Essa coluna vai ser deliberadamente curta. Depois do monstro da semana
passada, acho que o leitor merece um refresco.
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Eu tenho um amigo que QUASE trabalhou para o Japão em um projeto
internacional – e acreditem, foi uma pena – o trabalho dele impressiona.
Quando o projeto foi cancelado, ele dançou. Mas segundo esse amigo,
foi-lhe passado que a narrativa do mangá(eu não disse anime, eu disse
mangá) em muito foi inspirada na linguagem de cortes de certos filmes da
Nouvelle Vague na época em que ela estava tomando sua forma atual.
Aí fui tirar a prova com um dos dois ou três filmes da Nouvelle Vague
que eu como ser humano consigo ver e quase gostar(o que estraga é uma
sequência de conversa de quase meia hora do casal de protagonistas no
quarto da moça, que é um cabedal de coisas bacanas para se dizer a uma
moça antes da hora h, mas como cinema é um porre): Acossado, de Godard.
E fui traçando um storyboard mental do que eu assistia.
E vi que faz sentido. É bom lembrar que o Ryoichi Ikegami, quando largou
o trabalho como pintor de cartazes para se tornar quadrinhista, contou
que se sentia inferiorizado porque o meio do mangá estava bem
intelectualizado naquela época(não lembro o ano, mas como ele começou
como assistente de Mizuki Shigeru no clássico Gegege no Kitaro, deve ser
justamente o final dos anos sessenta, na mesma esfera cronológica da
Nouvelle Vague portanto) e ele tinha sido apresentado a outros autores,
que o apresentaram a grande leitura.
Note que nesse momento em especial, fermentou uma geração que povoaria o
final dos anos sessenta e a década de setenta como um todo de clássicos
atrás de clássicos. De 1964 a 1972, Sampei Shirato nos daria Kamui, com
todo o seu subtexto político que fez uma história empolgante de ninjas
sair na Garo, berço tradicional do underground japonês; Lobo Solitário é
de 1971; O quadrinho para garotos seria reinventado com séries como
Ashita no Joe(este com uma visível influência dos westerns de Sérgio
Leone na sua versão anime) e Tiger Mask; O quadrinho para meninas teria
autoras como Ryoko Ikeda(Rosa de Versalhes) e Moto Hagio(autora do
engenhoso They Were Eleven)... enfim, gente que tinha o que onde tirar e
DE onde tirar.
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Por outro lado, isso tem o seu lado negativo: Ikegami leu tanta
filosofia que foi impregnado de uma visão pessimista da vida que o
prejudicou como roteirista justamente nos seus projetos comerciais. O
caso mais clássico disso foi o Homem-Aranha dele. Só vimos o começo por
aqui, que foi extremamente tosco. Eu acompanhei até onde deu na edição
americana publicada pela Marvel.
Só que a qualidade do roteiro, assim como a da arte dele(que iniciou seu
processo de transição gradual para o Ikegami que conhecemos justamente
nessa série) foi subindo e subindo... mas também se tornando
gradualmente mais angustiante e sombria. Acredite, se Peter Parker tem
uma vida difícil com dose de tragédias, ele precisa ser apresentado ao
Yu Komori, o aranha japonês. Parker iria abençoar cada minuto da sua
vida. A barra foi pesando assustadoramente na série, e pensando bem, o
único caminho lógico para o personagem seria a loucura ou o suicídio.
Ikegami exagerou e a série não teve uma vida tão longa assim, embora a
série gerasse seus momentos memoráveis, como o da Mulher da Neve, que
assassinava homens que desgraçavam a vida de outras mulheres, e o ponto
alto do material, a história onde Komori salva a vida de um rapaz com
uma transfusão de sangue e ele se torna um Aranha mais eficiente e
popular, mas... imensamente corrupto, a ponto de prostituir a própria
irmã, que enlouquece quando Komori se recusa a matar o sujeito, mesmo
após ela implorar por isso desesperadamente.
Ikegami tinha uma visão muito negra do mundo e, definitivamente, seu
Aranha não é material para crianças. Ainda mais levando em conta de qual
personagem estamos falando.
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Claro que se trabalhasse na Jump dos nossos dias, os editores cortariam
rapidinho suas asas e Yu Komori passaria primeiro pelos Executores, um a
um, até chegar ao contratante deles, o Cabelo de Prata, que mandaria
Marko, o Homem-Montanha para enfrentar nosso herói numa batalha final.
Em seguida, precisaríamos de oponentes mais fortes e teríamos um longo
arco do Aranha contra o Sexteto Sinistro até chegar a um confronto final
contra o Duende Verde. Enfim, vocês entenderam.
Mas o mais provável seria que os editores não precisariam cortar asa
nenhuma. Ikegami teria lido quando muito o material da jump dos anos
oitenta, seria introduzido ao que estaria rolando na jump do seu tempo,
os maiores sucessos do momento e... os decalcaria. Oriundo de uma classe
operária mais pobre do que a de hoje no Japão, sua "educação" talvez
nunca o levasse a uma postura como a que o fez abandonar em definitivo
os roteiros – ele sempre assumiu publicamente a sua incapacidade de
trabalhar com personagens mais fortes, daí ter passado apenas a
trabalhar com outros autores.
Ou seja, ele jamais passaria pelos mesmos problemas que passou, mas
também dificilmente seria "O" Ryoichi Ikegami, desenhista. O meio não
deixa que eles surjam.
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Ou seja, os editores podem pecar por omissão, como no caso do Ikegami,
ou por opressão, como no caso da atual Jump. Basta lembrar da clássica
declaração de Tatsuya Egawa, no programa de televisão japonês Winners,
onde ele denunciou a burocracia da Jump, de onde nem os autores de
sucesso conseguem escapar.
No entanto, certos ou errados, os editores em mercados saudáveis têm uma
tradição de editar, de verdade. E isso não faz deles dragões de sete
cabeças.
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O Lee Iacocca em sua autobiografia, onde narrava sua experiência como
presidente da Ford e da Chrysler(sendo que ele salvou esta da falência),
deixou claro essa dualidade: Se os contadores assumem o controle, tudo
ficará tão careta que não se permitirá ousar. Se os publicitários
assumem o controle, a empresa irá a falência.