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Fechando Chobits e abrindo Slayers
PARTE 1

    Esta semana foi agitada. O lançamento de Chobits na sexta e o lançamento de Slayers na tv na segunda. Eu não pretendia mais me estender sobre o assunto Chobits - não quero saturar a mim nem aos leitores com isso. Mas as reações e mensagens que recebi por conta disso deram mais pano para manga - ao mesmo tempo que a reações de certa ala dos fãs à nova velha dublagem de Slayers entupiram as caixas de mensagens das listas de discussão durante o começo da semana. E de certa forma, isso está mais ligado do que se imagina.

    Vamos a tudo então, se ainda me restar algum leitor após eu ter descido a lenha em Chobits semana passada, claro.

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    Primeiro, Chobits. Eu reparei que há dois tipos básicos de leitores que se manifestaram. Um são os que gostam de Chobits e que foram atraídos por algum elemento extra, e faziam questão de deixar claro que não são "Otakus-Aranha" - mesmo quando reconheciam que a história foi feita para eles. O outro tipo simplesmente renega com veemência a idéia do Otaku-Aranha em si.

    Que elemento seria esse? Beleza do traço? Porque nunca neguei a capacidade da Clamp como grupo de desenhistas. Ao ler Chobits - e sim, tive o cuidado de ler alguns volumes da série, via Internet, para ter base no que falo(um elemento que ajuda inclusive a diminuir as vendagens de uma série: séries de otaku, e chobits é uma série de otaku, são facilmente downloadeáveis por todos os cantos. Não, não vou repassar o link, em respeito à editora. Procurem sozinhos)...

    Bom, eu teria que spoilerizar MUITO para explicar meu ponto. Mas o que mais assusta é que quem fez Chobits foram mulheres, e no final o que temos é algo mais apelativo e hormonal do que uma cruza de Video Girl Ai com Hand Maid May. Quase um flerte com a pornografia. A cena do Peep Shop(deve sair pelo terceiro ou quarto volume nacional) mostra bem isso. A sequência a cores que vai sair no número três é mais evidente ainda - trabalha com desimaginação, fundamental para alimentar os doujinshis hentai(fanzines pornôs). Vão para o próximo parágrafo AGORA se não quiserem saber ainda: uma personagem acorda de manhã, em roupas íntimas, ao lado da persocomzinha chii, só com uma calcinha e uma camisa maior do que ela(o fetiche supremo, se pensarmos bem. Porque se ela acorda só com uma camisa é sinal de que...). Logo a simpática conversa com a personagem que bebeu demais noite passada revela que os dois não transaram, embora ele tenha ficado nu. E que ele permanece virgem. Só que a cena que mostra as duas acordando sugere visualmente que ela pode ter transado com a persocom, afinal era só uma andróide doméstica. E ela estava bêbada, bom dizer...

    Vão me chamar de um tremendo puritano agora, ou que eu tenho a mente suja. Mas convenhamos, a cena foi feita para atiçar mentes sujas. Fanservice é isso. Mas isso vai muito além do humor malicioso de Love Hina, convenhamos. E se Love Hina era confundido facilmente com um hentai pela capa, imagine que manancial isso não vai dar para quem quiser a caveira dos mangás nas bancas.

    A questão é: Isso foi feito, sim, para Otakus-aranha no Japão. E fora dele, não pensamos em expandir o público para fora do nicho de sempre, que não é tão grande, embora sustente algumas revistas com tiragens menores.

    Gunm poderia trazer um público maior? Poderia. É uma ficção científica sem os clichês tão amados pelos fãs de carteirinha. Nada de gotonas, de orelhinhas de raposa. Tem um traço estilizado de uma forma diferente. Vai virar filme. Mas em nome de uma fidelidade ao fã hardcore, foi chamada pelo nome original e lançada com uma estratégia editorial que só isola o leitor potencial de seu público. Sobrecapa, para ficar como no Japão, alegrando os otakus daqui que sonham estar em outro país, e forçando a revista a ser lacrada para evitar que a sobrecapa fique rasgada nas bancas, impedindo que um leitor ocasional a folheie? Quando as primeiras notícias do filme Battle Angel Alita vierem(afinal de contas será um filme de James Cameron, na sua última chance de reconquistar o respeito de um público que perdeu), um público que poderia descobrir os mangás de outra forma não irá relacionar uma coisa a outra. Um tiro terá sido disparado para o céu no momento em que o tigre está tão próximo.

    Detective Boy Conan poderia trazer um público maior? Poderia. Temos uma tradição enorme de livros infanto-juvenis com garotos detetives. Porque não um material do gênero, perfeito para ser dirigido a um público jovem que está na quinta série mais ou menos? Ao invés disso, a Conrad trouxe Dr. Slump - e se o que foi publicado AQUI for verdade, eles tem motivos de sobra para terem se arrependido.

    Se o anúncio da Panini sobre Peach Girl ser dirigido a um público adolescente que gosta de Dawson's Creek for verdade, eles terão agido com um bom-senso maior do que quando a Conrad trouxe Fushigi Yuugi. Porque embora eu não goste de Dawson's Creek, e eu adoraria ver um episódio final onde todos os personagens da série são enfiados em um caminhão e ele é arremessado a um abismo para explodir lá embaixo, mal ou bem o público que algo assim tem é maior do que o público que sustenta as atuais tiragens das revistas publicadas no Brasil.

    Apesar de GTO(Great Teacher Onizuka) dizer mais respeito ao público japonês, seria mais fácil empurrar para um grande público, jovem incluso, a idéia de um professor tendo que lidar com uma série de alunos problemáticos do que a história de Chii e de mais um adolescente mané que vive oscilando o umbigo de suas próprias frustrações. E sim, porque isso foi feito para um público que no Japão vive em torno de suas próprias frustrações. E o culto à chii é absolutamente internáutico. Fanarts, doujinshis baixados na internet. Sim, foi feito para otakus-aranha como eu disse na coluna passada. E o público leitor potencial no Brasil não é restrito a ele. Mesmo os que gostam da Chii sem sê-los.

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