|
Louras burras e garotos idiotizados
Eu tenho que pedir desculpas pela coluna de
semana passada. Não por nenhuma opinião ou imprecisão, mas por ter sido
escrita daquela forma desastrosa. Quase tudo é perdoável, mas trabalho
mal-feito não faz parte dessa lista. Foi o que fiz e admito isso.
Mas não deixa de ser curioso que na coluna anterior eu deveria estar com
minha cabeça sintonizada em algum lugar - afinal, poucos dias depois veio a
notícia de que Cavaleiros do Zodíaco será exibido no programa da Kelly Key,
que vem empresariada pela Marlene Mattos - a mulher que fabricou a Xuxa, e
que por isso terá um belo lugar reservado no inferno junto com o monstro que
ela criou. E eu, no meio daquela bagunça toda, soltei exatamente essa:
"(...)e isso para uma geração que sofreu dez anos de lavagem cerebral nas
mãos de Xuxa, que deveria ter sido enforcada nas tripas de todas as suas
clones. Dez anos emburrecendo toda uma geração."
E como acredito que meus leitores compartilhem comigo o gosto por quadrinhos
e desenhos animados, e como o fenômeno das "apresentadoras-louras-burras"
está diretamente relacionado a forma que esses desenhos são apresentados,
acho bom refletirmos um pouco sobre o porquê destas palavras minhas.
**************************
Começando: Porque as televisões abertas têm que ter programas onde os
desenhos são inseridos ao invés de economizar dinheiro e deixar as séries
que realmente interessam correndo soltas?
O motivo essencial é simples: publicidade. Imaginem a Globo enchendo suas
manhãs, das oito da manhã até o meio-dia, com um desenho isolado a cada meia
hora. Oito desenhos diferentes. Imagine o nível de audiência de um desenho
perdido às oito e meia da manhã - algo como um Popolocrois da vida.
Imaginem, por outro lado, Power Rangers(que é uma bomba, mas não podemos
negar que faz sucesso) e um Dragon Ball Z da vida nos dois últimos horários.
O preço dos comerciais nesse horário, no mínimo, seria altíssimo. O
Popolocrois por sua vez sairia quase de graça. Uma revista como a "Imprensa"
mostra toda essa tabela de horários e dá para ver a discrepância dos custos
de uma inserção comercial de acordo com o momento do dia.
Então a função de um programa para englobar todos esses desenhos seria uma
só: Nivelar os preços. Ao invés de se vender o espaço publicitário das dez
horas até as dez e meia, cobraria-se primordialmente a mesma coisa por todo
um espaço que vai das oito ao meio-dia. Claro que alguns anunciantes são
mais "preferenciais" do que os demais, e por fora se garante que seus
produtos tenham uma exposição em horários melhor localizados do que outros
clientes, mas de forma geral o ponto é esse.
"Não seria mais fácil então se criar uma 'Sessão Desenho' para esse fim?"
Infelizmente não é o suficiente, porque televisão antes de mais nada é uma
indústria de entretenimento. E para esses fins, todo diferencial é uma arma
na competição por audiência. Aí vem a pergunta: porque a mesma fórmula
sempre?
A resposta é simples. Programas movidos por um monte de água oxigenada com
pernas de fora dão resposta imediata e são BARATOS.
**************************
Vamos aos fatos. Você não precisa muito para fazer um programa infantil
capitaneado por uma loura. Basta um estúdio, uma decoraçãozinha colorida, um
monte de crianças olhando para apresentadora feito zumbis e, claro, uma
loura com shortinhos. Ela banca uma animadora de festinha infantil, põe as
crianças para competir umas com as outras, canta músicas de gosto pra lá de
duvidoso, e se for bem-sucedida ela investe numa imagem mais limpa. Se não
for... bom, sempre resta a Playboy para aumentar sua conta bancária...
Nesse contexto, os desenhos muitas vezes ganham um caráter secundário para
os diretores de programação das emissoras. Tanto que em emissoras menores, o
que mais se viu durante a "era loura" da programação infantil televisiva
foram desenhos antigos - usualmente dos piores momentos da Hanna Barbera -
como o se o mais importante fosse a apresentadora, não os desenhos. E para a
emissora era. Nenhum desses programas costumava durar muito.
Bom, nenhum moleque assiste programa infantil por causa de apresentadora.
Mas a escolha dos desenhos corre o risco de acompanhar a agenda dela. E aí é
que a porca torce o rabo. Muito se falou de que a saída de Ultraman Tiga da
grade do programa da Eliana foi por culpa da própria, que teria achado o
live-action em questão violento e "feio". Não sei se isso é verdade. Mas se
fosse, eu não me espantaria - apresentadoras tem uma imagem a zelar.
Em determinado momento dos anos noventa, eu cheguei a ler sobre um convite
para que Xuxa fosse para o SBT. E a colunista que soltou a informação falou
a seguinte pérola: "Seria vantajoso, porque o SBT tem desenhos menos
violentos - Pica-Pau, Piu Piu, Tom e Jerry - que cairiam melhor no programa
dela".
Sinceramente isso é ridículo. Para começo de conversa, os três desenhos
citados de menos violentos não tem nada, ainda mais quando o mix da
apresentadora na época era composto em sua maioria por desenhos ao estilo
He-Man, em geral extremamente assépticos, onde ninguém podia sentar a mão na
cara de um criminoso abertamente para não estimular violência entre as
crianças americanas - isso eles aprendem na escola. Nesse sentido, um
filmete de sete minutos de Tom e Jerry tem mais violência do que toda a obra
completa de um desenho como o antigo He-Man.
Mas esse tipo de comentário reflete bem a mentalidade que impera nas
programações televisivas. Compra-se pacotes de materiais para serem
exibidos.
Às vezes no meio vem pequenas pérolas. Ninguém se lembra do desenho animado
Capitol Critters, que falava de um bando de ratos que viviam em estado de
quase penúria no subsolo da Casa Branca. E duvido que alguém na Globo
pensasse em comprar esse desenho, que teve poucos episódios e foi exibido
quase que escondido no programa da Xuxa.
Avançar >> |