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Em busca de soluções - Parte 2

Esta é a minha coluna cinquenta e dois, especial e mais verborrágica do que nunca(preparem os travesseiros), fechando tecnicamente o primeiro ano da Tower of Strenght. E como eu disse na coluna anterior, ao invés de apontar problemas, decidi tentar apontar soluções. Eu não sou Deus e não tenho as mesmas na cartola. Mas é melhor isso do que ficar parado apontando o óbvio.

Semana passada eu falei em coisas como distribuição. Mas eu queria voltar um pouco à idéia de um plano de diretrizes para evitar que em uma década o mercado morra, sendo que os quatro primeiros anos seriam os ajustes de curso necessários para que as coisas voltassem ao normal.
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Uma vez preparando o território para uma invasão em termos de estratégia de vendagem e logística de distribuição, como baratear o custo dos quadrinhos?

Uma das molas motrizes da popularização do mangá é o CUSTO de uma daquelas verdadeiras listas telefônicas cheias de capítulos esparsos de hq. Vamos a números(de acordo com o ensaísta e crítico de mangá Natsume Fusanosuke): segundo a Unesco, o número de publicações no Japão entre revistas de todos os tipos - jornais, revistas, livros, etc. - durante o ano de 1996 foi de 56.221 enquanto os Estados Unidos estão aparentemente na frente com 68.175 publicações. Mas se compararmos isso em termos de população, temos 2,4 leitores por publicação na terra do Tio Sam enquanto o Japão conta com menos do que o dobro(4,4) - ou seja, o japonês LÊ mais, COMPRA MAIS REVISTAS do que o americano, e portanto, dá mais lucro a uma editora do que os súditos de Führer Bush. Destas publicações, 38,1% do volume total anual foram, só no ano de 2002, direta ou indiretamente ligados à indústria do mangá/anime, contabilizando 22,6% das vendas anuais no Japão nesse ano. Parece pouco - apenas pouco mais do que um quinto de todo um mercado - mas esse valor reduzido se dá por um motivo simples: mangá é barato. MUITO barato. E essa redução de custo só é possível por conta das altas tiragens, onde uma Shonen Jump da vida, voltada apenas para garotos, chega a ter uma tiragem de quatro milhões de exemplares.

Vamos pensar agora em termos de Brasil. Temos, segundo o censo, 169.799.170 habitantes, sendo que 83.576.015 são homens e 86.223.155 são mulheres. 137.953.959 vivem nas áreas urbanas, enquanto apenas 31.845.211(que nem de longe é um número pequeno) vivem nas áreas rurais. Se ignorarmos as estatísticas região a região ou estado a estado, e aceitarmos como verdadeiro o índice de alfabetização de 87,2%, já temos cerca de 148.064.876 pessoas capazes de ler. Se adotarmos a divisão familiar adotada como padrão médio no país, o de família composta por papai, mamãe, irmão e irmã(em idade de estudo), já temos 74.032.438 de leitores potenciais para uma revista em quadrinhos.

Vejam bem: MAIS DE SETENTA E QUATRO MILHÕES DE LEITORES POTENCIAIS - que não lêem em sua maioria, pura e simplesmente. De repente, dizer que um sucesso legítimo, como Witch. tem apenas cem mil leitores, me lembra o momento em que a vitória contra a Bolívia nas eliminatórias de uma copa particularmente ruim foi alçada ao panteão das grandes glórias nacionais. Mostra o ponto ao qual havia chegado não apenas nossa seleção, mas nossos padrões sobre o que é futebol. Mas para os padrões nanicos de nosso mercado, Witch É um grande sucesso - imagine então o que dizer de boa parte dos mangás em banca.

É bom lembrar que mesmo se essas revistas alcançassem todos os cantos do país, seriam extremamente caros para uma família que tem 350 reais de renda. Mesmo que saibam ler. Mas como esse fator não está ao nosso alcance(representa a parte do governo no que diz respeito ao seu "espetáculo do crescimento"), temos que levar em conta o nosso próprio problema: o sistema de distribuição no Brasil é - EXTREMAMENTE - ineficiente. O sistema de distrubuição centralizada para bancas não funciona. Mas quanto aos jornais, é outra história. Há lugares do país onde não chega uma revista que seja, mas os grandes jornais de cada estado estão sempre lá.

Os jornais não operam de forma centralizada. Mesmo jornais que extrapolam as fronteiras de seus estados de origem são minoritários. A preferência é o regional. Porque não descentralizar não só a distribuição, mas também a impressão? Recentemente eu andei avaliando a possibilidade de se publicar suplementos em jornais nos moldes do velho Suplemento Juvenil, negociados estado a estado. O problema é: haveria interesse das empresas jornalísticas por material como esse? Basta lembrar da postura de gente como Milton Abirached, ex-editor do Segundo Caderno do Globo, que há vários anos escreveu uma coluna declarando que a morte da grande literatura se deu por conta da influência cultural dos quadrinhos(porque "de mosca de padaria não se faz grande literatura", e - por conta de super-heróis como Super-Homem e Batman - para que Clark Kent e Bruce Wayne, seres patéticos, pudessem ser grandes homens, tinham que "se fantasiar de palhaços, de não-homens"). Bom lembrar que O Globo tinha uma página inteira dedicada às tiras contínuas. Usando como desculpa a reforma gráfica, elas foram reduzidas à poucas tiras de humor, perdidas no meio de seções de horóscopo e passatempos. Abirached não está mais lá que eu saiba, ao menos não no Segundo Caderno(e o caderno para adolescentes - "teen" não, por favor - Megazine tem feito matérias simpáticas sobre quadrinhos) - mas será que essa mentalidade não permanece? E que razão temos para pensar que em outros jornais não seria diferente?

Ironicamente tanto a Ebal quanto Will Eisner começaram suas trajetórias de sucesso dessa forma - produzindo suplementos para jornais onde eles tinham um enorme alcance de público.
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A outra coisa, mais difícil, é lutar contra uma cultura do utilitarismo. E a melhor coisa a fazer é associar quadrinho, mesmo o quadrinho-diversão, a algum tipo de utilidade prática. Nem que seja, nos quadrinhos para leitores mais jovens, o de ajudá-lo a aprender a ler. E para as faixas etárias superiores, a importância é a de manter não o hábito de leitura, mas o vício. Novela também é um vício. No momento em que ela está perdendo força, seria bom introduzir um mero novo vício.

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