Anime Pró»»Canais»»Colunas»»Tower of Strenght
O Gibi, esse
incompreendido!
PARTE 1
Nos tempos
da saudosa Wizard brasileira (tá, para não dizer que tudo são flores: "obrigado"
por falar de Carlos Zéfiro e Druuna, gerando piadinhas da Wizard original e
ajudando a melar um pouquinho mais a reputação dos brasileiros como "O povo que
só pensa 'naquilo'), sempre que alguém chegava e dizia "eu gosto muito de
gibis", lá vinha a bem-humorada trupe que respondia as cartas, e que era um dos
maiores baratos da revista, para desancar o coitado. "Gibi é doce de amendoim."
Tá. Moro fora de São Paulo e portanto nunca ouvi falar disso.
Acho que eles estavam falando da paçoca, mas não é de diferenças regionais que
eu estou falando.
O que falo é do enorme desprezo ao termo "gibi". Termo que é
tão nosso quanto mangá no Japão, comics nos Estados Unidos, fumetti na Itália,
bande desinée na França... por outro lado, esse desprezo é compreensível por
definir uma mídia ou um formato em si sem definir um estilo associado ao
formato(pense nos fumetti, para que não fiquemos num formato convencional como o
mangá ou os comics: sempre que falamos em fumetti, por exemplo, pensamos em
formato de bolso, lombada quadrada, umas cem páginas mais ou menos, preto e
branco, traço ultra-anatômico com claro-escuros e papel-jornal. Temos Tex, Ken
Parker, Nathan Never, Nick Rider , Mágico Vento e companhia para sedimentar isso
em nossas cabeças). Não existe um "estilo gibi", e pessoalmente, acho que ainda
estamos num estágio onde é cedo demais para se falar nisso.
No entanto, para que cheguemos a esse "estilo gibi" um dia,
no sentido de pegarmos uma história em quadrinhos brasileira e associarmos gibi
a quadrinhos brasileiros, sem preconceitos inúteis, é bom pensarmos COMO esses
quadrinhos serão publicados.
*******************
Como formato, o que é o gibi? Basicamente é o que chamamos de
formatinho, mas isso se tornou aplicável como sinônimo para os quadrinhos em
geral por causa da revista que lançou o nome, "O Gibi". Gibi se não me engano
era sinônimo de garoto, de moleque, de fedelho, de piá.
Gibi também era associado ao simpaticíssimo garoto negro que
era o mascote da revista. Nos anos setenta, veio o lendário "Gibi Semanal", onde
podíamos ver os clássicos dos quadrinhos num formato de jornal, semanalmente.
Maldita a hora em que essa revista foi cancelada. Uma revista que trazia tanto
novidades da época(como um dos meus favoritos, a hoje esquecida série britânica
"Os Panteras" - Nada a ver com AS Panteras) quanto trabalhos clássicos de Will
Eisner, Milton Caniff, Alex Raymond... clássico e moderno, americanos e
europeus(e do jeito que a revista era aberta, duvido que esse leque não
incluísse os japoneses nos dias de hoje), todos sob um mesmo teto.
Ironicamente, o Gibi Semanal não vinha no formato gibi. Esse
papel foi desempenhado por outra revista da mesma equipe, o Gibi Mensal, que
seguia a mesma linha editorial, mas era dedicado a um personagem por mês.
Gibi se tornou um sinônimo para os quadrinhos por aqui da
mesma forma que os comics e os mangás se tornaram nos estados unidos. Alguns
artistas mais sérios tentaram chamar seu trabalho de gegika(há quem possa me
traduzir isso de forma mais acurada, mas se não me engano mangá vem de "desenhos
irresponsáveis", enquanto gegika seria algo como "desenhos dramáticos" - aceito
esclarecimentos). Não importa: no fim esse nome se tornou a definição para mais
um estilo da vasta estética que é o mangá, com seus shonen, shoujos, e várias
subdivisões internas. Para o público japonês, mangá é mangá e acabou-se.
Comics vem da natureza "cômica" das primeiras tiras de
quadrinhos americanas(comic strips), e que definiria sua seção nos jornais.
Comic Book(revista em quadrinhos) é quase uma decorrência disso. Para que se
tenha uma idéia do grau de desassociação que o termo viria a adquirir: quando
foi apresentada a tira cômica "Tereré"("Oaky Doaks", de Ralph Fuller) para a
Associated Press, o comentário do editor foi "Finalmente conseguimos um 'Comic'
que é cômico".
Aqui lemos gibis, obrigado. Gibis de heróis, gibis japoneses,
mas gibis. Credito essa repulsa ao termo, aliás, a uma necessidade de
respeitabilidade que seria melhor empregada num esforço por popularidade ampla e
COTIDIANA. São "quadrinhos", antes de mais nada, e pessoalmente acho que
quadrinhos é uma definição melhor do que as usadas em outros países. Comics
esbarra no fato de que nem tudo nos quadrinhos é cômico. Fumetti se refere ao
balão, que na Itália seria mais comparado com uma fumaça - mas mesmo um cartum
pode ter um balão de diálogo e não ser um quadrinho, além de nem toda história
em quadrinhos precisar de balões, como o Príncipe Valente... ou o mangá Gon.
Mangá esbarra até na própria existência do Gegika para que a definição literal
não seja perfeita, se a explicação que eu dei anteriormente estava
certa. Mesmo a definição lusitana("Quadradinhos"), a nível literal, esbarra na
multiplicidade de formas que um quadro pode ter sem deixar de ser um quadro.
Aqui, acertamos na mosca(sem ufanismo): O que temos é uma
história contada em pequenos quadros. Portanto, histórias em quadrinhos - e
reduzindo, quadrinhos. Mas mangá é mangá, comic books são comic books - e já
passou da hora de deixarmos de ser crianças, tentando brigar por uma aura de
adulta, e aceitarmos que o que vale é o que está no coração do povo. Os gibis
podem não estar lá ainda, e isso é coisa que tem que ser feita no conteúdo de
nossa produção, mas o termo já está lá.
*******************
Vamos aos aspectos práticos do gibi como formato - e todo
formato nasce de algum tipo de conveniência. Não é difícil chegar ao "formato
americano" que batiza o tamanho usado pelos comics aqui no Brasil. Basta pegar
um jornal americano e dobrá-lo em quatro. Acabou. Não por acaso, antes da Image
Comics ter mudado para sempre o padrão de impressão e colorização nos quadrinhos
- e esse é o seu único e maior mérito - as revistas eram impressas num papel
jornal para lá de vagabundo. É uma herança natural das origens do formato. As
cores chapadas que passaram a marcar os super-heróis também o foram. Cores
primárias tendem a ser mais vibrantes e funcionar melhor em papéis de qualidade
inferior.
O formato gibi até hoje existe em gráficas, sob este nome -
para vocês terem uma idéia do quanto ele foi usado. Geralmente não há uma medida
muito clara, mas ele raramente escapa de uma margem de um centímetro de
diferença - comparem os gibis antigos da velha RGE com o formatinho usado pela
Abril nos seus anos de ouro com a Marvel.
Avançar >>