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O Poder da Identificação
Ao contrário do que muita gente tenta pregar, não amamos o diferente. E se
amamos algo que parece diferente, é porque nos sentimos diferentes, portanto
o que amamos é aquilo que nos é familiar, mesmo que não seja o familiar dos
demais. Ao lermos uma história, vermos um filme ou mesmo ouvirmos uma
música, nós tentamos preencher necessidades que temos, fantasias que
cultivamos ou mesmo posturas que acreditamos e que precisam de reforço. Não
é a toa que, na forma clássica do mangá, os personagens que são
objetificados como "o outro" geralmente tem traços melhor definidos, são
mais feios - enquanto os personagens principais seriam desenhados em linhas
simples, caricatas e mais bonitinhas. O protagonista é genérico, para
ampliar seu raio de identificação, fazendo com que várias pessoas se
identifiquem com ele. O antagonista, muitas vezes, pode ser reconhecido
pelos seus traços específicos(comparem a cara do Kaneda com o coronel em
Akira, por exemplo. Posso dizer que já vimos muitos personagens com um rosto
parecido com o do Kaneda, mas não podemos dizer o mesmo do Coronel - pelo
menos em se tratando de personagens de mangás). Antagonistas que podemos
compreender, nos entanto, tem um tratamento de traços mais limpo do que
aqueles realmente maus.
Então é uma falácia dizer, digamos, que não é preciso se identificar com o
personagem para se acompanhar quadrinhos. Bom, excetuando se o autor for um
mestre e a qualidade de seus roteiros conseguir tornar a empatia um fator
secundário(Um Sinal do Espaço, de Will Eisner, é um excelente exemplo desse
tipo de exceção: o roteiro é de primeira e não deixamos de ler um segundo, e
por isso mesmo não percebemos nem nos importamos com o fato de que os
personagens são meras alavancas para a trama engenhosa continuar e continuar
até o final perfeito. Mesmo o protagonista, Jim Bludd, só aparece em cerca
de 47 ou 48 páginas da história, incluindo páginas onde ele é um mero
observador dos movimentos dos outros, sendo que o total de páginas é 127 -
ele é mero catalisador da trama, que é desenvolvida por um elenco enorme de
personagens secundários). Afinal foi isso que transformou um gênero
notabilizado por pessoas superiores ao cidadão comum em um gênero popular,
novamente, nos anos sessenta. Peter Parker salvou o gênero dos supers; é
provável que ele não existisse, ou vivesse de iniciativas nostálgicas, se
não fosse o Homem-Aranha mostrando que mesmo um super-herói pode viver os
mesmos problemas que nós... e o fato dele se tornar super-herói pode tornar
as coisas piores, muito piores, ao invés de melhorá-las. Bom dizer que a DC
perdeu terreno feio e só voltou a ganhar terreno quando decidiu admitir o
fato de que o mundo não era mais o mesmo do começo da Era de Prata, com as
séries "Lanterna Verde & Arqueiro Verde" e a primeira grande reformulação do
Batman nas mãos de Neal Adams.
Não é a toa que, como eu citei antes, um desses livros do tipo "desenhe
mangá" recomendou que se desenhasse o protagonista como um membro da classe
operária. Era a massa que comprava os tijolões de papel reciclado e os
jogava fora. Os garotos cujo destino era uma labuta sem fim assim que
chegassem à vida adulta queriam se imaginar em grandes situações de ação,
descarregar toda a sua raiva acumulada em horas diárias sob um regime
escolar tirânico, e claro, pegar a mocinha que o personagem não pegava.
Sonhar e se identificar, mal ou bem, é preciso. A questão é: até que ponto a
identificação é universal?
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Uma das mais importantes ferramentas emocionais do ser humano é a empatia -
a habilidade de detectar e entender os sentimentos alheios. Se você sabe o
quanto certo tipo de atitude machuca por dentro, então dificilmente você irá
querer fazer isso com os outros de graça. Mais ainda: podemos tomar as dores
dos outros como nossas, e com isso nos esforçarmos para pará-la. É o que nos
leva a consolar alguém, por exemplo.
Isso tem suas utilidades práticas em outros terrenos. Já foi dito, quanto à
literatura, que vivenciamos muito o que lemos. A busca de identificação do
leitor com o personagem é apenas um modo de permitir que o leitor entre no
mundo ficcional descrito e o entronize, para continuar lendo até o final.
Isso vale para quadrinhos também. Pode se dar de forma mais objetiva, como
quando se apela para experiências comuns, como de forma mais simbólica,
quando num nível mais profundo, aquilo se encaixa com coisas que nos dizem
respeito. Não importa. Todo ser humano tem uma série de sentimentos e
experiências que são comuns tanto ao Brasileiro de classe média quanto ao
nativo de Burundi, na África. Não é preciso ser adolescente e mulher para
ter cruzado com pessoas como Sae(Peach Girl) na vida, mentindo,
dissimulando, tramando. Não é preciso entrar num barco e partir atrás dos
seus sonhos para se identificar com a tripulação de Luffy(One Piece), afinal
de contas todos nós tivemos ou teremos que sair de casa para alcançar nossos
próprios sonhos - e a genericidade de conto de fadas do mundo de OP só
reforça isso. O mar já foi muito usado como metáfora do desconhecido por
muitos autores. E para pegar pesado, não é difícil compartilhar da fúria de
Rin Asano(Blade of the Immortal) e querer, sem dó nem piedade, pendurar
pelos pés e debulhar a facão os homens que mataram seu pai, estupraram e
esquartejaram sua mãe e destruíram seu dojo, e vem se justificar dizendo
falando do preconceito do povo contra espadachins que perdem toda a chance
de uma vida decente. Quem já perdeu um parente ou até foi atingido com
sequelas pela violência urbana, e os perpetradores do crime foram protegidos
por serem "dimenor" graças a algum juiz que gosta de aparecer, ou foram
defendidos por aqueles que dizem que criminosos são vítimas da sociedade
capitalista, conhece muito bem essa sensação.
Mas há limites para esse grau de identificação. Excetuando casos onde a
presença do observador afeta os observados(e quanto mais for ativo, mais ele
irá ver o que quer ver - estatisticamente, alguém tem que ter comprado
títulos que encalham nas bancas, mas não é por causa deles que se pode
insinuar que talvez o título esteja vendendo melhor do que se diga, por
exemplo), é fácil perceber que quando a barra é forçada, o resultado é
rejeição. Apesar de certas vozes mais ativas do fandom insistirem que certos
personagens são "exemplos humanos" - eles não são e acreditar nisso é
teimosia de quem não quer arredar pé.
E quando um material chega de outra procedência, vai sempre ser encarado com
olhos completamente diferentes.
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