Essa coluna em especial na verdade é uma resposta um pouco tardia a uma
mensagem que me foi enviada no dia 08 de julho de 2004. É uma mensagem
extensa que, de forma igualmente tardia, responde à outra coluna minha, "Desenhos
animados por atacado" publicada sabe-se Deus lá quando. Eu pensei muito
antes de me decidir por responder abertamente uma mensagem que afinal de
contas me foi enviada de forma privada. Também precisava refletir muito à
luz de dados novos. Mas a natureza da questão diz respeito a todos nós que
estamos acompanhando com um misto de expectativa e apreensão ao Projeto de
Lei do deputado Vicentinho, que estabelece uma cota de animações nacionais -
e que realmente pode afetar a quantidade de desenhos que vemos em nossas
telas. Vamos a ela.
Caro Lancaster,
A propósito de suas considerações sobre o PL 1821/03, do deputado
Vicentinho, sobre a produção de desenhos animados, consultei a Associação
Brasileira de Cinema de Animação. Envio-lhe o e-mail que recebi da ABCA para
que, em uma próxima abordagem sua sobre o tema, as considerações sejam mais
alentadoras.
Respeitosamente,
Paulo Cesar de Mello
Chefe de Gabinete.
Importante: eu não cortei nada da mensagem respondida pelo Sr. Arnaldo
Galvão da ABCA/Associação Brasileira de Cinema de Animação, mas por razões
práticas, estou editando-a em blocos para comentar item a item. Dito isto,
vamos lá.
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Paulo Cesar,
essa noticia é da Folha de SP de hoje.
Problemão: Uma das conclusões do seminário de teledramaturgia da Globo, na
semana passada: é preciso rever a programação infantil. Não é raro que os
desenhos do SBT empatem e até ganhem da Globo no Ibope de SP.
- Acho que isso elimina a primeira preocupação do nosso amigo Lancaster, de
que as emissoras reduzam o número de desenhos na televisão - ou os cortem de
vez. Os desenhos animados são exibidos porque as pessoas gostam. Imagine o
que vai acontecer com o desenho animado que conseguir refletir o nosso povo?
Não estamos propondo soluções mágicas porque não as temos. Estamos começando
uma pesquisa com o MinC e queremos o apoio do Sebrae e Dieese, para
conseguir mapear quantos somos e qual a nossa força de produção de maneira a
apresentar uma proposta de desenvolvimento séria e embassada. Trabalho com
animação desde 1980. Se alguem falasse naquela epoca que um metalúrgico
chegaria a presidência de um país, quem acreditaria?
Bom, vamos lá... ninguém mais do que eu quer ver uma indústria de quadrinhos
e de animação desenvolvida e forte neste país, produzindo e dando empregos,
pondo no ar produtos de qualidade e mostrando repercussão internacional com
o tempo. Sou a favor de iniciativas que movimentem o mercado. Mas acho
importante pôr os pés no chão e ter base antes de qualquer iniciativa.
O primeiro ponto é que isso só vale para as grandes emissoras. Elas têm como
investir nesse sentido. O problema é que fora do âmbito da tv por
assinatura, só há duas emissoras com porte nesse terreno. E eu não vejo o
SBT investindo nisso - ao menos eles não têm histórico de iniciativas nesse
sentido. Na verdade, como o lado que está ganhando com a atual conjuntura, o
SBT tem o maior dos motivos para que nada mude.
São as de médio porte que me preocupam. Quando Cavaleiros do Zodíaco
estourou, a Manchete não era nem de longe o potentado que parecia estar
destinada a ser no futuro. A Manchete de seus primeiros anos foi uma
televisão extremamente animadora, que antecipava e muito uma sofisticação
que só encontraríamos décadas depois, na televisão por assinatura. Às vezes,
ia além. Na época de Cavaleiros, entretanto, Seiya e companhia deram um
alento de vida a uma emissora que estava moribunda. E todo o dinheiro que
eles conseguiram com o anime eles perderam investindo em novelas B que não
deram retorno nenhum após Xica da Silva.
Anos antes, canais como a Record e a Bandeirantes - e a própria Manchete -
entupiam sua programação de desenhos animados. Posso dizer que boa parte das
mentes que hoje se dedicam a isso passaram por essa época. Acredito que isso
não venha mais a se repetir. Hoje mesmo já não acontece - a Bandeirantes
exibe apenas um desenho em sua programação. E com a lei, provavelmente as
animações se reduzirão a poucos canais. Bom dizer também que muitas vezes os
desenhos exibidos nesses canais de médio porte(e mesmo o SBT não tinha o
porte de uma Globo lá pelos idos dos anos oitenta) jamais seriam exibidos
nos grandes canais. A Globo mesmo não soube o que fazer com DBZ e retalhou
desnecessariamente uma série que já havia sido exposta tanto na tv por
assinatura quanto na Bandeirantes(mesmo que não fosse o mesmo lote de
capítulos).
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Lancaster:
"Para que não tenham que gastar dinheiro com a produção de animações é bom
lembrar que tanto a MTV quanto a Globo podem usar sua produção ".
- E gerar empregos e formar mão de obra? Ponto para eles. Tem o nosso apoio.
Não acreditamos em nenhuma medida de força. Precisamos pensar em trabalhar
em conjunto, procurando saídas, unindo forças. Um dos grandes méritos do
projeto de lei do Deputado Vicentinho é que ele toca no problema da
exclusão. Não sei como ninguem nunca pensou nisso. Nós somos impedidos de
trabalhar em nossa própria casa. Imagine se todos os carros tivessem que ser
importados, todas as geladeiras, todas as laranjas, todo os sapatos, todo o
aço...É isso que acontece hoje com o desenho animado. Não é por acaso que o
governo Lula elegeu o audiovisual como prioridade estrátegica. É a nossa
soberania que está sendo contestada mas também uma maneira de gerar muitos
empregos.
Eu partilho dessas preocupações sim, mas a verdade é que dessa forma
simplesmente a animação nacional vai nascer inserida em uma prática viciosa
das grandes emissoras. A de produzir em massa seu próprio conteúdo em
detrimento das produtoras independentes. Sejamos honestos: talvez esse
esforço fosse melhor aplicado numa lei não para estabelecer cota de
animação, mas para estabelecer limites percentuais do quanto uma emissora
pode produzir de programação própria. ISSO criaria empregos e é aplicado nos
Estados Unidos, por exemplo. E tanto a animação quanto as produtoras de
filmes que tanto querem produzir para a televisão poderiam se beneficiar
disso.
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