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assimilados e apocalípticos
PARTE 1

Duas coisas chamaram a minha atenção nesse último domingo. A primeira delas foi uma tirinha do Laerte, "Suriá", onde a personagem mostra seu novo "visual mangá" (http://www.grilo.blogger.com.br/suria_manga.jpg). Foi engraçado, e justiça seja feita, Laerte é um quadrinhista brilhante - o melhor da sua geração. Mas haveria, aqui, uma crítica velada à suposta "assimilação" do quadrinho nacional pelo mangá?

Isso me pareceu secundário ao ter minha atenção chamada pela segunda vez naquele dia, quase como uma resposta para a primeira - quando Marcelo Cassaro declarou que há uma iniciativa REAL de produção para uma versão animada de Holy Avenger. Uma notícia cuja melhor definição seria como se uma bomba atômica tivesse caído. Porque se isso vier a cabo, nada mais será o mesmo daqui para frente.

E francamente, isso seria um grande motivo para festa. Ninguém mais do que eu tem motivos para ficar extremamente animado. Significaria que a transição de mercado está prestes a dar o seu primeiro grande paradigma no país.

Mas quero pôr a cabeça no lugar antes de soltar qualquer foguete.
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Há três considerações básicas a se fazer quando se fala em produzir um desenho animado aqui no Brasil.

A primeira definitivamente é a viabilização do projeto(leia-se patrocinadore$). Já ouvi considerações sobre o cinema brasileiro ser mais favorecido pelo governo do que outras mídias. Isso é verdade, mas uma série, inspirada em um estilo tradicionalmente japonês de animação e quadrinhos, exige um orçamento maior a longo prazo - principalmente porque os planos de Cassaro envolvem 39 episódios e um longa. E Holy Avenger foge do perfil "social" que é exigido para que se possa sugar esse dinheiro.

Sim, o fato é: É mais fácil conseguir dinheiro para uma produção que mostra que no cafundó de Icaraguatioga há retirantes que não têm o que comer do que para uma produção comercial que possa retornar seu investimento em exportação e produtos.

Para que serve a Caixa Econômica Federal então? Na minha cabeça, sua função seria facilitar a vida do empresário ainda incipiente que precisa de investimento para seus projetos. No entanto, a Gurgel, empresa de automóveis nacional dos anos oitenta, não conseguiu os empréstimos necessários para impulsionar sua empresa - porque isso iria contra os interesses das grandes empresas automobilísticas. Se esse dinheiro tivesse passado para a Gurgel, alguma fábrica da General Motors ou da Ford poderia não ter sido construída em algum lugar...

Animação é um produto caro. Mesmo o todo-poderoso Maurício de Souza não faz exatamente animação em seus produtos para Home Video. Ele se vale de softwares de interpolação para suavizar seus poucos quadros por segundo. Tanto que ele não chama aquilo de animação, mas de video-gibi. Sai barato e o fato daquilo ser voltado para o mercado de vídeo garante o retorno do investimento. Mas a qualidade é algo questionável - o que não pode se dizer de seus desenhos mais antigos. Só que o mercado interno era insuficiente para sustentar os custos destes.

E isso nos leva a segunda consideração a fazer. Quanto à equipe de produção.
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Digo isto porque à primeira vista havia uma pergunta que a julgar pelas declarações publicadas até aqui mesmo na Anime Pro, já foi respondida: vão usar o dinheiro captado para animar no Brasil ou em um estúdio nanico japonês, com direito à terceirização na Coréia ou em Taiwan? O fato de toda uma equipe trabalhar nos noventa segundos de abertura da série fechou a questão. Por enquanto.

O Brasil tem excelentes animadores, mas sua escola é mais tradicional. A animação japonesa, no entanto, criou uma estética cuja origem pode ser traçada não só na influência dos mangás, mas na economia de custos. Foram Hanna e Barbera os pais da animação televisiva, com sua insuportável série "Jambo e Ruivão". Simplesmente eles queriam produzir para a televisão, mas animação era um produto muito caro. A solução prática: passava-se a fazer frames diferentes para diversas partes do corpo, e histórias menos voltadas à ação. Comparem o verborrágico Chuvisco ao silencioso e, hm, "mortal" Tom. Claro que, a partir do momento que o diálogo passou a dar o ritmo da cena, surgiu uma margem para histórias mais inteligentes, mas... isso não aconteceu. Sempre haverá um cinquentão pronto para xingar Digimon e dizer que qualquer tralha da Hanna-Barbera era uma obra-prima, mas alguém se lembra do igualmente antigo - e excelente - "Calvin e o Coronel?", que ousou ser uma comédia para um público mais velho bem antes de Homer Simpson e companhia?

Os Japoneses encontraram sua economia de outra forma. Muitos impactos dramáticos, pontuados pela música. Muitos closes. Muitas cenas onde a imagem está parada, mas cria-se uma ilusão de movimento com a movimentação da câmera. E um número reduzido de frames por segundo(hoje em dia, nem tanto, mas pegue um anime antigo e você vai reparar como os movimentos eram "quebrados"). A estética do enquadramento e da composição valorizando a cena. Funciona.

Não é a toa que há tantos meteoros de pégaso, poderes de shura e, claro, a eterna cena reprisada de Sailor Moon fazendo a mesma coreografia antes de fritar sua Youma da mesma maneira. Se Seiya se movesse como o Jet Li e espancasse realmente seus inimigos, seria uma animação muito mais cara - e nada divertida para seus produtores...



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