|
Um museu de grandes novidades
Depois de um descanso rápido dessa coluna, estou de volta... E feliz com as
novidades: ano que vem, teremos Cyborg 009 e, talvez, Astroboy. São animes
de PRIMEIRA, mesmo em suas novas versões. Cyborg 009 é criação de Shotaro
Ishinomori e data de 1963, tendo sido publicado inicialmente na Shonen King,
passando para a Shonen Magazine da Kodansha em 1967 e terminando sua
carreira, já nos anos oitenta, na mesma Shonen Sunday que publica hoje em
dia Detective Conan e Inu-Yasha. Se alguém se interessar em publicar, uma
sugestão: "Cyborg" só terminou de ser publicado em 2000, ou seja, é MUITA
coisa - recomendo que se fiem apenas no material publicado até 1967(que era
onde o autor queria parar. A pressão dos fãs foi tão grande que, alguns anos
depois Ishinomori acabou cedendo, mostrando que os protagonistas
sobreviveram ao final trágico e continuando a partir desse ponto. Mas para
muita gente, a história acaba aqui).
Astroboy, de 1951, é mais antigo ainda, sendo lembrado como o marco zero da
estética mangá(notem que o mangá - porque qualquer história em quadrinhos no
Japão é, por definição, "mangá" - já existia no Japão, mas sem
características próprias. Norakuro, inclusive, é a série que mostra que a
estrutura do Shonen já existia ANTES MESMO do surgimento da estética. Seu
traço remete muito às tiras antigas de jornal americanas). Também marca o
início da "era anime" como a conhecemos, ainda em preto e branco, sendo
exibido em 1963. E teremos a oportunidade de rever esse material numa versão
novinha em folha, com a melhor qualidade técnica(para os padrões de animação
para televisão, bom dizer) dos dias de hoje.
Provavelmente serão os melhores animes a ir ao ar no Brasil neste ano que
começou. Agora vamos à fatídica pergunta: não é um péssimo sinal que as
melhores novidades potenciais a serem exibidas agora tenham sido criadas em
1951 e 1964?
**************************
Ao mesmo tempo, há uma grande expectativa pela volta de Yuyu Hakusho. Não
sou contra a remoção temporária de Inu-Yasha do ar - gosto do
material(apesar da voz do personagem título me dar nos nervos na dublagem
nacional), mas acho preferível dar esse tempo para que sejam dublados novos
episódios ao invés de saturar a paciência alheia com a reexibição dos mesmos
capítulos.
Mas novamente... Há quantos anos Yuyu passou na finada e saudosa Rede
Manchete mesmo?
**************************
Isso não acontece só no terreno dos animes e dos mangás. Fui comprar um cd
como presente de Natal para minha cunhada e, naturalmente, eu queria me
presentear com um cd também. Fator desânimo: tudo o que me interessava eram
coisas de outros tempos, ou no máximo coisas novas de velhos conhecidos. Eu
já mencionei que as rádios rock apelam cada vez mais para flashbacks na sua
programação, e assim temos a grotesca situação de uma mesma música do
primeiro disco do Green Day continuar aparecendo regularmente como se
tivesse deixado de ser sucesso outro dia. É triste pensarmos que o melhor
disco de rock nacional deste ano para mim foi o "Zero - Obra Completa",
compilando dois discos de 1986 e 1987. E se pensarmos que o "novo" nome da
MPB se chama Eli... digo, Maria Rita Mariano, e pela reciclagem necrofílica
de uma cantora morta se dispensa literalmente metade do cast de uma
gravadora, a opção pelo conhecido e previsível em oposição às soluções novas
adquire proporções trágicas. Estou falando sério. Doze nomes, entre cantores
e grupos, foram dispensados pela Warner em prol da fabricação de dona Maria
Rita. Os que tinham discos a serem trabalhados não tinham orçamento para sua
divulgação, e segundo os seus depoimentos os cabeças da gravadora estavam
sempre ocupados demais com "Assuntos de Maria Rita". Mas ninguém menciona o
nome da sua mãe quando estão nos programas de televisão, obrigando
entrevistadores a se valerem de eufemismos para tocar na referência proibida
e extremamente óbvia. Porque, sinceramente, a falta de personalidade do
produto é blatante.
Agora me digam, novidadeiros, pirateiros e arrozes-de-festa do meio, que
sabem de tudo antes de todo mundo: há algum anime ou mangá novo que tenha
pego vocês de JEITO? Há algo que desperte o interesse monstruoso que um
Evangelion despertou? Há algo que esteja sendo falado adoidado, que os
fanboys não conseguem deixar de baixar pela Internet? O que mais chega perto
disso - falo de popularidade, não de qualidade - não é um anime, e sim um
Live-Action absolutamente trash de Sailor Moon. Baseado numa personagem
criada em 1992 para a Nakayoshi. Sucesso comercial inquestionável...
encerrado em 1997.
Naoko Takeuchi, criadora da série, jamais conseguiu emplacar nenhum sucesso
novo após o término da saga de sua marinheira da lua. Mas a fama de seu
produto(porque Sailor Moon TEM que ser entendida como um produto, com sua
história esquemática e episódica, com estrutura de tokusatsu mesmo na sua
versão anime, todos os brinquedos associados à transformações e golpes, e
mesmo os fanservices que vieram após a segunda temporada, para o fã babão
manter o ibope japonês no pico) persistia, e na cola da nova série, a autora
está redesenhando o mangá desde o começo, com o texto original preservado.
Qualquer dúvida, basta dar uma olhada aqui http://www.sailormoonvideo.kit.net/11213.jpg
e conferir que a evolução da autora não foi muito grande... Mas isso garante
um mangá novinho em folha enquanto a série de televisão inicia o que parece
ser uma longa carreira de sucesso local.
Ouvindo o Strokes(que apesar de tudo, é legal) e pensando em todas as bandas
que o inspiraram, pergunto: Será que só se cria mofo hoje em dia?
**************************
A falta de novidades arrebatadoras dentro desse meio(Naruto é muito bom, eu
adoro Naruto, mas convenhamos: ele é o hit do momento, não o referencial de
um gênero para o futuro) é meio que o preço pago por anos de políticas
editoriais restritivas das editoras japonesas - em especial o modo Jump de
ser. A história de Nobuhiro Watsuki após o fim de Samurai X é emblemática:
tudo leva a crer que seu Gun Blaze West seria algo na mesma linha de
Kenshin, uma série dentro da fórmula que consagrou o autor(arrisco a dizer
que o vagabundo Marcus Homer deveria, pelo que deduzi, ser o herói
verdadeiro da série na versão original - possivelmente com um ar mais
heróico e menos largado. Mas isso é só um palpite).
Avançar >> |