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Samba de Outono

Quem gosta do assunto anisong - aquelas canções exageradas feitas para a abertura de animes mais antigos, onde se usavam nomes e golpes de personagens, e tudo o mais - deveria prestar mais atenção na obra de Marcos e Paulo Sérgio Valle. Apesar de Marcos Valle, o intérprete, ser mais conhecido por obras como o popular "Samba de Verão"), muito da popularidade conquistada por seu trabalho no Brasil daqueles tempos vem das trilhas sonoras de novelas e de outros programas de televisão compostas por ele. Se hoje ele não é tão lembrado por quem tem menos de trinta anos foi devido à aversão da intelligentsia cultural brasileira dos anos setenta à popularidade de seu trabalho, que o levou ao exterior, onde ele é mais conhecido e respeitado do que no Brasil.

Mas o que tem uma coisa a ver com a outra? Bom, antes de mais nada, anisong é jingle. Não tem nem o que dizer. E Marcos Valle e seu irmão Paulo Sérgio trouxeram a eficiência dos jingles comerciais para suas trilhas sonoras, com refrões ganchudos, eficientes e facilmente repetíveis ao acaso. Não subestimem o poder de um jingle: Duvido que alguém que esteja me lendo nesse momento não se tenha pego cantarolando coisas como "adoro pizza com guaraná" e "Quero ver/você não chorar/não olhar pra trás/nem se arrepender/do que faz"(que virou praticamente um hino de natal - e muito superior ao insuportável "Boas Festas" de Assis Valente, que é uma ótima trilha para um suicídio - mas que, antes de mais nada, ainda é um jingle comercial feito originalmente para a companhia de aviação Varig).

Eu tenho ouvido a trilha do "Selva de Pedra" original, feita num tempo em que as trilhas de novela não eram coletâneas de sucessos de trocentas gravadoras, e sim feitas por artistas escolhidos para interpretar as músicas compostas por um artista contratado especialmente para o programa de tv em questão. Apesar das boas músicas que sobrevivem perfeitamente ao seu tempo, como a ótima "Capitão de Indústria" que foi regravada até pelo Paralamas do Sucesso, o que chama a atenção na base do susto são as músicas feitas especialmente para personagens, cujo nome é repetido a exaustão em refrões pegajosos. Hoje em dia não temos paralelo para músicas como "Simone"(a mocinha da novela em questão), "Longo de Dior"(que parece trilha de algum comercial de griffe de roupas) ou "Corpo Sano em Mente Sã", onde se repete o nome da vilã da novela, Fernanda, se rima com esse nome à exaustão, e no final temos um refrão grudando horrorosamente na cabeça - imaginem o efeito disso em oito meses contínuos de novela.

Isso na verdade é fruto de um esforço conjunto de indústria de entretenimento que se espalha em várias mídias e subdivisões. Veja a novela. Compre o disco. Leia o livro, caso a novela seja baseada em algum. Compre a adaptação para quadrinhos(sim, eu me lembro de ter visto uma adaptação de "Dona Xepa", baseada na novela de Bráulio Pedroso, feita pela Ebal de tempos idos). Não admita que tenham trazido um homem do metiér dos jingles comerciais para fazer essas músicas. E não admira que por muito tempo os japoneses tenham tido esse mesmo tipo de cuidado. Prestem atenção no tema de Cavaleiros do Zodíaco, cuja natureza "grudenta" foi preservada na música de abertura da primeira temporada.

É de se perguntar o porquê disso não ser observado como deveria por aqui.
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Numa conversa com um amigo meu que pretende trabalhar na indústria de games, saltou esse diálogo: "Sinceramente, é por isso que faz falta um complexo de entretenimento - falta a iniciativa de se dizer e fazer 'vamos produzir duas franquias! Um andar do edifício é para os quadrinhistas em estúdio, o outro é para o pessoal de games e o terceiro para o pessoal de animação'. Fico pensando no prédio da Ebal lá em São Januário e no fato de que hoje em dia ela deveria ser uma verdadeira Shogakukan da vida.

Talvez eu fique pensando demais.

O problema inicial de uma empreitada dessas é: vale o investimento ou não? Tanto jogos quanto música esbarram no problema de sempre: o camelô da esquina. O gibi iria esbarrar na pequenez e nos vícios de distribuição e tiragem de nosso mercado.

O que poderia fazer esse material rentável para seus criadores?
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Fico pensando porque no meio dos quadrinhos não se foca na realidade dos fatos, e que precisamos de um lobby da indústria de quadrinhos entre os políticos, como todos os ramos da indústria parecem ter. Agora vocês devem imaginar que eu surtei de vez. Mas em tese a política existe como representante dos núcleos do povo, ou como interesse dos grupos industriais - e por um motivo de sobrevivência, na possível década de decadência que pode vir, quadrinhos deveriam se pensar mais como um grupo industrial. Indústria Cultural ainda é indústria.

E isso poderia ser útil no sentido de propôr leis que ajudem no sentido de evitar censuras(bom lembrar que Jânio Quadros quase decretou uma lei proibindo as histórias em quadrinhos no Brasil, assim como o fez com as rinhas de galo. Graças a Deus ele foi "renunciado" antes disso), de facilitar distribuição e acesso, de garantir uma uniformização em preços de gráficas, enfim, de todos os aspectos distantes do público consumidor mas que afetam e muito a produção do material.

Às vezes sinto que o meio mergulha demais na própria fantasia que vende, e por isso mesmo sofre nos aspectos mais prosaicos. Estava conversando com um conhecido que pretende montar uma editora não-envolvida com quadrinhos. Nas palavras dele, "só é necessário um gerenciamento FINANCEIRO - parte onde a maioria das pequenas editoras peca - para não quebrar." Isso significa uma presença profissional que geralmente não há quando três pessoas se juntam e inocentemente proclamam: "vamos montar uma editora e mudar o mercado para sempre".

No caso de quadrinhos isso é bem mais complicado. Porque quadrinhos têm um custo de produção difícil de se manter. Eu fico pensando se não é o caso de se convencer políticos do potencial de leitura de massa de quadrinhos em um momento de transição em escala mundial como estamos vendo. Até porque a Globo vem perdendo paulatina e acentuadamente poder como instrumento de entretenimento e influência social. Bom lembrar que os mangás e animes são a Globo do Japão, e exercem igualmente uma boa dose de controle social. Não se iludam.

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