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Pêssego com Coca-Cola (ou "vida chateenha")
PARTE 1

Não é fácil ser adolescente - ainda mais hoje em dia. Eu vou transcrever um trecho de uma resenha do Ricardo Schott sobre o acústico do Charlie Brown, Jr., que serve como um bom introdutório para o que vem a seguir: "O Charlie Brown pode ser considerado a banda que mais representa os caminhos tortuosos seguidos pelo rock brasileiro dos anos 90. Dos anos 80 para os 90, houve uma natural substituição da platéia do rock nacional - quem tinha 20 anos em 1984/85 foi se tornando cada vez mais preocupado em pagar as contas, ou mesmo preferiu ficar acompanhando os ídolos de outrora. O resultado é que, por volta de 1994/95, pouca gente com mais de 25 anos parou para perceber que as letras dos Raimundos eram bem interessantes, ou que o papo do Planet Hemp ia além da maconha e da polícia - até porque o mercado incentivou aquilo que era mais rentável e as bandas, correndo atrás do pão de cada dia, foram atrás. (...) Foi nesse contexto que surgiu o CBJr, uma banda que desde o primeiro disco vem se afirmando como um fenômeno essencialmente adolescente, pra o bem ou para o mal. 'Para o bem' porque, se música pop são três minutos de vida (como dizia Leoni), músicas como 'Só por uma noite' e a nova 'Vícios e virtudes' são, atualmente, algumas das poucas chances que um adolescente tem de ouvir no rádio músicas que representem isso(...). E 'para o mal' porque, ora bolas, a turma de Chorão é uma banda numa propaganda de refrigerante e grava letras escrotérrimas como a de 'Papo reto'. "

Ou seja, a cultura adolescente de hoje está meio que presa ao ditames de uma geração que nessa altura do campeonato já passou da crise dos trinta anos. Eu acho deprimente o que artistas que um dia foram incendiários se tornaram - e tome "rock pra trintão", e tome músicas semi-acústicas sobre relacionamentos desgastados, contas para pagar, o diacho. Acho deprimente que uma geração inteira, por conta disso, não tenha uma verdadeira voz. As rádios rock do Rio de Janeiro(leia-se a Cidade, que é quem mais chega perto disso ao menos), tocam músicas de cinco, oito anos atrás, de forma regular em sua programação.

Sempre houve esse descompasso entre quem produz material para adolescentes e seus consumidores, e freqüentemente essa é a razão para que muitas vezes eles não dêem certo. As novelas do Antônio Calmon, por exemplo, entram nesse terreno pegajoso do "nem barro, nem tijolo", de quem tem que produzir para uma geração que de um lado precisa de certa oposição aos pais para poder crescer; mas pertence ao outro lado da cerca e não se sente à vontade "dando mau exemplo". Em sua primeira novela de sucesso, Top Model - que partia de uma premissa absurda, mas tinha uma turminha que dava um banho nos deficientes mentais de Malhação em termos de carisma, aliás, tivemos o que eu acho o melhor exemplo desse contraste patético: Um casal de adolescentes(Marcelo Faria e Adriana Esteves, ainda em idade para personagens assim) transa, e por causa dessa crise de responsabilidade, "tem que casar". Sem gravidez envolvida. Sem nada. Nada me tira da cabeça que isso foi uma medida paternalista do autor, que não iria "estimular adolescentes a fazer sexo indiscriminado". Como se precisassem de mais estímulo do que os hormônios lhes dão.

Olhem que essa novela é de 1989. Pensem um pouco e verão que a abertura pode até ser maior, mas a mentalidade permanece a mesma até hoje. Vide o final demagogicamente morno da igualmente morna Beijo do Vampiro.

Nesse sentido - sintonia entre faixa etária e produção feita para ela - encontramos um pouco mais de flexibilidade nos quadrinhos e, mais recentemente, na literatura juvenil. Isso acontece porque eles têm uma resposta mais imediata e adaptação é uma forma de sobrevivência. Quando o público, e não o fandom - sim, eu estou batendo na mesma tecla, mas ela sempre vêm a tona nesses casos - exercem o controle sobre o produto que querem ler, ele se torna um espelho mais imediato do presente momento do que costuma ocorrer em outras mídias. Harry Potter e Artemis Fowl, por incrível que pareça, refletem bem isso. No primeiro, a autora não perde tempo com paternalismos e gradualmente vai temperando a série com angústia adolescente à medida que os livros avançam - ela sabe o que está fazendo ao envelhecer o personagem ano a ano. Fowl, que até caiu mais nas minhas graças como leitura do que Potter, é mais radical ainda: o personagem não é reativo como Potter, mas ativo, planejador e extremamente subversivo, desafiando a tudo e a todos em sua frente. Quase um exercício de onipotência infanto-juvenil.

Mas existem adolescentes e adolescentes. É um erro considerá-los todos uma massa amorfa, e na verdade a própria segmentação interna da faixa etária é visível até numa sala de aula. Compare a turma dos bagunceiros com a turma dos certinhos, compare as meninas "patricinhas" com aquela garota que nos fins de semana se veste de preto, comparem todos com todos e veremos que geralmente a personalidade de um grupo se reflete no que eles ouvem e no que eles lêem. Mesmo quando eu era mais novo percebia isso: os rapazes liam sobre os assuntos que lhes interessavam. Surf, skate, rock, quadrinhos, o diacho. Já as mulheres, ou liam coisas como a Capricho ou similares... ou não liam nada.

É aqui que entramos no verdadeiro tópico dessa coluna - e como demorou! - sobre Peach Girl, de autoria de Miwa Ueda, lançado pela Panini.
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Peach Girl parte de uma premissa que, no Brasil, soa absurda, mas dentro de seu contexto cultural original, faz sentido. Momo é uma garota que sofre de um problema de pele conhecido por... excesso de melanina. Em miúdos, com qualquer sol sua pele se bronzeia. O que seria uma mão na roda para uma garota aqui no Brasil - e uma garantia certa de um câncer de pele - é um pequeno inferno no Japão. Tradicionalmente por lá, quanto mais branca a pele, melhor. E enquanto qualquer garota por aqui aproveitaria isso para virar uma pedra de carvão sem o menor esforço, ela se encharca de protetor solar para não ser confundida com uma das muitas garotas que se prostituem para comprar roupas Dolce e Gabbana. Mas Momo tem alguns problemas piores - e eles atendem pelo nome de Sae, uma melhor-amiga-da-onça que, entre outras coisas, procura mimetizar sua "amiga", sugando dela tudo o que pode ter - as roupas que ela quer vestir, seu estilo e os homens pelos quais ela se interessa.

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