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Grana no bolso, gibi na mão
PARTE 1

Parece óbvio, e soa como se eu estivesse chovendo no molhado, mas não custa lembrar. Os grandes ápices da produção de quadrinhos por aqui batem justamente com os grandes picos de bonança econômica. As grandes quedas também levam consigo o mercado de quadrinhos. Fora disso, temos as iniciativas isoladas e os golpes de sorte.
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Isso me veio a mente em uma matéria sobre - pasmem - Benito di Paula(um sambista dos anos setenta, perguntem a seus pais) publicada no meu cantinho favorito a respeito de música dentro da net, o Discoteca Básica, do Ricardo Schott(http://www.discotecabasica.blogger.com.br/). Vou transcrever as palavras dele aqui. "Os tempos de 'milagre brasileiro' haviam favorecido as classes mais pobres e todo mundo saiu comprando discos, o que ajudou a alavancar as vendas de uma série de artistas". Bom lembrar que o Rock Brasileiro cresceu empurrado por outro momento econômico similar - a euforia do Plano Cruzado.

A mesma época que empurrou artistas como Benito di Paula, Luiz Ayrão e outros que só são lembrados de memória, permitiu a longevidade de uma série como O Judoka. Foi uma questão de hora certa e momento certo. Era a época de Bruce Lee nos cinemas e artes marciais na crista da onda. Os cinemas poeira, aqueles cinemas de rua que viraram igrejas evangélicas nos dias de hoje, quando não tinham títulos como "P grandes em C quentes na praia da S" nos seus letreiros(sem exagero - era assim mesmo), tinham sempre um filminho de terceira de Hong Kong, do tipo "Bruce Lee contra o Dragão Vermelho". Mesmo a toda-poderosa Globo, já tardiamente, chegou a criar uma sessão só de filmes de artes marciais chineses, chamada "Faixa Preta".

Essa onda, por incrível que pareça, durou ANOS. E Judoka sobreviveu bem dentro deles. Personagens como Punho de Ferro e Mestre do Kung Fu, da Marvel, também se deram muito bem - este último, em especial, bem mais longevo do que a própria moda das artes marciais. Após os picos de popularidade, o mais importante é um trabalho de manutenção do leitor.
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Os anos oitenta marcaram um pico econômico durante o Plano Cruzado... ou melhor, antes que ele se esboroasse com Plano Cruzado II e similares. Foi uma época onde a Chiclete com Banana do Angeli vendia mais do que o grande bambambam do setor de quadrinhos não-infantis da abril - o Espada Selvagem de Conan.

O problema é que tirante a galera do humor, não havia muito mais o que se esperar das iniciativas dos que tentaram publicar quadrinhos no Brasil. Havia muito revanchismo compreensível após anos de ditadura militar. E os quadrinhistas preferiram se aliar à ala do underground e do quadrinho europeizado, esperando que isso desse resultados práticos. Foi um desastre. Revistas com nomes como Circo, Porrada!, Monga, Abutre e similares pipocaram no mercado, sempre com propostas "alternativas". Todos queriam ser a El Vibora brasileira. Era uma resposta ideológica ao quadrinho americano...

... que na época oferecia diversão de primeira. Cavaleiro das Trevas. Elektra Assassina. X-Men ainda com qualidade. Mini-séries a torto e a direito. Se você fosse um adolescente cansado da escola, iria querer aventura de montão ou um monte de desenhos esquisitos com histórias desagradáveis metidas a malditinhas? Se eu disser que a mítica Circo era uma revista de baixaria, um monte de gente vai querer minha pele. Mas sinceramente, era uma revista de baixaria mesmo.

Preferia ler Elektra Assassina, e com razão. No final, os brasileiros não pegaram a devida carona nesse momento. Os que pegaram, os da ala do humor, ficaram. Até hoje.
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Por mais nefando que tenha sido o Governo Collor(toc toc toc), ele ao menos fez uma coisa boa, involuntariamente: é que ele reduziu o país a uma petição de miséria tão devastadora que qualquer movimento posterior de seus sucessores(eu prefiro dizer - aqueles que tiveram que arcar com os destroços que ele deixou) tem que ser encarado como um movimento de reconstrução. Ele ofereceu um ponto de quebra de continuidade ao demolir tudo com sua sede de vampirização. Todo ser humano tem ao menos um momento traumático onde sua vida é virada do avesso e ele tem que reconstruir tudo a partir daí. O mais próximo do que conhecemos disso neste país foi Elle(toc toc toc), perdendo apenas para o golpe de 1964.

E de certa forma tudo o que veio sendo trabalhado no mercado editorial brasileiro foi demolido ALI. Com altos e baixos, o que tínhamos até então era consequência do que aconteceu nos anos oitenta, que marcou também a chegada talvez do primeiro mangá a ser publicado por aqui. Lobo Solitário. Ainda o mais poderoso roteiro nipônico de quadrinhos que li na vida.

O fato é que por conta da burrice de nossos autores brasileiros de quadrinhos, a de pensar que era mais jogo tentar empurrar uma "marca de autor" ao invés de tentar comer pelas beiradas o mercado comercial de quadrinhos, quem se espalhou durante esse período não foram os novos conteúdos, mas sim os novos formatos: graphic novels, mini-séries de luxo... simplesmente os mangás começavam a pôr suas garras no mercado americano através de editoras como a Viz e a extinta Eclipse, e o Brasil simplesmente experimentava para ver se dava certo. Aí já não eram mais picos. Era questão de manutenção de políticas editoriais. Tivemos Mai, tivemos Crying Freeman, tivemos Akira, mas tivemos Collor e a alegria acabou.
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