Anime Pró»»Canais»»Colunas»»Tower of Strenght


O começo de tudo!
PARTE 1

    O que é um paradigma? Segundo aquele bom e velho livrinho cheio de letras miúdas, paradigma(do grego "paradeigma"), pode ser definido como: 1) Modelo, padrão, norma, exemplo. 2)...
    Bom, os exemplos dois e três são exemplos gramaticais. Mas se o item número um pode ser usado como sinônimo de precedente para uma situação posterior possível que possa ser aplicada, ela se encaixa como uma luva a Holy Avenger: Quarenta números. Uma série de RPG, em três sistemas de jogo diferentes, com público fiel. Dois spin-offs (Dado Selvagem, mais infantil, Holy Avenger Especial, que surge como uma espécie de volume zero da saga, e Dungeon Crawler, que ainda está no começo). Um exemplo de história em quadrinhos longeva, visando um público não-infantil, ligada a um produto associado... um sinal que mesmo em pequena escala, as coisas podem dar certo - e partir para uma escala maior, BEM maior.
    É fato que Holy Avenger, em seu término, tem uma importância fundamental e até histórica - é a prova de que uma publicação pode alcançar uma grande numeração no país, mesmo sendo de uma editora pequena. Claro, eu citei o Judoka de Eduardo Baron como outro exemplo de longevidade editorial, mas ele tinha por trás uma das maiores editoras de seu tempo. Sim, a Ebal era uma grande editora, e especializada em quadrinhos, num tempo em que as pessoas não tinham computadores e videogames para competir com as revistas no uso de seu tempo. Ela publicou Marvel e DC, e ajudou a cristalizar a primeira no Brasil quando Homem-Aranha e Quarteto Fantástico eram novidades. Publicava séries italianas de faroeste bem-sucedidas, como "História do Oeste", material de editoras como a Dell e a Charlton(foi por causa do cancelamento de uma série curta mas que no Brasil foi bem-sucedida, Judomaster, que foi criado às pressas o Judoka para aproveitar as boas vendagens). Holy Avenger, por outro lado, começou dando prejuízo. Levou tempo até que a revista começasse a se pagar. Tempo de aprendizado para todos os envolvidos e tempo para que a revista começasse a ser vista com melhores olhos - a declaração do editor Sidney Gusman(www.universohq.com) presente no último número da revista é um exemplo disso.

    Nesse sentido, mais uma vez, Holy Avenger é um exemplo - segurar as pontas até que a revista achasse seu nicho de mercado pode compensar tudo no final, aliás. No entanto, avaliar a série como um todo é uma tarefa difícil. Eu estou com todas as edições aqui em mãos. Todas. Não fiz questão de ter os encadernados - uma coisa que eu pude notar é que a série aparentemente não foi pensada em relação a eles. Isso pode ou não ser um defeito, e não vem ao caso num primeiro momento, uma vez que os encadernados aqui são acessórios à série, e não o contrário(que só faria diferença em mercados onde encadernados tem força, como o japonês e mesmo o americano, onde tanto os mangás quanto séries como o extraordinário Bone, de Jeff Smith, tem melhores vendagens em seus trade paperbacks do que em suas séries regulares - quando as há, no caso dos mangás).
    Uma vez que muitas coisas acontecem em Holy Avenger, para o bem e para o mal, eu decidi começar minha leitura da mesma forma que começamos uma história: do princípio. E se preparem, porque essa coluna vai ser grande.


Os primeiros números
    A primeira coisa que salta aos olhos ao rever os primeiros números após a publicação do último capítulo é que tanto a arte final de Érica Awano quanto o colorido empregado eram relativamente grosseiros, revendo bem. Compreensível. Awano trazia consigo um fandom construído na época da finada revista Animax mas só tinha duas histórias publicadas em seu currículo: uma na revista Megaman, a outra(já com um traço melhor acabado) na revista Hypercomix. Ambas publicadas pela editora Magnum. Ambas extintas. Na época, não haviam mangás originais publicados nas bancas, mas haviam vários leitores desesperados para pôr as mãos em tal tipo de material, tendo seu gosto despertado pelas inúmeras revistas de anime e mangá que pipocavam na ocasião. Juntando isso com o fandom do universo de RPG costurado a partir de diversos elementos esparsos publicados por anos na revista Dragão Brasil, tinha-se um ponto de partida, em termos de público potencial, para começar a empreitada.

    E o primeiro número é eficiente, olhando em retrospectiva. Cassaro em primeiro lugar, não tentou fazer mangá ao escrever. Não no começo. E fez uma escolha acertada. Leitor de comics que é, ele aproveitou deles uma narrativa enxuta e objetiva que é talvez a maior característica típica do quadrinho americano. Se repararmos bem, os personagens eram bem diferentes do que se tornaram(Sandro era tudo, menos burro-burro-burro), e a história corre redondinha até o final do primeiro capítulo.

    A arte de Awano por sua vez cumpre sua tarefa a contento, mas é só - e isso já era muito bom: se o começo não é nenhuma obra prima da arte, ao menos está apresentável, e isso é muito importante(Apesar da primeira coisa que eu tenha notado, nessa mesma época, tenha sido a completa ausência de pessoas velhas ou feias na multidão presente no primeiro número de Holy Avenger. E não fui o único - um amigo meu, brincando, perguntou se aquele era o passado do mundo de "Malhação"...). Há uma diferença entre um artista iniciante e um artista amador. Outras editoras tentaram apostar em várias coletâneas de histórias avulsas, e isso nunca deu muito certo. Porque muitas vezes o nível apresentado era dolorosamente amador. Meros fanzines vendidos em bancas.

    O iniciante ainda não maturou sua técnica, mas carrega as noções básicas de anatomia, perspectiva, arte-final e composição que todo desenhista deve carregar antes de se aventurar num projeto profissional. O que molda o estilo final de um desenhista é justamente sua produção, quando ele vence o desafio dos prazos, seu traço adquire segurança e por fim pode ser visto como um bom ou mau artista, quando a sombra de "estar começando" já se foi embora. Érica Awano era uma iniciante quando começou, e por isso podemos relevar quaisquer pecadilhos(dos primeiros números, bom dizer). Hoje, com quarenta números no currículo, ela não é mais - podem ter certeza.

Avançar >>