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Em busca de soluções - Parte 1
Esta é a minha coluna cinquenta e um. O que significa que a próxima coluna,
se descontarmos interrupções, feriados ou mesmo aquela pane que me deixou
fora do ar por três semanas, fecha um ano de atividade. E o que fiz ao longo
desse ano? Basicamente fiquei falando sobre problemas aqui, problemas ali e
problemas acolá. Dá a impressão de que sou algum tipo de chato que se acha o
dono da verdade, mas o fato é que não dá para se ignorar quando o rei está
nu. E a pele dele anda particularmente transparente - a pouca-vergonha em
que a Pandora Books se meteu e chegou aos jornais é um exemplo gritante
disso.
Dizem as más línguas que o cabeça de uma das editoras que publicam
quadrinhos por aqui acredita que o mercado de quadrinhos vai acabar em dez
anos. Não acho isso tão difícil. Vejamos: distribuições setorizadas,
produtos para público limitado e mimado, a vontade de sobreviver ao invés de
vender, revistas caras demais para o grande público...
Acho melhor ao invés de ficar reclamando, colaborar concretamente por alguma
coisa. E por isso mesmo eu decidi dedicar essa coluna à única forma de
colaboração que posso através dela: propôr idéias. E eu gostaria de ouvir
idéias também.
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A primeira coisa que tem que ser pensada é simples: em que país nós vivemos?
Dá para ter fé quando Lula fala em espetáculo do crescimento? A resposta é:
NÃO e SIM. Não porque nenhum político cumpre nada do que promete quando sobe
ao poder. Sim porque se contarmos com o não sempre, jamais faremos nada
nesta vida.
Se vier uma marola de crescimento, se houver algum momento para se apostar
no risco, o momento tem que ser esse, este ano. Tem que haver um plano de
diretrizes não individual, mas conjunto, para evitar essa morte anunciada.
Ele já viria com atrazo, mas deveria haver um plano de dez anos de
crescimento e consolidação dos quadrinhos no Brasil, e em todas as suas
possibilidades mercadológicas possíveis. Sim, porque imagem é tudo e o
quadrinho é um veículo potencial não só de franquias, mas de idéias. IDÉIAS.
Na verdade nossa esquerda cultural sempre foi burra de doer. Os filmes em
que eles tentaram meter discurso político no meio sempre foram chatos,
enquanto a Globo sempre embutiu sua manipulação política dentro de um
esquema bem armado de entretenimento. E eis que temos a palavra chave do que
deve ser o quadrinho: uma forma barata e de fácil acesso de ENTRETENIMENTO,
onde se possa plantar o que quiser. E o que precisamos é de uma nova
mentalidade, que renegue anos de idéias de jerico plantadas na cabeça do
brasileiro, que infunda nas novas gerações algo mais do que ser jogador de
futebol quando crescer ou ser dançarina do Tchan.
Sei que isso pode parecer fascista. Mas a única forma de mudar o país é
recriá-lo do zero, para que ele sempre tenha sido outra coisa. Uma conhecida
japonesa, que trabalha num escritório americano de direitos, deu a simpática
sugestão: transforme seu país em algo de que você possa gostar, não importa
o gênero com o qual você trabalhe. E até a Globo sabe disso: Pegue o Brasil
de qualquer ambiente. Nas novelas de época, temos ambientes refinados,
nostálgicos, até épicos(pegue um Casa das Sete Mulheres por exemplo). O
interior é sempre um lugar bonitinho e afável, com tipos reconhecíveis(o
padre, as beatas, o delegado, etc). As cidades são lugares emocionantes,
onde tudo pode acontecer. Outros estados são vistos como um anúncio da
Embratur.
Mas eu estou me antecipando. Estou falando de conteúdo quando deveria me
ater às partes práticas: O que seria esse plano de diretrizes e qual seria a
forma disso chegar no público. Temos dez anos - os anos para reverter a
suposta morte anunciada do mercado de quadrinhos.
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Numa estrutura simples e meio infantil, eu dividiria em quatro anos de
conserto de erros, três anos de expansão veloz e três anos de consolidação.
É pouco. Mas é o prazo que temos e estamos nos estabelecendo aqui.
Como os quadrinhos cresceram nos mercados onde eles são poderosos? Eles
cresceram justamente à sombra de eras difíceis. Por participarem da vida no
momento em que as pessoas mais precisavam de diversão e estímulo. O
quadrinho parece ser um desafio fácil para quem não lê, em contraponto aos
livros, aquele bolo cheio de palavras...
Num contexto de alfabetização(porque o país precisa de mão de obra
especializada), perceberam o apelo que o quadrinho representa? Uma mídia que
colabore com um período de mudança acompanhará os hábitos do povo quando ela
estiver consolidada.
Nesse sentido, uma comitiva dirigida ao governo poderia dar resultados
interessantes. Apoio à indústria impressa; pressão aos representantes locais
para a aprovação de leis que garantam a descentralização das distribuidoras,
obrigando-as a terem sedes regionais nos estados onde elas distribuem
material. Porque sejamos francos: NUNCA vão deixar que se quebre a
centralização de distribuição de São Paulo por bem. Claro que o leitor é
quem perde com isso, tendo que suportar distribuições setorizadas, atrasos
homéricos e a possibilidade de seu título não chegar em uma banca ou outra,
que pode ser a que você frequenta. No entanto, essa é a garantia de que não
surja a competição de outros estados, como eu mesmo já disse em colunas
anteriores.
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A outra solução caso a centralização da distribuição não possa ser quebrada
seria mudar os próprios métodos de distribuição. Quem faz a distribuição dos
jornais de grande circulação? Será que só se pode distribuir por uma
distribuidora? Como podemos evitar que as distribuidoras e editoras façam
pressão para derrubar a concorrência? - consta que uma revista independente
vendeu mais numa bienal de quadrinhos do Rio do que o medalhão de uma grande
editora, cujo nome eu não vou citar. A revista independente não podia ser
encontrada nas bancas; quando o autor perguntou ao jornaleiro sobre ela,
este disse que não podia vender a revista ou não chegaria mais nenhum
exemplar da revista informativa "séria" mais importante da editora desse
grande medalhão...
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