Patricinhas, credibilidade
(e um pouco de romance...)
Novidades no ar: O diretor de publicidade da
DC Comics, David Hyde, anunciou o lançamento de uma linha de mangás, a CMX,
na Bookexpo de Chicago. Serão três mangás inicialmente: Gals!, de Mihona
Fuiji, da Shueisha; Musashi #9, de Miyuki Takahashi, da Akita Shoten; e
Madara, de Sho-u Tajima e Eiji Otsuka, da Kadokawa Shoten.
Madara é virtualmente desconhecido mas a rigor é uma "saga do herói" em
moldes clássicos e um traço simples, um tanto datado e que nos dias de hoje
pode parecer pobre ao leitor mais novo; minha opinião ao ler o material é
que é uma história muito aquém do seu potencial(descrevendo o material, a
impressão que temos é que vamos ler um verdadeiro épico - e não é isso o que
encontramos). Gals por sua vez é um Shoujo bem-humorado e acima da média, e
sobre Musashi Nº 09 não consegui encontrar informações - eu agradeceria a
quem puder me informar do que se trata. O que importa é que veremos esses
materiais com um tratamento gráfico excelente, no mínimo - dêem uma olhada
no que a DC faz com suas edições encadernadas ou lançadas em formato livro.
Como com seus volumes de tiragem eles podem se dar ao luxo de baixar um
pouco mais seus preços, pelo visto as Tokyopop da vida terão que suar.
O problema é que eu não diria nada que não tivesse dito em colunas
anteriores: Isso é um mero sinal do crescimento do mangá nos Estados Unidos
graças a mudança de eixo dos locais de vendagens, e enquanto a Marvel impera
nas Comic Shops, a DC se mostra uma editora até mais lucrativa, graças a
suas tiragens de livros comprados por bibliotecas(como a série Archives), e
o fato de que nas livrarias comuns, seus trade paperbacks - o equivalente
americano aos Tanko-Hons japoneses, compilando materiais de quadrinhos - têm
vendagens maiores do que os da Marvel - que covenhamos, exceto pelos simples
e bons Runaways e Spider-Girl, não têm muito a oferecer a um leitor que nem
é o necrófilo que arde de orgasmos pela volta de Hal Jordan ao anel verde
nem é o ser "muderrno" que ama ver a Vespa tomar um banho de Baygon por obra
e graça do próprio marido numa cena de violência doméstica na linha "Ultimate".
Bom lembrar que a DC pertence ao grupo Warner, e em termos de distribuição,
isso conta - e muito - de uma forma assustadora. Harry Potter também tem sua
face espalhada pelo mundo com os dedos da Warner por trás. Ou seja, Gals!,
bem administrado, periga fazer um estrago violentíssimo - e não podemos
desconsiderar seus efeitos colaterais potenciais, uma vez que a Panini é a
representante da DC nas bancas do Brasil. Dito isto, e feito o registro, não
há muito a dizer.
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Porque de tantos mangás a DC escolheu logo Gals! para ser a representante
para meninas do seu selo CMX? Porque além de ser colorido e bonitinho,
perfeito para virar uma franquia de produtos adoidado(convenhamos, as três
patricinhas da história parecem desenhadas para virar bonecas e capas de
caderno), a autora, Fuji Mihona, tomou a iniciativa de olhar para a janela e
olhar o mundo ao seu redor. Ela desencavou todo um esquema de tribos urbanas
- no Japão, as patricinhas como apresentadas em Gals! são uma tribo urbana,
cheias de subdivisões(ganguro, gonguro e sabe-se lá o que mais) e aplicou
tudo isso quase que didaticamente na sua história, dando algum diferencial
ao que poderia ser apenas mais uma historinha sobre meninas, namoros e
frescurites agudas. Isso poderia ser algo totalmente alienígena para um
ocidental?
Não mesmo. Enquanto houver uma garota estourando o cartão de crédito dos
pais em um Shopping Center, esse será um tipo identificável em qualquer
parte do mundo. O que torna bem-sucedido um produto dentro de uma mídia
ficcional no seu país de origem é seu componente local; o que o torna viável
para consumo externo é seu componente universal. Sem um desses fatores,
temos um produto que já nasce manco, incapaz de crescer.
Não sou o maior fã da tira online Mega-Tokyo, mas volta e meia ela acerta o
ponto: Em um par de tiras recentes -
01 e
02 -
foi aventado o fato de que um personagem, não importa o que ele seja,
precisa de credibilidade.
É por isso que alguns materiais pessoalmente me incomodam tanto.
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O escritor de ficção científica Brian Aldiss começou na literatura não com o
gênero que o consagraria, mas com um faroeste chamado Hard Times. Aldiss
estranhou completamente o convite de um editor de ficção científica ao
encomendar-lhe um conto. "Eu não entendo nada de naves espaciais, viagens no
tempo, robôs. Eu escrevo sobre pessoas!"
O editor respondeu: "Mas é isso que queremos que você faça aqui!"
A ficha caiu: não importa o que se escreva, se é fantasia, ficção
científica, policial, o diacho; se o personagem não tiver um mínimo de
credibilidade, mesmo que a história não seja focada em sua vida pessoal ou
emocional, tudo estará perdido. É o que fez do Gundam original, de Harry
Potter, do diacho, o que são; aceitamos os robôs gigantes, a magia, o que
for, como parte do jogo - como "reais", enfim, porque por maior ou menor que
seja o grau de caricatura do comportamento do personagem, ele é baseado em
algo plausível.
É por isso que personagens que cansei de citar desde que tenho esta coluna
não pegam, e chegam a ser odiados até pelos fãs dessas séries(fãs por
motivos extras, na maioria dos casos). Em séries de gênero, com tramas mais
amplas e mais importantes do que os próprios personagens, isso pode até ser
compensado - Arquétipos podem ter credibilidade quando são bem embasados, e
a história dos gêneros de ação e aventura está cheia de casos onde o
personagem se limita a sua natureza arquetípica e sustenta a história mesmo
assim. Lodoss, para citar um anime, se encaixa muito bem nessa descrição - e
Lodoss não só é ótimo como está longe de ter sido um fracasso algum dia!
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