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Evolução e sobrevivência
PARTE 1
Pode parecer bobagem minha, mas a luta pela sobrevivência na natureza sempre
exerceu alguma atração sólida em mim.
Quando eu era criança, era apaixonado por aqueles programas do tipo "mundo
animal" - o equivalente, naquele tempo, aos documentários da National Geographic.
Neles, sempre se aprende que quem sobrevive é o mais forte, ou o mais rápido -
mas antes de mais nada o mais capaz, segundo suas próprias luzes. O mais forte
vence o mais fraco, mas o mais fraco pode ser mais veloz. O menos veloz não
escapa do mais forte. Mas mesmo o mais forte pode não deixar seus genes para a
posteridade caso não seja sexualmente mais atraente. Ele pode entrar em embate
para garantir que a sua força seja para a fêmea uma garantia de que seus
filhotes sejam mais fortes, e portanto ele seja mais digno de trocar genes com
ela do que aquele que parecia ser sexualmente mais atraente. Não importa. No
final quem vence é quem consegue se destacar mais do que os outros. Uma forma
simples de encarar os fatos do mundo. Só nós humanos é que costumamos complicar
tanto.
De certa forma as lições que aprendemos com a natureza valem para a vida. O
problema é que eu descobri a literatura cedo demais, no final da infância/início
da adolescência e por conta disso desaprendi tudo que a natureza, ou melhor, o
Mundo Animal e seus similares(como os documentários alemães sobre a vida
selvagem que passavam na TVE nos anos oitenta) me ensinaram. Pensar demais pode
ter seu preço. E levei muita patada na adolescência até entender a sabedoria que
qualquer guri que puxa o cabelo da menina loura e bonitinha na frente dele na
sala de aula do primário consegue intuir - e pensando bem, eu fiz isso aos sete
anos, até receber, a pedidos da menina, uma reprimenda da professora, que era
uma criatura antipática de meter medo. Claro, eu deveria aprender a refinar
minhas táticas. :)
Ao menos eu aprendi muito sobre escrever, mas de qualquer forma, as leis da
natureza parecem se aplicar a tudo na vida. isso vale para tudo, inclusive para
quadrinhos.
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De certa forma o sexualmente atraente pode ser convertido, por essas leis
naturais, para a arte, que é o melhor peixe para servir de isca para o leitor.
Basta lembrar que Vagabond chegou a ter um período de estabilização de leitores,
após o lançamento. Vagabond sempre tem capas belamente pintadas e uma arte
impressionante. Não se pode negar isso.
O conteúdo vem em seguida no sentido de prendê-lo. Convenhamos, o leitor pode
determinar se o título tem algo que lhe interesse para que ele dê uma chance ao
material, mas uma folheada na banca não vai dizer a ele se o material lhe agrada
ou não, e sim se ele parece que vai lhe agradar ou não. Acreditem, eu QUIS
gostar de Vagabond. Mesmo. Mas não conseguia, por mais que a arte seja de cair o
queixo - e ela é.
Aqui eu estou falando de uma experiência pessoal de leitor. Cada leitor tem a
sua. Eu gosto de Shaman King, e se olharmos bem, o que enriquece o trabalho de
Hiroyuki Takei como desenhista é que ele tenta se aproximar, em seu traço, em
uma linguagem visual que remonta não a estética tradicional do mangá, mas sim à
do grafite, urbano, que se encontra nos muros das grandes cidades do mundo. Boa
parte da verdadeira personalidade artística do autor está aqui. Eu acho a arte
de Takei extremamente vigorosa em certos momentos, quando essa influência se
torna visível. E sua arte se identifica ao referencial visual urbano do jovem.
Em qualquer grande metrópole. Em miúdos, sua arte é atraente ao público jovem
que se destina. E seu roteiro, por mais clichês que tenha, é extremamente
eficiente no que se propõe.
O que seria a força por esses termos? Força econômica. Porque um produto pode
ser imposto, por uma campanha de marketing funcional. Pode ocupar todos os
lugares nas bancas, invadindo espaço físico que materiais de outras editoras
poderiam ter. Como certas árvores, que se espalham de forma predatória em uma
floresta. E sua própria existência devora a existência dos outros.
Mas um coelho pode ser mais rápido do que uma raposa? Pode. Uma editora pequena
pode escapar a essa destruição redimensionando tiragens, mantendo a
periodicidade, contando com leitores fiéis e tendo uma distribuição eficiente(eu
ia escrever confiável - mas o fato é que se sua editora não se chama Abril nem
Globo aqui no Brasil, a sua distribuição dificilmente terá resultados melhores
do que medianos. Bem, a Panini parece ter uma distribuição eficiente até onde eu
percebi). Enquanto isso, uma editora grande precisa de uma grande vendagem para
compensar os custos de uma grande tiragem, porque seu aparato não justifica
prensagens pequenas. E suas grandes tiragens podem ser automaticamente
superdimensionadas para seu público efetivo. Em parte foi o que esmagou o setor
de quadrinhos da Abril. Temos muito menos leitores hoje em dia do que há vinte
anos atrás.
Mas as intempéries são parte da vida. As florestas sofrem com as devastações
climáticas. Uma árvore que não resiste as mudanças nos ambiente leva consigo os
animais que delas viviam. A menos que eles evoluam.
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Um dos melhores casos recentes dessa evolução é o de Haruhiko Mikimoto. Para
quem não liga o nome à pessoa, ele é o desenhista veterano que quase sempre
esteve por trás das séries de Macross desde o começo. Ele continua produtivo e
operante, ainda estável em sua posição de grande mestre.
No entanto, ele reinventou seu traço. Compare seu trabalho em Macross II e no
longa Macross - Do you remember love? e em seu trabalho atual tanto em materiais
como Baby Birth quanto principalmente em Gundam: Ecole du Ciel (Clique
AQUI). Suas mulheres agora são mais infantis, tendendo para a linha que
certos fãs chamariam de... e como eu odeio essa palavra... Kawaii. Suas pinturas
recentes tem sido feitas por colorização digital. Isso depõe contra a qualidade
do seu trabalho? Nem de longe. Mikimoto ainda deixa na poeira muita gente
realmente boa.
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