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Homens, livros e piões de nomes esquisitos

Porque mangás e animes são parte de uma indústria milionária no seu país de origem? Por um motivo só: seu poder como franquia. São os mega-sucessos que impulsionam e dão bala na agulha para cada empresa, enquanto as publicações médias para adultos dão uma base sólida e fiel(porque adolescente tende a ser um tanto volúvel e maleável à novidades. Traduzindo: um quadrinho para adolescentes vai vender mais mas pode ser cancelado no meio se não continuar mantendo as mesmas expectativas de sucesso de forma constante; os quadrinhos para adultos de classe média bem-sucedidos têm um público sedimentado e constante, sem que despertem necessariamente fanatismo por seus leitores).
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O que é exatamente uma franquia? Uma explicação simples seria a de uma forma para outras pessoas poderem ganhar dinheiro em cima de uma marca, desde que os donos dessa marca sejam pagos por seu uso. Não é a toa que Beyblade conseguiu o que animes muito mais votados - e melhores - não conseguiram: fazer sucesso de verdade. Sailor Moon ainda é trauma não por discriminação, mas por ter sido, na época da manchete, um dos maiores fracassos da história dos licenciamentos aqui no Brasil(e o fato do traço do mangá ser no mínimo medonho ajuda e muito. Sim, o Kurumada de CDZ é pior, mas ele veio ancorado naquele que foi o maior sucesso dos animes por aqui). Logo Sailor Moon, com potenciais bonecas, apetrechos e brinquedos de todos os tipos que poderiam fazer a Estrela(que na época, se bem me lembro - me corrijam se eu estiver errado - ainda representava a franquia Barbie da Mattel no Brasil) suar sangue. Rayearth, com seus brinquedos horríveis e enfiada num horário incômodo, despertou mais interesse. Note que eu não estou falando de qualidade - Beyblade tem alguma?

O sucesso de Beyblade foi marcado quando os garotos que tinham televisão a cabo começaram a jogar pião adoidado e espalhando a brincadeira. Quando o desenho estreou na tv aberta, era o desenho-pôster para essa mania. Agora podemos ver os garotos com Mochilas, bonecos... e claro, piões metidos a besta.

Maurício de Souza é o que é por causa da força do uso dos seus personagens como franquia. Hambúrguer da Mônica. Shampoo da Mônica. Fraldas descartáveis da Mônica. O que esses produtos têm a ver com a Mônica? Nada. Exceto a aura de inocência infantil que eles trazem para os seus produtos ao associá-los à personagem. Isso se dá a nível instintivo, não consciente: o arquétipo do inocente remete a uma vida familiar feliz, tranquila e sem complicações, algo visível em anúncios de margarina por exemplo. Mônica é uma figura icônica que remete à infância e a infância puxa logo o "instinto do inocente" no inconsciente. Tirem o Jotalhão da lata do extrato Elefante e teremos um produto em decadência. Jotalhão é O elefante.

Maurício de Souza é rei de um olho em terra de cegos. No Japão, existem milhares como ele. Rei Ayanami aparece em lata de refrigerante. Um ideal de beleza, sexo e submissão pronto para ser bebido pelo subconsciente. Gelado, como convém à glacial Rei.
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Eu tenho notado que a discussão sobre o aspecto "franquia" dos animes vem crescido em todos os cantos, desde a coluna da vizinha até as listas de discussão. Natural: É isso que torna mangás e animes viáveis como indústria, e a partir do momento que os fãs, hardcore ou não, querem consumir subprodutos relacionados às séries que consomem.

Um dos pontos que mais tem batido no meu ouvido em algumas dessas listas são as manga novels, das quais já falei semana passada, mas gostaria de estender um pouco mais o assunto. Mesmo nas listas se nota o óbvio. Falta marketing. Falta acessibilidade. Um comentário chamou minha atenção: "Era só lançar umas séries bem folhetinescas mesmo para começo de conversa que estaria ótimo..."

Porque não? Folhetim é uma linguagem acessível, amparada em fórmulas simples de produção e condução, e de quebra tem apelo popular. E pode funcionar - Não acredito que a nova e insuportável novela das sete esteja dando certo, após séculos de audiências apenas medianas no horário, porque "o público queria ver uma protagonista negra. queria ver tal atriz fazendo papel de vilã" e desculpas do tipo. É porque antes de mais nada "Na Cor do Pecado" é um folhetim no seu sentido mais clássico e batido, com todas as improbabilidades que se esperam, a tipificação maniqueísta - convenhamos, por mais canalha que alguma pessoa seja, a vilã dessa novela pode ser confundida com um ser humano? Existe garoto tão insuportavelmente bonzinho, maduro, seguro e chato quanto o Raí?

Por questões culturais, isso funciona e muito por aqui. A decadência em popularidade das novelas começou quando justamente o seu "amadurecimento" avançou o ponto e se tornou contraproducente. As novelas das dez tinham uma função: avaliar até que ponto se poderia ir. Muitas das conquistas temáticas e de dramaturgia que garantiram a evolução da telenovela tiveram origem por lá e foram migrando para outros horários com o tempo, tornando nosso material bem superior ao produto de um mexicano, por exemplo. O fim da segmentação foi a marca do retrocesso, e as audiências vem baixando e baixando ao longo dos anos. A Globo muitas vezes é vista por inércia pura. Em todo caso, esse é um campo de franquia que vem sendo negligenciado - e que dessa vez pode acertar o alvo certo. "Um país se faz de homens e livros", dizia o Monteiro Lobato. Talvez um mercado possa se fazer a partir deles também.
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Na verdade existe uma diferenciação importante a ser feita antes que eu continue: existe folhetim e existe o romance-folhetim. Folhetim era a forma de publicação, e a rigor, todos os autores da época publicavam dessa forma, em capítulos nos jornais, sem que fossem necessariamente romances folhetinescos. Jules Verne não era folhetinesco e mesmo assim seus "romances científicos" saíam nos jornais em folhetins, por exemplo.

Romance-folhetim é outra coisa: tinha uma linguagem ágil, sem grandes floreios, a ponto de na época tal linguagem ser considerada como "desleixada"(tente ler os Três Mosqueteiros ou um dos capa-e-espada do Rafael Sabatini, e compare com um José de Alencar da vida), mas muito mais palatável para um leitor de hoje do que a prosa chatíssima de um livro chatíssimo como "Senhora". Era composto por histórias ágeis, com grandes lances teatrais, subtramas que se multiplicavam como coelhos, surpresas a granel e absurdos a rodo.

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