Acho que chegou a hora. O mercado de mangá e talvez anime finalmente
delimitou suas fronteiras, para onde vai crescer e não vai crescer. Os
sinais já estavam dados e tomaram forma recentemente - a última Anime
Friends trouxe uma leva de novidades conclusivas. Vamos ao saldo recente:
A Conrad pareceu acordar. Além de trazer o material coreano, abrindo um novo
leque de material, está anunciando o lançamento futuro das novelizações dos
Cavaleiros do Zodíaco, trazendo um novo front para os produtos baseados na
mídia original(que é onde quadrinhos e animação fazem realmente seu
dinheiro). Dois pontos para eles. Claro, o udigrudi ainda parece ter muita
força na editora e eles desencavaram "O Vampiro que Ri", que ainda preciso
ler, mas me parece - veja bem, eu disse PARECE - um candidato sério ao
"Troféu Preto e Branco" deste ano. Diferente de Taiyo Matsumoto e seus
rabiscos, Suehiro Maruo é um desenhista de primeira linha, com um traço
muito elegante e um colorido de extrema personalidade. Mas a julgar pelas
ilustrações do sujeito (apenas para adultos, eu disse adultos, com MUITO
estômago e não digam que não avisei antes de passar o
link),
eu tenho medo do que posso encontrar ali. A primeira coisa que me lembrei ao
ver o conteúdo de seus trabalhos, estou falando sério, foi a obra do
"ilustrador" Henry Darger, que pintava meninas hermafroditas pré-púberes
sendo trucidadas graficamente por marmanjos de traje militar. Mas Darger era
louco no sentido clínico da palavra. Maruo não tem essa desculpa.
A JBC por sua vez trouxe sua primeira enciclopédia de um personagem de
mangá. Gostaria de saber mais da vendagem do artbook de Holy Avenger, mas
duvido que sua boa recepção não tenha influído na decisão de se trazer o
Kenshin Kaden. Não falo tanto da Panini porque comparativamente ela está
dando seus primeiros passos e está se limitando a novos lançamentos em
quadrinhos - e num primeiro momento é o que qualquer editora tem que fazer.
Lobo Solitário é sempre motivo para comemorar. Slayers, bom, sempre teve uma
carreira internacional muito boa.
Para melhorar, temos dois novos competidores na jogada. O primeiro é a
Devir, especializada em RPGs - e que está trazendo
Lodoss para o Brasil. Nada mais adequado para sua entrada no mercado de
vídeo, e espero que eles usem seu braço editorial para trazer "The Lady of
Pharis", que de quebra nem vai provocar celeuma entre os leitores - o
artista, Akihiro Yamada, quis dar um ar europeu à história e a desenhou em
sentido ocidental por decisão artística. Se algum otaku disser que esse cara
se vendeu ou algo assim, eu passo o endereço dele para o Chorão do Charlie
Brown Jr(muito adequadamente rebatizado pelo Casseta e Planeta como Charles
Bronson Jr.). O segundo, e mais digno de nota por investir em material
nacional de qualidade técnica, é a ZN editora, com a dobradinha Sugoi e
Faherya. Conheço os desenhistas. O nome deles diz tudo quanto à qualidade
artística do material.
Esses foram os saldos positivos. Mas nem todas as conclusões são risonhas.
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O que eu sinto é que ao se apostar num mercado restrito, se pôde delimitar o
terreno em que se pode investir. O quanto pode crescer e quem pode comprar o
quê. Ou seja, as fronteiras foram delimitadas e há um risco imenso de que
não se cresça mais a partir daí. Ao menos pode haver um mercado seguro, que
garanta uma continuidade do processo. Ninguém seria maluco de publicar um
artbook de uma série famosa dez anos atrás - infelizmente, bom dizer. A
verdade é que tanto livros como os dois volumes do "Capas na Areia" de
Sandman quanto o já citado Arbook de Holy Avenger mostraram que há
consumidores para esse tipo de material. Não se espera que eles sejam um
estouro de vendas, e seu lugar de natureza para mim são as livrarias, onde
eles se beneficiarão de uma exposição mais prolongada e podem justificar um
merecido acabamento melhor, mas que los hay, hay. Um mercado de fãs.
Ora, uma tecla em que eu sempre bati foi a da necessidade de se voltar para
o público FORA do fandom, e sei que repetir isso me torna um chato que fica
sempre falando as mesmas coisas. Não é tarde - talvez nunca seja, mas a cada
momento que se passa se torna mais difícil pensar em quadrinhos como um
artigo de consumo popular, como um dia ele já foi. E nos últimos anos o
único avanço significativo nesse terreno foi Witch, que atinge um público
maior do que o público normal de quadrinhos. Sua grande contribuição foi a
de oferecer uma fórmula editorial que se revelou bem-sucedida e pensando
bem, qualquer editora pode desencavar um quadrinho feminino qualquer tipo o
novo
Mary Jane da Marvel por exemplo, meter matérias voltadas para
meninas(talvez usando um tema plantado na história como gancho) e em seguida
tentar se bater pelo mesmo mercado, mas as possibilidades são tão grandes
que é bobagem se plantar num público só - a Quatro Rodas Tuning chegou a
plantar uma historinha tapa-buraco nas suas páginas mas seria mais jogo
criar uma série que batizasse uma história e produtos associados, e de
quebra plantar matérias de interesse para o público dessa. Algo como uma
Initial D Magazine, porque não?
Talvez a ancoragem dê às editoras sossego para tal. Ficar com os fãs
segurando várias pontas reduzidas de um lado e de ponta em ponta exista
algum volume que dê base para experiências de mercado mais amplas. Porque a
demarcação de fronteiras pode dar margem tanto à uma expansão posterior
quanto... uma expansão para dentro.
Quando digo expansão para dentro eu digo ver o que mais pode ser oferecido
ao contingente que já compra, aqueles que estão familiarizados com o terreno
e que estão dispostos a gastar dinheiro com ele. Oferecer aos clientes
fixos.
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Eu acho curioso também o fato de que isso aconteça justamente num momento de
que o projeto de lei do Vicentinho esteja estimulando, com razão, muita
gente que está doida para produzir. Não vou me demorar muito sobre esse
tópico porque eu estou me programando para uma nova coluna sobre esse
assunto - e me desculpem aqueles quem esperavam de mim uma resposta mais
imediata. Muita água rolou desde então e isso pede uma atualização muito
bem-cuidada, com opiniões que devem ser pesadas e consideradas.
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