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Ponto de Ancoragem
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01- 02


Acho que chegou a hora. O mercado de mangá e talvez anime finalmente delimitou suas fronteiras, para onde vai crescer e não vai crescer. Os sinais já estavam dados e tomaram forma recentemente - a última Anime Friends trouxe uma leva de novidades conclusivas. Vamos ao saldo recente:

A Conrad pareceu acordar. Além de trazer o material coreano, abrindo um novo leque de material, está anunciando o lançamento futuro das novelizações dos Cavaleiros do Zodíaco, trazendo um novo front para os produtos baseados na mídia original(que é onde quadrinhos e animação fazem realmente seu dinheiro). Dois pontos para eles. Claro, o udigrudi ainda parece ter muita força na editora e eles desencavaram "O Vampiro que Ri", que ainda preciso ler, mas me parece - veja bem, eu disse PARECE - um candidato sério ao "Troféu Preto e Branco" deste ano. Diferente de Taiyo Matsumoto e seus rabiscos, Suehiro Maruo é um desenhista de primeira linha, com um traço muito elegante e um colorido de extrema personalidade. Mas a julgar pelas ilustrações do sujeito (apenas para adultos, eu disse adultos, com MUITO estômago e não digam que não avisei antes de passar o link), eu tenho medo do que posso encontrar ali. A primeira coisa que me lembrei ao ver o conteúdo de seus trabalhos, estou falando sério, foi a obra do "ilustrador" Henry Darger, que pintava meninas hermafroditas pré-púberes sendo trucidadas graficamente por marmanjos de traje militar. Mas Darger era louco no sentido clínico da palavra. Maruo não tem essa desculpa.

A JBC por sua vez trouxe sua primeira enciclopédia de um personagem de mangá. Gostaria de saber mais da vendagem do artbook de Holy Avenger, mas duvido que sua boa recepção não tenha influído na decisão de se trazer o Kenshin Kaden. Não falo tanto da Panini porque comparativamente ela está dando seus primeiros passos e está se limitando a novos lançamentos em quadrinhos - e num primeiro momento é o que qualquer editora tem que fazer. Lobo Solitário é sempre motivo para comemorar. Slayers, bom, sempre teve uma carreira internacional muito boa.

Para melhorar, temos dois novos competidores na jogada. O primeiro é a Devir, especializada em RPGs - e que está trazendo Lodoss para o Brasil. Nada mais adequado para sua entrada no mercado de vídeo, e espero que eles usem seu braço editorial para trazer "The Lady of Pharis", que de quebra nem vai provocar celeuma entre os leitores - o artista, Akihiro Yamada, quis dar um ar europeu à história e a desenhou em sentido ocidental por decisão artística. Se algum otaku disser que esse cara se vendeu ou algo assim, eu passo o endereço dele para o Chorão do Charlie Brown Jr(muito adequadamente rebatizado pelo Casseta e Planeta como Charles Bronson Jr.). O segundo, e mais digno de nota por investir em material nacional de qualidade técnica, é a ZN editora, com a dobradinha Sugoi e Faherya. Conheço os desenhistas. O nome deles diz tudo quanto à qualidade artística do material.

Esses foram os saldos positivos. Mas nem todas as conclusões são risonhas.

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O que eu sinto é que ao se apostar num mercado restrito, se pôde delimitar o terreno em que se pode investir. O quanto pode crescer e quem pode comprar o quê. Ou seja, as fronteiras foram delimitadas e há um risco imenso de que não se cresça mais a partir daí. Ao menos pode haver um mercado seguro, que garanta uma continuidade do processo. Ninguém seria maluco de publicar um artbook de uma série famosa dez anos atrás - infelizmente, bom dizer. A verdade é que tanto livros como os dois volumes do "Capas na Areia" de Sandman quanto o já citado Arbook de Holy Avenger mostraram que há consumidores para esse tipo de material. Não se espera que eles sejam um estouro de vendas, e seu lugar de natureza para mim são as livrarias, onde eles se beneficiarão de uma exposição mais prolongada e podem justificar um merecido acabamento melhor, mas que los hay, hay. Um mercado de fãs.

Ora, uma tecla em que eu sempre bati foi a da necessidade de se voltar para o público FORA do fandom, e sei que repetir isso me torna um chato que fica sempre falando as mesmas coisas. Não é tarde - talvez nunca seja, mas a cada momento que se passa se torna mais difícil pensar em quadrinhos como um artigo de consumo popular, como um dia ele já foi. E nos últimos anos o único avanço significativo nesse terreno foi Witch, que atinge um público maior do que o público normal de quadrinhos. Sua grande contribuição foi a de oferecer uma fórmula editorial que se revelou bem-sucedida e pensando bem, qualquer editora pode desencavar um quadrinho feminino qualquer tipo o novo Mary Jane da Marvel por exemplo, meter matérias voltadas para meninas(talvez usando um tema plantado na história como gancho) e em seguida tentar se bater pelo mesmo mercado, mas as possibilidades são tão grandes que é bobagem se plantar num público só - a Quatro Rodas Tuning chegou a plantar uma historinha tapa-buraco nas suas páginas mas seria mais jogo criar uma série que batizasse uma história e produtos associados, e de quebra plantar matérias de interesse para o público dessa. Algo como uma Initial D Magazine, porque não?

Talvez a ancoragem dê às editoras sossego para tal. Ficar com os fãs segurando várias pontas reduzidas de um lado e de ponta em ponta exista algum volume que dê base para experiências de mercado mais amplas. Porque a demarcação de fronteiras pode dar margem tanto à uma expansão posterior quanto... uma expansão para dentro.

Quando digo expansão para dentro eu digo ver o que mais pode ser oferecido ao contingente que já compra, aqueles que estão familiarizados com o terreno e que estão dispostos a gastar dinheiro com ele. Oferecer aos clientes fixos.

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Eu acho curioso também o fato de que isso aconteça justamente num momento de que o projeto de lei do Vicentinho esteja estimulando, com razão, muita gente que está doida para produzir. Não vou me demorar muito sobre esse tópico porque eu estou me programando para uma nova coluna sobre esse assunto - e me desculpem aqueles quem esperavam de mim uma resposta mais imediata. Muita água rolou desde então e isso pede uma atualização muito bem-cuidada, com opiniões que devem ser pesadas e consideradas.

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