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Desenhos animados por atacado
PARTE 1
Deu na Folha Online: "Projeto de lei apresentado na semana passada na Câmara dos
Deputados promete mobilizar o lobby das emissoras. A proposta, do deputado
Vicente Paulo da Silva (Vicentinho, PT-SP), cria cota de desenhos animados
brasileiros nas TVs aberta e paga. No primeiro ano de vigência, caso o projeto
vire lei, a cota de desenhos nacionais seria de 10%. A partir do quinto, de 50%.
Hoje, nenhuma animação brasileira passa nas principais redes."
Isso gera um sem-número de probabilidades. Porque pode ser motivo tanto de
comemoração quanto de preocupação.
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O primeiro ponto seria a conseqüência imediata de uma medida como essa, feita
com certeza por quem não entende nada sobre a produção e custo de um desenho
animado seriado. O mais provável, nas tvs abertas, seria que as emissoras
reduzam o número de desenhos na televisão - ou os cortem de vez. Dez por cento
de zero é zero. Cinqüenta por cento de zero também é zero. Para que não tenham
que gastar dinheiro com a produção de animações - e é bom lembrar que tanto a
MTV quanto a Globo, com suas vinhetas de comerciais, podem usar sua produção
pequena para contornar a lei e continuar exibindo o que sempre exibiram. Bom
lembrar que há cotas para jornalismo nas televisões abertas, e o SBT povoa dessa
forma suas madrugadas... dêem para o Brasil uma lei e se encontrarão mil formas
de se contorná-la.
Nas tvs a cabo, se segurariam as pontas nos primeiros anos. Provavelmente serão
desenhos ruins, feitos a toque de caixa para que se cumpra a cota de dez por
cento. Como nos tempos do curta nacional obrigatório antes de qualquer filme
estrangeiro. Levando em conta que muitos críticos de televisão reclamam dos
animes e querem ver material mais voltado para a educação e menos para o
consumismo(como se criança, que é o alvo primário de público para animação neste
país segundo essa mentalidade, se interessasse por isso); lembrando declarações
de gente como o dos criadores do Castelo Rá-Tim-Bum, por exemplo, contra a
animação de massa japonesa - que é um exemplo cuspido e escarrado de produto
comercial certeiro e viável - é bem possível que a produção nacional que virá
seja mais adequada a uma TVE do a quem queira se divertir e se identificar com
os personagens.
Há a possibilidade de que num primeiro momento, as emissoras, após cortarem os
desenhos, percebam que nenhuma criança assiste programa infantil para ver
apresentadora. Mas desenho é um produto caro e nós temos o hábito da exibição
diária incrustado no espectador. Será o império da outra massa que fica em casa
de manhã: As donas-de-casa. Podem apostar: a aprovação dessa lei fará a Globo
ressucitar a TV Mulher - o pesadelo da minha infância quando por acaso eu era
matriculado em uma escola onde eu tinha que estudar à tarde, em cidades
interioranas onde apenas a Globo chegava e TV por assinatura era algo que nem
existia. E a Ana Maria Braga será a "rainha" das manhãs de novo.
Quando chegassem os 50% obrigatórios, chegaria o fim. Seria mais prático para
uma Cartoon ou para uma Fox Kids pegar a mala e sair do ar, no Brasil, do que
manter um monte de desenhos só porque eles tem que ser exibidos por lei. Não
vejo uma indústria de animação sair disso, a menos que haja lucro possível.
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Neste momento eu acredito, no entanto, que muita gente está soltando os
foguetes. Calma, a lei nem foi aprovada ainda.
A raiz do problema na verdade vem de uma situação pior: no Brasil, as emissoras
são produtoras, e as emissoras pertencem a grupos de interesse. Nos Estados
Unidos, uma emissora não pode ter mais do que 30%(40% em alguns estados) de
produção própria, em horário nobre. Ou seja, ela tem que se aliar a produtoras
independentes. Se isso acontecesse no Brasil, todo um sistema entraria em
colapso da noite para o dia - as emissoras teriam que deixar de ser produtoras,
e veriam sua programação esvaziada. E seria ótimo, aliás - basta lembrar que no
caso da Globofilmes, ela se vale da captação de dinheiro público da mesma forma
que qualquer produtor nanico, quando na verdade ela tem condições financeiras de
fazer tudo por si só. O resultado é que quando um jovem cineasta se vale dessas
leis para tentar fazer seu primeiro filme, tem que competir com a Globofilmes,
que é um investimento mais atrativo no sentido de retorno. Mas estou me
desviando do assunto.
O motivo pelo qual a Globo destrata tanto seus seriados nos dias de hoje é que,
a bem da verdade, ela não precisa mais deles, como nos anos setenta e oitenta.
Eles já tiveram seu Plantão Médico("mulheres"), têm dois sitcoms("A Grande
Família" e "Os Normais"), um remake de uma série clássica("Carga Pesada") e até
mesmo sua dose diária de drama adolescente(eu sei que vou levar pedrada por
causa disso mas lá vai: acho Malhação uma coisa horrível, mas acho Dawson's
Creek muito, mas MUITO pior). Seriados e até longas-metragens que poderiam ter(e
eventualmente tem) grande penetração popular, como Alias, por exemplo, foram
absorvidos pelo SBT, mas a bem da verdade, o público desses seriados migrou para
a televisão por assinatura. Friends, dublado, não pegou no Brasil em TV aberta.
O próprio "Padrão Globo de Qualidade" é um resquício dos tempos em que a classe
média brasileira, antes da TV a cabo chamar sua atenção, assistia a Globo e
havia segmentação por horário no conteúdo de suas novelas.
É chato dizer isso, mas o povão mesmo, desgraçadamente, gosta de A Praça é Nossa
e do mundo cão de Ratinho e Márcia Goldschmidt. Tanto é que quando tentaram
colocar uma legislação que combatesse esse tipo de programação, muita gente
alegou que isso na verdade era uma forma de se impor padrões culturais da elite
contra o povo. Sempre vai haver um Hermano Vianna da vida amparando
intelectualmente quando se empurra uma música que diz que "Um tapinha não dói".
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