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O Melhor do Brasil é o Brasileiro
ou "Triste é a nação que acha que não precisa de heróis"
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01- 02 - 03


Essa coluna é especial. Eu ia tomar alguns lançamentos como ponto de partida para um outro assunto, mas mudei a rota ao ler o jornal O Globo de hoje(dia 20 de Julho, Terça-feira) porque isso ficou entalado na minha garganta. Eu tinha que falar, e falar AGORA, porque além de ser um assunto importante para mim, acho que isso diz respeito a todos nós; a aqueles que querem produzir quadrinhos; a aqueles que querem ler quadrinhos e ver animações nacionais; a aqueles que querem ver uma indústria cultural e viver dela dignamente, podendo dedicar seus esforços em tempo integral, sem ter que viver de um segundo emprego - e acredite, foi muito, mas muito triste ver Érica Awano, após ter produzido um material de relevância no nosso malditamente nanico mercado, dizer como recomendação para as novas gerações de desenhistas que arrumem um trabalho paralelamente.

Eu sei que o que vou falar já foi dito antes. Porque eu já bati em quatro colunas anteriores, de forma menos objetiva é verdade, na tecla que eu vou bater mais uma vez: "Nunca fomos tão brasileiros!", "Uma posição aos olhos do mundo", "Norakuro, Capitão sete, E os países do futuro"  e finalmente em "Primeiro eu, segundo e terceiro eu também". Portanto, eu admito que vou cair na mesma auto-repetição que tanto me esforço em evitar e que me rendeu críticas válidas de alguns leitores. Mas aqui, repito, eu TENHO que fazer isso. Está preso no peito. Vai ser uma coluna emocional. Por isso não digam que eu não avisei.

E o ponto de partida aqui é o lançamento da campanha do Presidente Lula "O Melhor do Brasil é o Brasileiro", levantando a bandeira da auto-estima nacional. Vão dizer que estou sendo trouxa. Vão dizendo que há coisas mais importantes do que gastar dinheiro com propaganda. Vão dizer um monte de baboseiras. Mas nisso ele está certo. Absolutamente certo.
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No livro "O Herói e o Fora da Lei", de Margaret Mark e Carol S. Pearson(Editora Cultrix/Meio e Mensagem), que eu considero pessoalmente um manual prático de aplicação das teorias de Joseph Campbell em toda e qualquer mídia, elas abrem o terceiro parágrafo da parte três - "Os que deixam sua marca no mundo" - com o seguinte texto: "A época de mudanças exige pessoas que sejam energizadas pelo risco e que queiram provar suas próprias aptidões enfrentando um desafio atrás do outro. A capacidade de correr riscos e perseverar até realmente conquistar alguma coisa significativa tem como resultado a auto-estima elevada e a validação social. Quando esses arquétipos estão ativos nas pessoas, elas querem agir de uma maneira que cause impacto no mundo".

É importante lembrar dessa verdade básica quando ter um lugar no mundo é o que o país quer. Continuando: "As emoções ligadas a essas aspirações tendem a ser apaixonadas e cheias de energia, variando da raiva e ambição até a determinação feroz. O Herói, Fora da Lei e o Mago(nota do colunista: três dos doze arquétipos catalogados pelas escritoras; no momento é o herói que nos interessa) usam essa energia para deixar suas impressões digitais sobre o mundo e para mobilizar as pessoas a fim de destruir ou transformar as estruturas rígidas que nos desvitalizam. Quando essas figuras estão ausentes na nossa vida pessoal - como frequentemente acontece - suplicamos por sua presença no mercado e na mídia.(...) Todos eles, o Herói, o Fora-da-lei e o Mago, se erguem contra alguma realidade limitadora, repressiva ou prejudicial.". Ora, isso é o que MUITA GENTE NÃO QUER que aconteça, porque de alguma forma ganha com isso.

E quando a gente tem que mudar nossa vida, a primeira coisa que temos que fazer é pôr a cabeça em ordem. Se queremos uma garota(ou rapaz, se você que me lê é mulher), nós perdemos peso, cuidamos da imagem, cuidamos melhor de nós mesmos. Não fazer isso é admitir a derrota. Por isso a publicidade é importante num projeto de reconstrução nacional. E o apoio das mentes criadoras também - e o motivo pelo qual estou usando essa coluna para isso. Mas já já eu chego lá. Tenham um pouco de paciência, porque ainda tem mais antes disso.
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E esse mais começa na figura do Presidente Lula, que pode ainda estar a dever no campo econômico, mas como eu disse, está certo quanto a esse ponto, notou uma coisa importante. "No Brasil não temos heróis. O Brasil não é um país que cultua heróis. Em qualquer lugar do mundo que vou, tenho que levar flores ao túmulo do herói nacional. No Brasil não tem. No Brasil, quando a gente fala em herói, a gente fala em Ayrton Senna, em Pelé, nos jogadores que foram campeões do mundo, de vôlei, de basquete, de natação. A gente não tem a figura que todo país do mundo tem porque em algum momento neste país se achou que era possível viver sem referência." Ironicamente, algumas das mesmas pessoas que fazem questão de dizer que não precisam de heróis segundo uma postura de esquerda são as mesmas que sonham em ver o Brasil como potência esportiva. E não se incomodariam de ver o povo endeusar um atleta ou outro.

E é compreensível, já que em parte quem ajudou a derrubar a auto-estima do Brasileiro foi a vozinha irritante da intelligentsia de esquerda que já está se manifestando. Sobre a postura de Lula, os historiadores já estão se levantando contra: "Esse discurso falando de heróis é tradicional, careta. A esquerda nunca acreditou na personificação dos heróis e sim no herói que vem da coletividade. O herói é o povo"(Sérgio Lamarão, Fundação Getúlio Vargas). Então porque citar tanto Marx e Lênin? Afinal eles também são ícones.

O deputado federal Chico Alencar(PT - RJ) entrou nessa também. "Brecht já dizia: 'Infeliz é o povo que precisa de heróis'. Não termos heróis é um sinal de que estamos questionando as figuras heróicas que nos empurraram nos bancos escolares e que saíram sempre das elites. O primeiro passo para recuperar a auto-estima dos brasileiros é releitura da história." Ah, é mesmo?

Tudo bem. Então vamos reler as referências citadas por ele: Brecht, o autor da frase, é o mesmo homem que disse abertamente que considerava a gravidez uma doença venérea e que é lembrado como um defensor da humanidade e inimigo do nazismo, mas escreveu loas a Stálin e se calou quanto aos crimes deste(só mudando de postura dez anos depois, quando este estava morto e ele tinha que agradar novos patrões, que já renegavam Stalin abertamente).


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