, por acaso?

Bem, poderia ser...
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... e também poderia não ser. O fato é que fora do eixo dos grandes sucessos, ou até dentro do eixo de mangás mais antigos, há muito material que poderia ter penetração fácil, com custo de direitos mais baratos e traço ainda bem apresentável mesmo com a idade. Os quadrinhos antigamente eram mais dramáticos, e poderiam apelar bem a uma cultura que já tem um pé no melodrama cultivado por anos de novela na televisão.
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Isso envolve também produzir localmente o material, mas convenhamos: só há mercado quando há uma estrutura que compense o investimento. No site do Studio Seasons (o mesmo que deu às bancas Oiran), há uma tabela de preços bem justa. Posso dizer muito bem que elas valorizam seu trabalho, mas para muita gente, pagar isso para uma equipe seria apavorante, "incondizente com o valor de mercado". Porque isso?

Porque o mercado dos fandoms, já citado em colunas anteriores, não dá retorno para justificar o investimento necessário. E por isso um quadrinhista muitas vezes vai ter que se contentar com bem menos do que isso para poder trabalhar... e aí chega uma quadrinhista que veio de um sucesso(dentro de nossos padrões nanicos de vendagem, porque num país com nossa população, toda vendagem de quadrinhos parece nanica em comparação) e dá, como grande conselho para os autores novos, um "arranje um segundo emprego". É triste demais para mim.

Isso cria uma perspectiva óbvia: quem vai ter que desbravar o mercado vai ser material estrangeiro, até que a estrutura desenvolvida para a otimização das vendagens dos mesmos possa ser aplicada com a produção local.
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Isso cria um problema: que raios de material pode atingir essa "sensibilidade específica" do público? Nesse sentido, já sabemos que ouvir fã é canoa furada. Por outro lado, com a dependência que estes fizeram as editoras criar em relação a eles, trazer esses materiais sem que o público possa alcançá-los também é, essencialmente, outra canoa furada.

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