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Um projeto de futuro
Na palestra de Yoshiyuki Tomino no Rio de Janeiro, que já rendeu uma
coluna anterior - a última pergunta, se
me lembro bem, dizia respeito aos animes de robô. Seriam eles os mais
adequados a lidar com temas profundos? A tocar de forma simbólica em temas
importantes explosivos demais para serem abordados de forma direta?
Analisando friamente eu diria que no caso do Japão isso até merece uma
resposta afirmativa, mas o mérito não é do subgênero mecha em si. "Até
merece", porque uma retrospectiva dos mechas mostram que através deles se
tocou em muitos pontos nevrálgicos que os espectadores parecem não se dar
conta. Sobre o Gundam original, já cheguei a ouvir a teoria de que há um
paralelo entre o conflito Zeon-Terra e a endêmica crise entre Israel e os
palestinos nos anos setenta. Em Gundam 0080, essa teoria ganha força através
de pequenos detalhes, como os pôsteres escritos "Beirute" nas paredes das
ruas da colônia onde se passa a história. Gundam Wing pode não ser bom, mas
escancara isso sem a menor sutileza - a partir do momento em que os Manganac
entram em cena, nos damos conta sobre o que são realmente os cinco garotos
em combate. Não custa lembrar que a partir de determinado momento, Gundam
Seed parece refletir os eventos da recente guerra do Iraque.
Evangelion por sua vez toca muito na falta de rumo de toda uma geração de
jovens japoneses - bom lembrar que tradicionalmente a figura do pai, a nível
simbólico, é uma figura um tanto ausente entre o povo japonês, que coloca a
mãe como órbita de tudo. O marido é o provedor, o a mãe administra o
dinheiro e a vida dos familiares - um bom exemplo disso é a família de
Takato no terceiro e melhor Digimon, exposta com uma dureza incomum em um
anime infantil nos nossos dias(se olharmos bem, a mãe não parece ter
realmente coração - e o pai não passa de um invertebrado que não consegue
interceder a favor do filho por muita coisa). Bom lembrar que o terceiro
Digimon, vulgo Digimon Tamers, ou "Domadores de Digimon", ou mais
simplesmente, "Digimon 3", teve como roteirista Chiaki Konaka, cujos
créditos incluem o roteiro de... Serial Experiments Lain.
Mas voltemos a Evangelion. Se olharmos bem, a figura da mãe é removida de
antemão e com isso os personagens estão perdidos. Shinji, órfão de mãe.
Asuka, filha sem pai e também órfã de mãe. E se pensarmos bem, Gendo também
é uma espécie de órfão - a esposa é uma espécie de uma continuidade da
figura da mãe por esse paradigma cultural. A natureza edipiana da história
revela muito, de forma sutil, sobre aspectos amargos da educação familiar
japonesa - mais do que nos damos conta. E para o espectador japonês, ela
falou muito alto.
Mas quem deu o gancho fantástico para esse Édipo Rei redivivo não foram os
robôs gigantes. Foi um certo clone de cabelos azul-gelo e olhos vermelhos
que desempenhou o papel velado de Jocasta nessa história(embora Shinji não
vá para a cama com ela, vão me dizer que não houve tensão sexual?).
O mérito pode parecer dos robôs gigantes aos olhos de Tomino, mas eu acho
que ele olhou o aspecto e o tomou como todo. Na verdade, o mérito pertence
única e simplesmente à ficção científica - e a Gainax está voltando a ela ao
retomar o seu melhor roteiro: Gunbuster ganhará continuação, sob o design do
mesmo Yoshiyuki Sadamoto de Evangelion.
(Me pergunto porque não chamaram Haruhiko Mikimoto, o character designer
original, de volta. Ele em seu último artbook fez uma nova arte com os
personagens de Gunbuster, e impressiona. Mas estou me desviando do assunto -
tenho essa tendência pelo visto.)
Gunbuster, antes de mais nada, é uma história sobre solidão. O gancho dessa
abordagem do tema foi dado pela física relativística(tema reaproveitado
posteriormente por Hoshi no Koe): a cada salto hiperespacial, anos e mais
anos se passam. A vitória é alcançada, mas os preços pagos são amargos.
Claro - eu acredito que esse seja um esforço da Gainax em recuperar o
prestígio perdido com os Mahoromatics da vida. E também um exemplo extremo
da síndrome de reciclagem que acomete a indústria de anime e mangá
recentemente - como se nenhum projeto novo pudesse dar o respeito que a
empresa jogou pela janela. Gunbuster não precisava de continuação. É
perfeito como estava.
Mas por outro lado nenhum projeto novo possa ter apresentado o que eles
precisavam. Mas isso é outro assunto.
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Porque nossa ficção científica é parte de um grupo tão restrito?
Há uma certa resistência quanto a ficção científica dentro de certas alas
dos leitores/espectadores Brasileiros, embora eles mesmos não se furtem em
assistir filmes do gênero na televisão. No entanto, gostamos de filmes como
Guerra nas Estrelas e Tropas Estelares.
Na matéria da
Carta Capital eu exibi numa coluna anterior, estava a seguinte "pérola":
"Já as guerras futuristas e a exploração e conquista de planetas
desconhecidos, clássicos na FC norte-americana, são aqui muito raras – algo
natural em um país vítima, não protagonista do imperialismo". No entanto, se
isso fosse verdade, porque gostaríamos tanto de material como os citados
acima?
Para mim isso é o típico descompasso entre os compromissos ideológicos dos
escritores e as vontades dos potenciais leitores. É uma desculpa que não
cola e jamais que vai colar. E se é para falar de Imperialismo, que tal
citarmos a não tão bem-sucedida campanha da Cisplatina? Aliás, o período da
regência foi um tempo onde o governo sentava o sarrafo em quaisquer
rebeliões separatistas que viriam a ser endeusadas pelos habitantes do seu
estado nos dias de hoje, mas na época, uma revolta dessas não era nem
deveria ser vista com simpatia. Imaginem que um dia queiram, digamos,
separar Roraima do nosso país. Roraima não existe para nós. Mas de repente
todo mundo vai querer manter o país inteiro.
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