Essa coluna é especial. Eu ia tomar alguns lançamentos como ponto de partida
para um outro assunto, mas mudei a rota ao ler o jornal O Globo de hoje(dia
20 de Julho, Terça-feira) porque isso ficou entalado na minha garganta. Eu
tinha que falar, e falar AGORA, porque além de ser um assunto importante
para mim, acho que isso diz respeito a todos nós; a aqueles que querem
produzir quadrinhos; a aqueles que querem ler quadrinhos e ver animações
nacionais; a aqueles que querem ver uma indústria cultural e viver dela
dignamente, podendo dedicar seus esforços em tempo integral, sem ter que
viver de um segundo emprego - e acredite, foi muito, mas muito triste ver
Érica Awano, após ter produzido um material de relevância no nosso
malditamente nanico mercado, dizer como recomendação para as novas gerações
de desenhistas que arrumem um trabalho paralelamente.
Eu sei que o que vou falar já foi dito antes. Porque eu já bati em quatro
colunas anteriores, de forma menos objetiva é verdade, na tecla que eu vou
bater mais uma vez: "Nunca fomos tão
brasileiros!", "Uma posição aos olhos do
mundo", "Norakuro, Capitão sete, E os
países do futuro" e finalmente em "Primeiro
eu, segundo e terceiro eu também". Portanto, eu admito que vou cair na
mesma auto-repetição que tanto me esforço em evitar e que me rendeu críticas
válidas de alguns leitores. Mas aqui, repito, eu TENHO que fazer isso. Está
preso no peito. Vai ser uma coluna emocional. Por isso não digam que eu não
avisei.
E o ponto de partida aqui é o lançamento da campanha do Presidente Lula "O
Melhor do Brasil é o Brasileiro", levantando a bandeira da auto-estima
nacional. Vão dizer que estou sendo trouxa. Vão dizendo que há coisas mais
importantes do que gastar dinheiro com propaganda. Vão dizer um monte de
baboseiras. Mas nisso ele está certo. Absolutamente certo.
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No livro "O Herói e o Fora da Lei", de Margaret Mark e Carol S. Pearson(Editora
Cultrix/Meio e Mensagem), que eu considero pessoalmente um manual prático de
aplicação das teorias de Joseph Campbell em toda e qualquer mídia, elas
abrem o terceiro parágrafo da parte três - "Os que deixam sua marca no
mundo" - com o seguinte texto: "A época de mudanças exige pessoas que sejam
energizadas pelo risco e que queiram provar suas próprias aptidões
enfrentando um desafio atrás do outro. A capacidade de correr riscos e
perseverar até realmente conquistar alguma coisa significativa tem como
resultado a auto-estima elevada e a validação social. Quando esses
arquétipos estão ativos nas pessoas, elas querem agir de uma maneira que
cause impacto no mundo".
É importante lembrar dessa verdade básica quando ter um lugar no mundo é o
que o país quer. Continuando: "As emoções ligadas a essas aspirações tendem
a ser apaixonadas e cheias de energia, variando da raiva e ambição até a
determinação feroz. O Herói, Fora da Lei e o Mago(nota do colunista: três
dos doze arquétipos catalogados pelas escritoras; no momento é o herói que
nos interessa) usam essa energia para deixar suas impressões digitais sobre
o mundo e para mobilizar as pessoas a fim de destruir ou transformar as
estruturas rígidas que nos desvitalizam. Quando essas figuras estão ausentes
na nossa vida pessoal - como frequentemente acontece - suplicamos por sua
presença no mercado e na mídia.(...) Todos eles, o Herói, o Fora-da-lei e o
Mago, se erguem contra alguma realidade limitadora, repressiva ou
prejudicial.". Ora, isso é o que MUITA GENTE NÃO QUER que aconteça, porque
de alguma forma ganha com isso.
E quando a gente tem que mudar nossa vida, a primeira coisa que temos que
fazer é pôr a cabeça em ordem. Se queremos uma garota(ou rapaz, se você que
me lê é mulher), nós perdemos peso, cuidamos da imagem, cuidamos melhor de
nós mesmos. Não fazer isso é admitir a derrota. Por isso a publicidade é
importante num projeto de reconstrução nacional. E o apoio das mentes
criadoras também - e o motivo pelo qual estou usando essa coluna para isso.
Mas já já eu chego lá. Tenham um pouco de paciência, porque ainda tem mais
antes disso.
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E esse mais começa na figura do Presidente Lula, que pode ainda estar a
dever no campo econômico, mas como eu disse, está certo quanto a esse ponto,
notou uma coisa importante. "No Brasil não temos heróis. O Brasil não é um
país que cultua heróis. Em qualquer lugar do mundo que vou, tenho que levar
flores ao túmulo do herói nacional. No Brasil não tem. No Brasil, quando a
gente fala em herói, a gente fala em Ayrton Senna, em Pelé, nos jogadores
que foram campeões do mundo, de vôlei, de basquete, de natação. A gente não
tem a figura que todo país do mundo tem porque em algum momento neste país
se achou que era possível viver sem referência." Ironicamente, algumas das
mesmas pessoas que fazem questão de dizer que não precisam de heróis segundo
uma postura de esquerda são as mesmas que sonham em ver o Brasil como
potência esportiva. E não se incomodariam de ver o povo endeusar um atleta
ou outro.
E é compreensível, já que em parte quem ajudou a derrubar a auto-estima do
Brasileiro foi a vozinha irritante da intelligentsia de esquerda que já está
se manifestando. Sobre a postura de Lula, os historiadores já estão se
levantando contra: "Esse discurso falando de heróis é tradicional, careta. A
esquerda nunca acreditou na personificação dos heróis e sim no herói que vem
da coletividade. O herói é o povo"(Sérgio Lamarão, Fundação Getúlio Vargas).
Então porque citar tanto Marx e Lênin? Afinal eles também são ícones.
O deputado federal Chico Alencar(PT - RJ) entrou nessa também. "Brecht já
dizia: 'Infeliz é o povo que precisa de heróis'. Não termos heróis é um
sinal de que estamos questionando as figuras heróicas que nos empurraram nos
bancos escolares e que saíram sempre das elites. O primeiro passo para
recuperar a auto-estima dos brasileiros é releitura da história." Ah, é
mesmo?
Tudo bem. Então vamos reler as referências citadas por ele: Brecht, o autor
da frase, é o mesmo homem que disse abertamente que considerava a gravidez
uma doença venérea e que é lembrado como um defensor da humanidade e inimigo
do nazismo, mas escreveu loas a Stálin e se calou quanto aos crimes deste(só
mudando de postura dez anos depois, quando este estava morto e ele tinha que
agradar novos patrões, que já renegavam Stalin abertamente).
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