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O poder do mais fraco
PARTE 1

Existe um truque de maquiagem visual muito usado por emissoras de televisão quando querem manipular o espectador quanto à presença de manifestantes em um evento público. Quando a idéia é fazer que um evento esvaziado pareça entupido de gente, é só as câmeras se posicionarem de dentro da multidão - criando a ilusão de que há gente de todos os lados. Por outro lado, quando a idéia é diminuir a multidão, é só tomar uma panorâmica mais próxima do seu fim, quando a tendência é se dispersar. E qualquer corte de cena voltado ao palco passa a ser bem próximo, para não dar uma idéia de que há muita gente ao redor do lugar. A Globo, no começo do movimento Diretas Já, tentou maquiar a popularidade do evento - até um ponto em que isso não foi mais possível.

Da mesma forma, enquetes feitas pela Internet tendem quase sempre a ser ilusórias. Porque isso? Porque em geral núcleos que tendem a concordar entre si, mesmo reduzidos - e talvez até por causa disso - tendem a ser mais vocais, concentrados e ativos do que os cidadãos comuns, que não têm um foco verdadeiro. O resultado é que é fácil criar a ilusão de que uma maioria prefere o resultado x, em detrimento do resultado y - mesmo quando a verdadeira maioria, desavisada e alheia, prefere y e odeia - no máximo, tolera - x. Basta criar uma enquete e espalhá-la em lugares onde esses núcleos de concentração são presença fácil. E evitar lugares onde esse resultado possa ser negativo - afinal "quem não é leitor de mangá não interessa".

Essa é uma forma de se perpetuar o ponto de vista de uma minoria dando a ele foro de maioria. E de certa forma é o que acontece em enquetes que defendem o não-espelhamento do material que vem do Japão.
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Porque de novo esse assunto quando o formato parece estar estabelecido nas bancas? O motivo esbarra em dois pontos. O primeiro foi o fato da Panini, que está entrando timidamente, com dois títulos, no mercado - mas já tendo avisado anteriormente que pretende colocar outros mangás nas bancas - ter entrado com seus materiais de forma espelhada. O outro foi o lançamento de Gon nas livrarias com o sentido original de leitura.

Gon é um quadrinho maravilhoso. Em todos os sentidos. A arte é irretocável, O roteiro é de primeira. E antes de mais nada, é um quadrinho infanto-juvenil que pode circular por toda a família. O material, comercialmente em termos de livrarias, é perfeito e poderia extrapolar o círculo dos leitores de mangá - inclusive é o único mangá publicado pela DC Comics nos Estados Unidos, através do selo Paradox Press - voltado a produtos justamente dirigidos à livrarias, e não comic stores. Mas... antes que eu pusesse as mãos no material, me veio a seguinte história: um amigo, que colecionava a versão da DC de Gon, recomendou o material a um professor de biologia. Ele adorou, e disse que servia inclusive para ilustrar como as coisas acontecem em um ecossistema para sua sala de aula. Quando ele comprou a edição nacional em uma loja da Saraiva, voltou para devolver dizendo que "estava com defeito, está de trás para a frente". A loja devolveu o dinheiro. Depois ele se deu conta de que a revista estava no sentido, hm, "certo": ela era produzida assim. Ele mandou Gon às favas.

Gon é um quadrinho mudo, contado através de imagens, sem fala. Para um material como esse, o sentido original num país onde o senso de leitura é outro é potencialmente letal. E otaku não lê Gon. Não tem o seu perfil. Não tem "meninas bonitinhas com olhos do tamanho de um pires". Não tem "roupas maneiras para fazer farra em concurso de cosplay". Não tem "hahahahha, o vento mostrou a calcinha dela". Pegar, desavisadamente, Gon em sentido oriental, pode ser uma experiência totalmente caótica para quem está meramente folheando. O que era um material de narrativa perfeita se torna uma colagem psicodélica. Bom lembrar que não há texto para ajudar a dar uma sequência mental dos fatos e guiar o leitor comum em um sentido diferente. Até a Raijin comics percebeu isso e numera o canto dos seus quadros para que o leitor não se perca.

Uma vez, em uma conversa, alguém, de postura purista, me disse que achava que, na primeira leva de mangás, adotaram o sentido oriental em consideração aos seus leitores. Muito conveniente se acreditar nisso. Mas isso não é verdade. Basta ler o último número de DBZ e teremos, na prática, o desmentido da história onde se diz que "Podíamos inverter, mas achamos legal publicar o mangá da mesma forma original" ao invés de "O Toriyama não deixou". Eu não chamaria isso exatamente de consideração.
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Quais são os motivos, então? Econômicos. Um bom indicativo disso pode ser encontrado mesmo em países onde o material é publicado de forma invertida. A edição francesa de Kenshin é publicada da direita para a esquerda? É. Mas eles traduziram as onomatopéias, da mesma forma que se traduz um balão(dêem uma olhada em http://www.shonenjump.com/mangatitles/n/manga_n-om.php se tiverem banda larga; a versão online de Naruto, publicada pela Shonen Jump americana, tem onomatopéias traduzidas também. E para isso, você precisa de uma equipe, para retocar o material. E equipes custam dinheiro, e sua contratação seria repassada no custo final da revista. O que exigiria uma tiragem maior.

Aqui, nem isso se faz: se coloca uma legenda. O que era uma onomatopéia, com significado e intensidade própria, vira um mero elemento de composição gráfica(quantas vezes você deixou aquele pequeno recordatório escrito "BOOOOOM" para lá enquanto lia?). Tudo em nome da "originalidade", de deixar "mais próximo do material original japonês"?

Ajuda o fato de que aqui há quem vá dar coro a isso. Conta-se com o público menor mas fiel ao invés da expansão para um número maior de leitores, que não quer ter o trabalho de se adaptar a nada. Como bons clientes, eles estão certos. É o produto que tem que se adaptar ao consumidor.

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