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Reformular para não morrer!
PARTE 1

    Eu comprei nesta sexta(a mesma sexta em que a coluna anterior entrou no ar) uma pequena curiosidade. Fantagor, da Opera Graphica, formato parecido com o usado pela JBC. A primeira vista é um plágio descaradíssimo do Fantasma, em versão mangá - e não seria o primeiro na história dos quadrinhos brasileiros de Aventura(vide o Homem-Lua de Gedeone Malagola). Tenho uma relação afetiva com o personagem: meu pai não gostava que eu, quando criança, lesse super-heróis. Mas abria uma exceção para o Fantasma e para o Mandrake, porque eram os que ele mesmo gostava. Como eu não suportava o Mandrake, acabava me contentando com o Fantasma enquanto eu não fiquei adolescente e meu pai deixou de regular parte de minhas leituras.

    Mas voltemos ao Fantagor. A arte, em um estilo que por vezes lembra o Akira Toriyama de Dragon Ball, tem problemas. O desenhista e roteirista, Pierre Viegas, apresentou um produto com problemas de anatomia e perspectiva básicos, é verdade, mas acerta bastante no que diz respeito a diagramação, composição e cenários(embora tenha suas falhas nesse terreno também). Um desenhista pleno de potencial, embora ainda não esteja pronto e tenha um certo ranço amador - na verdade, ele tem tudo para ser MUITO bom assim que solucionar seus problemas de base. A arte final, de Antônio Lima - que traz no seu currículo trabalhos para os quadrinhos Disney - parece ter valorizado e muito a arte de Viegas, mas os problemas com a arte ainda estão lá.

    Só que o roteiro... bom, ele é TUDO o que deveria ter sido feito com o Fantasma há ANOS, a despeito do que alguns colecionadores velhuscos de quadrinhos irão dizer. É cheio de lugares comuns do mangá, é um shonen tão clichezento que, com outro desenhista, poderia ser publicado numa Shonen Jump... mas diverte, tem empatia adolescente num mercado de quadrinhos dominado primordialmente por leitores adolescentes.

    Porque eu falo tanto do Fantasma ao invés de falar do Fantagor? Porque como um criminoso que deixou pegadas na lama e através delas seguimos o rastro até seu dono, que está limpando o sangue das facas na cozinha, é facílimo seguir o histórico do projeto da revista.

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    O Fantagor é um personagem virtualmente idêntico - eu disse IDÊNTICO - ao Fantasma. Basicamente temos todos os elementos do personagem meramente rebatizados e relocados geograficamente. Inclusive em detalhes sutis que só os fãs mais renhidos do personagem vão perceber.

    E esses detalhes escapam por um motivo: falhas de revisão. A tribo Buris, na página dezessete, primeiro quadro, é chamada de Bandar. Na página cinqüenta e oito, primeiro quadro, novo lapso: Carol, a irmã gêmea do jovem Daniel Plummer, que está destinado a se tornar o novo Fantagor, foi chamada de... Heloise.

    Ora, Bandar era a tribo que acolheu Kit Walker! Heloise era a filha do Fantasma, irmã gêmea de Kit(o filho)! E o Fantasma se bem me lembro teve outro filho, que aparece mais crescido em Fantagor, sob o nome de "Little". Conclusão lógica, óbvia e ululante: Era uma história feita originalmente para o Fantasma que acabou sendo recusada, e para que nada se perdesse, o roteiro teve os nomes trocados! Ajuda o fato de que a Opera Graphica é a mesma editora que publica o Fantasma no Brasil...

    Eu voltei à banca onde tinha comprado a revista e olhei as duas revistas. O Fantagor que eu havia comprado e o Fantasma clássico publicado pela Opera Graphica.

    O Fantasma clássico é um personagem que vive de passado, e acredito seriamente que o perfil do leitor típico do personagem seja composto basicamente por sessentões que editam fanzines com nomes do tipo "Nostalgia Quadrinhos" ou coisa parecida, provavelmente sabem de cor os nomes dos velhos cowboys dos gibis antigos de faroeste em preto e branco publicados por editoras como a Dell, e podem falar dos velhos seriados para cinema da Republic. Eu não vou negar que olho esse tipo de material com simpatia. Mas é uma simpatia meio condescendente, como a de quem olha para o vovô com quem joga futebol de botão e ouve suas histórias sobre os lugares por onde ele passou, as mulheres com quem ele transou e os filmes que ele viu. Viajar para o passado pode resultar numa viagem prazerosa, e podemos aprender muito com ele. Aprender com o que veio antes é fundamental para que tenhamos algo do que construir - como eu disse na coluna anterior, nada começou do nada. Mas permanecer no passado é permanecer sem usar o que se aprendeu. Conservar em formol as coisas como um dia foram é pedir que elas morram, atrofiadas e nanicas, como um bonsai que queria ser uma grande árvore. Porque é no presente em que vivemos, e para o futuro é que caminhamos.

    Mostrei para um amigo, leitor velho de guerra, e ele reagiu muito mal. "O que isso acrescentaria ao mito do Fantasma?", esbravejou ele. "Dá para ver porque a King Features rejeitou isso"(supondo que isso tenha acontecido). O material segue o tipo de roteiro que você encontra nos mangás adolescentes normais. E devolveu todo um clima que você não associa mais ao personagem: lugares exóticos, piratas malvados mais exóticos ainda, combates perigosos. Tudo o que dava apelo ao herói no começo e foi para a lata do lixo da história. E eles mandaram bem: Em cem páginas de história, Fantagor nos dá inimigos pulp em tom de Shonen Jump, amuletos misteriosos, piratas com tapa-olho, garota-pirata-artista-marcial que é inimiga do herói mas tem um clima mal-resolvido com ele... O que é o Fantasma clássico nos materiais (re)publicados nos dias de hoje? Kit Walker brinca de bom pai e bom marido no meio do mato, um bandidinho do tipo caçador de marfim pé-de-chulé aparece, cria um incômodo para o herói, ele dá umas bifas nele em histórias rasteiras que poderiam fazer parte de um seriado ruim de baixo orçamento dos anos setenta... e volta para casa para brincar com a mulher e os filhos na cachoeira. Quem quer ler isso hoje em dia?

    Fantagor tem um elemento de suspensão da realidade que se perdeu do Fantasma de hoje. Retomou uma octanagem e fantasia que se perdeu desde o tempo em que Kit Walker enfrentava os Piratas de Singh. Não é uma obra de arte - como eu disse tem lá seus problemas sérios. É uma aventura inconseqüente e desmiolada - mas, tenho que reconhecer, muito divertida. Levando em conta que há muito, mas MUITO tempo, o Fantasma não é sinônimo de diversão...

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