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Nosso Amigo da Vizinhança, O Otaku-aranha
PARTE 1
A JBC anunciou seu próximo mangá após o bem-mandado Shaman
King. Chobits. Meu deus do céu...
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Chobits é uma das tentativas da Clamp em atingir o público
otakuzão japonês que grava desenhos durante a madrugada e faz que produções já
planejadas para ter uma audiência de traço rendam fortunas em produtos,
compensando seu investimento no fim das contas. Este mangá em especial é um
mimo: a garota é um doce de coco que só fala chii...
(momento Homer Simpson: caso não tenham percebido, estou sendo sarcástico.)
O que mais chama a atenção é que a JBC no release que parece
ter sido reproduzido por vários sites, disse que escolheu esse título graças a
manifestação popular. Ora, eu já disse e repito: o fã é sempre vocal, mas está
longe de ser a maioria. E cria a ilusão de ser um público consumidor enorme, mas
é só ilusão. Quem é o leitor de Chobits e similares?
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Otaku-Aranha é um termo que foi cunhado em uma roda de
amigos. O motivo da piada é simples: Ele tem mão peluda e tá subindo pelas
paredes. Brincadeiras à parte, ele se encaixa como uma luva. Podemos perceber o
perfil: colecionador de hentais baixados pela internet(porque comprar mesmo ele
não compra). Adora coisas "Kawaii"(bonitinhas e engraçadinhas) e as adora mais
ainda imaginar em situações sexuais ou sensuais. E principalmente, enquanto a
maioria dos seres humanos guardam sua pornografia para si, oculta, proibida e
discreta, os otaku-aranha preferem fazer disso uma bandeira. No fundo vejo as
cultuadoras do yaoi como as otaku-aranha também, apenas em versão feminina. Não
importa: são pessoas que consomem material de sexo com personagens fictícios e
procuram dizer que não é pornografia, ou ao menos que não é pornografia comum.
Não estou dizendo que Chobits seja pornô. Não é. Mas foi
feito justamente para alimentar a indústria movida pelos hormônios reprimidos de
quem não tem uma namorada no japão e fica sonhando com criaturas bonitinhas e
engraçadinhas que jamais existirão na realidade. É bom lembrar que o grau de
solidão e depressão no Japão chega a pontos bizarros. Video Girl Ai, se for
verdade o que me foi passado, é fruto de um deles: Imagine que você levou um
fora de sua garota, ou ela te traiu na sua cara, ou algo do gênero. Naturalmente
você vai entrar em depressão. É por isso que existem fitas de "video girl"(e até
de "video boys"), onde garotas dialogam virtualmente com você. Segundo quem teve
a oportunidade de ver essas fitas, as modelos, sempre bonitinhas e muito
simpáticas, são meio que classificadas por faixa etária, de acordo com a idade
do comprador da fita(um garoto que foi chutado por sua namorada na escola exige
uma abordagem diferente de um salaryman que foi enganado por sua mulher, por
exemplo). A função dessas fitas é a de ser uma espécie de antidepressivo
virtual. Tente assistir aquilo depois que a fita acabar, sem avançar a fita: em
geral as meninas "falam com você" em um ambiente neutro, fechado, e esperam,
digamos, que você se reanime. Mas pode ser que não seja o suficiente. E pior,
você esteja TÃO para baixo que nem desligar a fita você desliga. Fica olhando
por quarenta minutos para aquele fundo colorido de televisão que ainda não
entrou no ar. Se você ainda não se suicidou, aparece a menina de camisola ou
coisa que o valha. E ela joga sujo para você se reanimar, digamos assim.
Se pensarmos bem, isso é assustador.
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Todos nós gostamos de mangás e animes. Ninguém põe isso em
cheque. Mas a maior parte dos seres humanos não é fã, completista ou
colecionador. Tem um trabalho. Tem uma namorada. Tem uma vida. Não sonha, faz.
Ou se sonha, pensa em fazer. Eu sinceramente acho que quem acha que a Chii, ou a
Asuka, ou qualquer menina de anime que possa ser reproduzida em resina, é mais
desejável sexualmente do que uma Luiza Altenhofen(ou as mulheres que adoram ver
relacionamentos homossexuais entre seres humanos improváveis com mãos enormes e
queixos de picareta) precisa sinceramente ter uma vida fora de sua casa
imediatamente. Falar com alguém que não saiba NADA sobre desenhos japoneses. E
acredite, criaturas como essas existem.
A realidade é assustadora e sombria, mas é nela em que nós
vivemos. E desbravar o que se puder encontrar de bom dentro dela pode ser um
desafio para lá de compensador. Quanto a sonhar e se distrair, é uma coisa. Mas
viver em um mundo de papel e acetato não compensa.
Sim, uma imagem desenhada pode dizer muita coisa sobre o que
sonhamos ou desejamos, não vou negar isso. Mas é melhor buscar uma menina
baixinha, lourinha e doce no mundo real ao invés de subir pelas paredes e
disparar teias viscosas nos azulejos.
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Mudando de assunto. Relendo a coluna 27("Uma lapiseira na mão
e uma idéía de jerico na cabeça") que foi postada esta madrugada, eu vi uma das
piores colunas que eu já escrevi - movida pelo cansaço e pela obrigação de
apresentar uma coluna por semana. Prometi falar de uma coisa e acabei falando em
outra, ou melhor - trabalhei duas linhas de pensamento que não se encontraram no
final das contas. Não nego nada do que falei, mas esqueci de lembrar que hoje ao
menos pinta de vez em quando um "Homem que Copiava", feito por gente que deixou
todo o lixo dos anos sessenta e setenta para trás - só que o meu maior pecado
foi ter mandado uma coluna mal escrita e organizada que parece não dizer a que
veio. Uma coluna sem foco, e por isso mesmo pedi para que a removessem e
colocassem uma nova coluna 27 no lugar - que trata de uma notícia imediata que
chegou a mim DEPOIS que eu enviei o texto anterior. Por isso eu peço desculpas.
Mas de resto, para quem a leu, mantenho tudo o que disse. TUDO. E se alguém
falar em momento político dos anos sessenta, francamente, isso não interessa.
Não somos historiadores, antropólogos ou sociólogos. Somos espectadores.
A propósito, "O Trapalhão no Planalto dos Macacos" vale mais
do toda a obra completa do Neville D'Almeida e do Braz Chediak juntos. Mas essa
coluna é sobre quadrinhos, vou me ater mais a eles então.
Alexander Lancaster(lordlancaster@hotmail.com)