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Mangá, estética e estilo!
PARTE 1

Não. Apesar desse nome a coluna não virou uma coluna de moda pilotada por um tipo suspeito. Eu só queria dizer aqui que mangá é estética, não estilo. E estética pode ter procedência, mas não tem dono.
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O ponto de partida desse raciocínio começa na Globo, que em seu "TV Globinho" está exibindo "Três Espiãs Demais" - um desenho que já vinha sendo exibido na Fox Kids, e que está chegando a TV aberta. É um desenho bobo, bobo, bobo, que pode ser melhor definido como uma cruza animada da versão cinematográfica de "As Panteras" - que eu acho bem superior ao seriado que lhe deu origem, e olha que isso não é difícil - e "As Patricinhas de Beverly Hills", com todo o festival de peruagem que isso implica. É também um desenho extremamente divertido, mas não é bem isso o que está em discussão aqui.

O que diferencia as "Três Espiãs" é que elas marcam a chegada do "American Manga" à animação(apesar do desenho de Jackie Chan ter o character design de Jeff Matsuda, criador da HQ Kaboom, só alguns poucos personagens seguem essa linha). Sim, a estética inspirada pelo mangá de gente como Ben Dunn(Warrior Nun Areala), ou de gente como Fred Gallagher(www.megatokyo.com). Há gente que vai dizer com certeza que eles não são mangá. Talvez não sejam. O american manga já há muito tem seus próprios códigos, e ainda é apenas um "american manga" - no sentido que é uma variante de um estilo, e o nome não nega sua paternidade - apenas o admite.

No entanto, o fato dele não ser 100% mangá não nega seu valor. E nasceram de uma necessidade de se trabalhar num estilo diferente.

Toda estética tem regras narrativas. Se você as segue, então está trabalhando nessa estética. É um todo. Adam Warren não fez mangá na Dirty Pair, mas chegou bem perto ironicamente em seu "Grunge - The Movie"e acho que chegou lá nos Titãs(embora nunca tenha conseguido fazer igual novamente). O que se faz na China e na Coréia também chamo de mangá, embora na China esteja já ganhando características próprias há bastante tempo e ganhando um outro nome - "Manhua", se não me engano. Está se emancipando esteticamente do mangá, embora seja filhote direto dele na sua raiz. E eu acho importante isso, o surgimento gradual de uma nova escola quadrinhística, mesmo que inicialmente ela seja derivativa do mangá(e convenhamos, o mangá nasceu influenciado pelo estilo caricato do quadrinho - e animação - infantil americano). Falta só um ovo de colombo similar ao Astroboy com os mangás para que os Manhuas ganhem identidade. E em uma ou duas décadas acho que isso vai aparecer.

Mas eu acho plenamente possível que haja mangá em outros países que nem o Japão, que haja comics em outros países que nem os estados unidos, e se um dia houver um "estilo gibi", que em outro país se possa fazer algo "gibi". Estética tem origem. Estética não tem dono. E a Coréia faz mangá, pura e simplesmente.
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O crescimento do mangá talvez tenha determinado que a estética pode deixar de ser japonesa a qualquer momento. Asiática, ela primordialmente ainda é. Mas não é mais exclusividade de nenhum país. Acredito sinceramente que muito do que define algo em pertencer a uma estética é, num primeiro momento, querer pertencer a ela. O segundo passo é conseguir fazer isso. Nesse sentido, o American Manga parece ser uma apropriação falha dos conceitos de outra estética. Mas e quando ele passa a dar bons resultados e termina por gerar seus próprios cânones, essa apropriação realmente é falha? Acredito que não.

Quais os fundamentos para que eu diga isso? Bom, meu fundamento vem da leitura de Scott McCloud("Desvendando os Quadrinhos") e suas transições quadro a quadro. Foi ali que eu entendi que é possível fazer não só mangá, como qualquer coisa, desde que se domine sua estrutura narrativa. O mangá se encontra, mais do que em olhos grandes e linhas de movimento, em suas transições quadro a quadro, em questões de diagramação e ritmo narrativo. Por esse princípio, é possível fazer mangá na Coréia, BD na Argentina e mesmo comics no Brasil(os exemplos não são poucos).

Digo isso com outra "apropriação" do mangá nas mãos: Robotech da panini. Eu já havia lido no original - e pessoalmente gostei mais dele do que de Macross Zero se pensarmos em termos do "passado" dessa ambientação comum. Ao menos, ele é coerente. Mas Robotech chega a ser mangá? Não - e na verdade isso não importa nem um pouco. Ironicamente, apenas o nome de Jay Faerber(escritor de Titãs e Arqueiro Verde) é o representante presente da linguagem narrativa dos comic books. Ele cumpre muito bem seu papel de providenciar diálogos funcionais. O resto vem do Manhua chinês(Tommy Yune, o mesmo de Speed Racer) e do Mangá Coreano(Long Vo). Os dois últimos adequaram sua linguagem às limitações de espaço dos quadrinhos americanos e emergiram com uma narrativa mais compressa. Espaço conta no desenvolvimento de uma história a nível narrativo, e por conta disso mesmo é impossível querer fazer mangá como no original se você só tiver, digamos, onze páginas disponíveis por mês.

Agora olhem isso: http://www.janimes.com/scanlation/album08 - é possível dizer que, só por ser coreano, isso NÃO é mangá?
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Pode se dizer que não se existe um "estilo" mangá. Até porque estilo é uma coisa pessoal e intransferível de um autor. Mesmo o mangá comporta vários estilos diferentes. Ou Nobuhiro Watsuki(Samurai X) por acaso poderia ser confundido com Yoshiyuki Sadamoto(Evangelion)? Em suas múltiplas escolas (shojo, shonen, josei, yaoi, mesmo o hentai) e subdivisões internas(shonen de porrada, shonen de mechas, shonen de esportes, shonens de romances de manés cercados por mulhres bonitas que eles não vão pegar nunca, etc.) há inúmeros artistas que mostram estilos completamente diferentes entre si, mesmo quando trabalham no mesmo tipo de história. Mas todos fazem mangás, porque isso está incrustado em sua narrativa. É algo que pode ser visto, comparativamente falando, não na cor da pele, mas no código genético dessas histórias.


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