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A identidade da marca

Uma das mais interessantes leituras que tenho tido recentemente é "O Herói e o Fora da Lei", de Margaret Mark e Carol S. Pearson. Saiu no Brasil pela Cultrix/Meio&Mensagem e a rigor é um daqueles muitos livros "utilitários", que tentam encontrar função prática para alguma coisa de origem cultural, para que sejam dirigidas aos negócios ou a vida pessoal. Normalmente eu fujo desse tipo de coisa como o diabo da cruz. Mas aqui estamos num caso à parte: a matéria prima desta vez são os arquétipos, imagens universais que remetem ao inconsciente coletivo e reverberam em diversas culturas, dentro de todo o espectro do campo ficcional. A figura do herói, do rebelde, do vilão, todas são arquétipos - e o ponto que o livro apresenta em si é brilhante: marcas também assumem arquétipos nos quais baseiam sua identidade, e isso é a raiz da forma que elas são percebidas. Mesmo erros podem ser revertidos a favor dessas empresas quando eles mostram coerência com esse modo de ser. Mas nenhum erro pode ser maior do que fugir a esse arquétipo, contrariando sua própria identidade. E nesse sentido, não há melhor exemplo no mundo dos animes do que a Gainax.
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A Gainax era uma empresa que construiu uma identidade que poderia ser traduzida como "inovação". Já nasceu com dois clássicos: o longa The Wings of Honneamise, que conseguiu arrancar elogios rasgados de um turrão como Hayao Miyazaki, e o OVA Gunbuster, que se de um lado foi um dos introdutores do fanservice à oficialidade assumida da cultura do anime, por outro lado apareceu com uma das histórias mais inusitadas e brilhantes da história dos animes, reverberando até hoje em animes como Hoshi no Koe(além de fazer o imenso favor de salvar a carreira do mestre Haruhiko Mikimoto, cujo nome poderia ser mandado à lama pelo fracasso monstruoso de Macross II). Nada mau para uma série cuja inspiração básica foi um shoujo de esportes dos anos setenta.

Embora sua tendência básica faça com que muitos tenham visto a Gainax como uma nova Sunrise, voltada à ficção científica, na verdade o que caracterizava os produtos do estúdio eram justamente abordagens únicas para gêneros consagrados. Em Nadia, the Secret of Blue Water, eles tomaram as rédeas de um gênero em decadência - as séries inspiradas para lá de livremente em obras clássicas da literatura(lembram da saga do Espelho Negro em Peter Pan?) e fizeram uma série de aventura que já no quinto capítulo puxa o tapete do espectador, que pensa estar assistindo um sucedâneo dos trabalhos da Nihon Animation nos anos setenta, com um macguffin que o arremessa numa trama que em alguns aspectos antecipava o seu mais bem-sucedido trabalho - Neon Genesis Evangelion. E Nadia tem pé e cabeça, diga-se de passagem.

Poucas pessoas parecem ter notado - eu pelo menos não ouço isso ser dito - mas Evangelion não reinventava o Real Robot, o gênero que surgiu com o primeiro Gundam, onde os mechas deixaram de ser "especiais" e se tornaram uma máquina de guerra como outra qualquer, sendo que ter um robô não faz de ninguém um herói. Sua verdadeira raiz é outra: o Super Robot popularizado por Go Nagai, com algo dos velhos live-action ao estilo Ultraman. Um invasor interplanetário distante, poucos robôs(e cada um diferenciado), tempo contado...

Mesmo os seus erros em Eva ajudaram a consolidar essa imagem de arrojo conceitual. Os dois últimos capítulos de Evangelion foram uma maçaroca feita às pressas. Mas ainda há quem considere eles... "experimentais". É um desses casos em que a pisada de bola continua sendo uma pisada de bola, mas a imagem da empresa não foi arranhada, embora passe a ser polêmica. Eu mesmo pessoalmente acho que a viagem na maionese dos últimos episódios de Eva meio que queimou uma história que não era exatamente brilhante, mas partia de boas premissas e podia ter sido melhor resolvida. Rahxephon é uma cópia descarada de Eva? É, mas parece se resolver melhor justamente nos pontos frágeis da série que a inspirou. Os personagens são melhor concebidos lá, embora não sejam nem um pouco originais. Mas estou me desviando do assunto.

Karekano pode ter parecido uma escolha surpreendente para o projeto seguinte da empresa, mas desde quando Karekano é um shoujo comum? Dá para compará-lo com Fruits Baskets, Fushigi Yuugi e similares? Muita gente chegou a dizer que a série continua a desenvolver temáticas iniciadas ainda em Eva. Mas Karekano antes de mais nada é um exercício estético, e nesse sentido Furi Kuri, a meu ver, é uma radicalização do que já se embutia em Karekano.

Não devo estar dizendo nada de novo a quem realmente acompanha o caminho da Gainax. Mas isso torna óbvio o porquê da decepção quando foi anunciada a produção de... Mahoromatic. E de sua sequência, Mahoromatic 2. São as chamadas "séries de otaku", feitas com audiências mínimas em mente - elas vão ter retorno financeiro em produtos como almofadas em tamanho natural, pôsteres, calendários, kits de resina... E em seguida a imensa bobagem Puchi Puri Yuushi, uma série de Magical Girl feita com um olho no "lobby do fofinho" - a ala do público que adora coisas bonitinhas e adoráveis, e para quem coisas como roteiro e personagens são para lá de opcionais, preterindo boas histórias por materiais que sejam "foooooooooofos". Os otakus que gostam de coisas como Hand Maid May e Onegai Teacher normalmente saem em defesa de Mahoromatic dizendo que tem momentos comoventes e similares, etc., mas... quem liga? A reputação da Gainax foi arranhada e pensando bem até hoje ela continua dessa forma. O espectador se sente traído quando uma marca nega sua confiança.

Quando se fala em Gainax, o nome não enche mais os olhos.

Ela virou apenas mais uma.
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O motivo disso ter acontecido é simples: ela sempre manteve um olho para o otakão radical, mas nunca deixou isso interferir na sua identidade. Mahoromatic, no entanto, é o "anime de otaku" no seu pior significado, o da série feita para ter audiência traço(porque o seu público-alvo grava durante a madrugada), mas em compensação retornar em produtos. Um caminho seguro e patético para quem chutou o balde por anos a fio.


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