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O Público Alvo de Qualquer Coisa?
PARTE 1
Já que estamos falando nas últimas semanas, direta ou
indiretamente, de títulos de fantasia, vale uma notinha que deve ter passado
desapercebida a muita gente: A revista Tolkien chegou ao número onze.
Para quem está fora do assunto: A Tolkien é uma revista
dedicada à obra de um único autor: Jean Reuel Roland Tolkien, conhecido melhor
por nós como o autor de "O Senhor dos Anéis", além de "O Hobbit" e "O
Silmarillion". Impossível não ter ouvido falar dele ou de sua obra após os dois
blockbusters que tomaram de assalto os cinemas.
O que chama a atenção é justamente isso: uma revista para um
público EXTREMAMENTE dirigido chegar ao número onze quando várias revistas de
público teoricamente mais amplo não passam do número dois. No entanto, eu duvido
que ela venda exclusivamente para fãs do autor.
Quem seriam os fãs POTENCIAIS dessa revista além dos fãs de
carteirinha, que sabem falar élfico tolkieniano e que não fazem número? Bom...
eu diria fãs de fantasia, que já são um adendo a mais; jogadores de rpg(se eles
sustentam a Dragão Brasil, porque não a Tolkien?), e, porque não? Adolescentes
que gostam de bandas de metal melódico ao estilo Rhapsody(leia-se: trilha sonora
para matar dragões). Levando em conta que várias revistas com um público
teoricamente mais amplo não passam do número 2 ou 3, é impressionante. E não é
uma revista de fantasia medieval geral, embora tenham feito uma boa matéria
sobre as Cavalhadas de Guarapuva. Não é nem uma revista de fantasia, pura e
simples. É Tolkien. Só Tolkien.
Aqui pergunto: o fato dele ser um produto TÃO dirigido não
faz com que seja justamente este o seu trunfo? Quando você se projeta para um
público reduzido, precisa de um esquema de distribuição eficiente o suficiente
para que uma tiragem tão pequena possa chegar ao seu público, mas sempre há uma
margem acima, que retorna na forma de encalhe. Ora, os primeiros números da
Tolkien chegavam a desaparecer nas bancas...
Tiragens pequenas, infelizmente, só funcionam quando o
retorno é garantido. Quando você tem certeza de que tudo ou quase tudo irá ser
comprado. E é difícil imaginar que isso aconteça sem grandes divulgações - se
bem que quer divulgação melhor do que o sucesso do filme? Talvez a revista só
tenha que se preocupar realmente com seu futuro quando os filmes estiverem todos
prontos, exibidos e com DVDs à disposição de todo mundo. E ninguém tenha
verdadeiramente interesse em filmar "O Hobbit" tão cedo.
Já aconteceu antes. Lembram da explosão de revistas sobre
anime nas bancas, enquanto Cavaleiros estava no ar? Bom, mesmo que cavaleiros
crie um novo "boom" em sua reexibição, o que duvido - na verdade, ele periga ser
o fecho de um ciclo - dificilmente as revistas de anime voltarão a ter gás como
tiveram antes, quando cavaleiros era o ÚNICO anime no ar. E tenho um palpite:
elas tentarão.
E tentar não é conseguir. Vai depender de uma coisa: que os
garotos de hoje aceitem uma animação que em seu tempo já era velha. Porque quem
fez o sucesso dos cavaleiros não foi a horda de otakus fantasiados em eventos.
Foram os garotos de dez anos, que em tese são o verdadeiro público alvo de uma
série como essas.
Cavaleiros é uma série de grande público, não alimento para
fãs de carteirinha. E é algo chato de se dizer, mas a maior parte das séries de
mangá queridinhas de um monte de gente tem potencial limitado com o grande
público.
Eu não seria maluco de trazer, por exemplo, Steam Detectives
do Kia Asamiya. Este é um dos meus favoritos, e é por isso mesmo que eu estou
citando essa série. É juvenil por excelência mas tem seus fanservices(e isso
descredencia o material para um público mais jovem, por exemplo). Tem elementos
que poderiam atrair o grande público mais jovem mas os elementos otaku também
estão lá(cosplayers, tremei!). Tem uma estrutura episódica que afasta certa ala
dos fãs hardcore que preferem histórias fechadas, mas se vale de um ambiente
retrô que pode funcionar como repelente para as gerações mais novas e
"descoladas" que querem ler algo com sua cara, não guardar sua revista na
estante. Fica a pergunta: essa série vai vender para QUEM além de mim, que
assumidamente gosto do material?
Sem saber como dirigir isso para um pequeno público, como se
pode arriscar uma tiragem pequena?
Sem ter como atingir o grande público, como se pode arriscar
uma tiragem grande?
Pode-se dizer que qualquer coisa pode ser publicada, e que o
mercado comporta todos os gêneros. Infelizmente isso não é verdade. Tudo é uma
questão de terreno a ser plantado. Seria preciso uma carreata de séries de mecha
após a exibição de Robotech(Eu disse ROBOTECH, aquela exibida pela Globo, não
Guerra das Galáxias - o Macross Original exibido pela Gazeta), para citar um
exemplo, para que se criasse uma "cultura mecha" no Brasil. Teríamos que ter
tido uma série como o Gundam original após Patrulha Estelar para associarmos
animes a ficção científica na cabeça de fãs do gênero que, após Cavaleiros do
Zodíaco e similares, não vão querer saber de "desenho japonês". Teríamos que ter
tido muita coisa para sedimentar a idéia de que esses são materiais de consumo
para grande público. E infelizmente não foi isso que aconteceu.
No momento, anime e mangá são produtos para públicos
dirigidos. E até que isso mude vai levar bastante tempo.
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Mudando de assunto por completo: minha dica de leitura da
semana fica fora do âmbito do Mangá. 40 anos da Revista Tio Patinhas, volume um,
cinco reais e trinta centavos, Abril. O legal dessa versão da ascensão de
Patinhas da pobreza à riqueza através de trabalho duro, sob a batuta do
excepcional Don Rosa, não é seu traço meticuloso nem as revelações familiares
baseadas em dados pinçados das antigas histórias Disney(e acreditem, a mãe do
Donald é uma figura). O mais espantoso é ver como a história, se descontarmos a
cara de pato e o tratamento jocoso dado às situações, na verdade é um drama que,
se pensarmos bem, deveria nos levar às lágrimas. O aprendizado de Patinhas na
vida na verdade é um grande compêndio das pequenas grandes maldades humanas, e
finalmente temos uma história à altura do grande personagem que ele é. Se
pensarmos bem, qualquer um na posição dele se tornaria rabugento, avarento e
possessivo com o passar dos anos. E solitário. Muito solitário.
Até a próxima,
Alexander Lancaster(lordlancaster@hotmail.com)