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Nada de novo sob o Sol

Já estão chegando os primeiros trailers de Steam Boy, de Katsuhiro Otomo. Algo me diz que será ótimo. E algo me deixa profundamente chateado: a premissa desse longa lembra muito um conceito pessoal meu que está na gaveta. Isso é muito comum. O hiato de tempo entre uma idéia e sua execução dá margem a coisas como essa: toda criação pode ocorrer ao mesmo tempo em outro lugar, e quando vier a tona, pode sofrer com a comparação. Uma história que ouvi sobre o medonho Futaba-kun Change, que lembra MUITO em conceito a premissa de Ranma, é que o conceito teria surgido antes e sido reprovado pelos editores. O autor então apresentou um conceito convencional(Yuu and Me, sobre um rapaz que tem que conviver com uma bela fantasma) e só pôde publicar sua história de rapaz que muda de sexo inconvenientemente APÓS Ranma estar no ar e nas prensas.

Não sei se isso é verdade, e por isso posso estar errado, mas é algo plenamente plausível. Futaba-Kun Change, na minha humilde opinião, é RUIM. Não sobreviveria a comparação por um quesito de qualidade. Mas eu não deixo de expressar minha simpatia pelo autor. É uma situação difícil, mais comum do que se gostaria, e que deixa a qualquer um frustrado.

Além do mais, a busca por originalidade sempre costuma dar dor de cabeça. Isso acontece porque se pensarmos bem, a maior parte do conjunto de todas as histórias parte de uma meia dúzia de conceitos comuns. Muita gente que jamais viu Nadia na vida se apressou em defender a série da cópia que a Disney teria feito com Atlantis. O problema é que ambas - e aqui incluiríamos tanto estas quanto Laputa, de Hayao Miyazaki, ou mesmo Steam Boy a julgar por sua premissa - pertencem a um gênero que se ancora em meia dúzia de conceitos que se repetem desde os livros de Verne, Wells e outros autores contemporâneos de menos monta. Atlantis lembra a mim menos Nadia do que o primeiro - e bom, na minha humilde opinião - longa de Stargate. Que por sua vez é uma reciclagem sci-fi de todas aquelas histórias de civilização perdida no meio de uma selva ou numa caverna subterrânea. Comparem o personagem de James Spader com o professor Milo Thatcher dublado por Michael J. Fox.

A Disney, por sua vez, se parece suspeita por alguns character designs, não pode ser acusada em relação ao roteiro. Isso acontece porque no final dos anos quarenta, a Inglaterra baixou uma lei que exigia que o dinheiro arrecadado por uma empresa estrangeira fosse reinvestido no próprio país. E a Inglaterra, ainda sob uma dolorosa reconstrução pós-guerra, vivia a nostalgia dos tempos onde ela era "a dona do mundo". Isso fez que a Disney, que sempre teve público cativo por lá, tivesse que criar uma divisão local - e dela saíssem tanto coisas como Mary Poppins quanto... aventuras vitorianas como "Vinte Mil Léguas Submarinas" e "A Ilha no Topo do Mundo"(com o qual, se pensarmos bem, Atlantis e até Stargate - que como eu disse bebe direto da fonte - são mais parecidos do que Nadia). Ironicamente, é mais provável que a Gainax tenha bebido da fonte da Disney do que o contrário. E certamente a Gainax bebeu bastante de Laputa - de forma mais visível do que Atlantis poderia ser em relação à série japonesa. E isso não depõe nem um pouco contra a Gainax. Há semelhanças, sim, principalmente no começo, mas também há diferenças o suficiente para que Nadia não possa ser chamada maldosamente de "Laputa TV".

Talvez o que conte no fim das contas seja COMO se lida com esses dados. Um dos pontos mais complicados quando se olham premissas de jovens autores é simplesmente o fato de que elas são uma reprise muitas vezes disfarçada de histórias de outras pessoas. Já vi coisas assustadoras nesse sentido. O fato é que quanto mais simples é o conceito, menor a cobrança que ele sofrerá - porque há conceitos que são repetidos sem culpa. Não há muito o que se culpar quando operamos sob a diretriz básica da Jornada do Herói que se repete até nas mitologias de diversas culturas(leitura obrigatória sobre o assunto: O Herói de Mil Faces, Joseph Campbell. Não poderia falar desse
tópico sem tocar nesse livro). O que poderíamos caracterizar como cópia na verdade ocorreria nos detalhes.

É injusto cobrar originalidade numa história quando ela não existe. Pouca gente lembra de Zeorymer e muita gente tece loas a Neon Genesis Evangelion. Mas olhem bem a história... Garoto adolescente angustiado, rejeitado pelos que os criaram, criado geneticamente(sem o saber) desde o nascimento para ser piloto de um robô gigante feito sob medida, acompanhado de uma garota sintética, e de quebra o verdadeiro vilão da história é o próprio pai malvado que o colocou nessa situação e manipulou a todos desde o começo? Bom lembrar que apesar do ano do copyright na fita nacional ser 1995, a série é de 1988(anterior a Eva, e pensando bem, anterior até mesmo a Nadia).

Por outro lado, a julgar pelo anime, Rahxephon, que é um clone para lá de assumido de Eva, me parece muito mais interessante e melhor resolvido do que a série que a inspirou - acredito ter dito isso em alguma coluna anterior, e se estou me repetindo, me perdoem. Mas o fato de ser similar demais ainda o faz perder pontos. Sempre é assim(se bem que às vezes acredito que os japoneses não tem memória - basta lembrar da Lei Shurato de Abiogênese Mangática, onde o sucesso de uma série é medido pelo número de clones que ela é capaz de gerar, e eventualmente fazer mais sucesso do que sua série matriz). Talvez a chave do sucesso seja aproveitar o momento em que algo dá certo e tentar apresentar, dentro de uma premissa, novas abordagens dentro de um gênero. Ser diferente ao se comparar com um igual. Porque tudo é uma questão de momento.

E quanto a mim? Vou esperar Steam Boy ansiosamente. E eu sei que dificilmente eu respirarei aliviado no fim da seção como eu respirei com Atlantis.

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Não tem exatamente a ver com o que estou falando, mas eu precisava aproveitar o gancho: o troféu Masami Kurumada de Originalidade este mês vai para Ken Akamatsu, pela história publicada na edição 25(nacional) de Love Hina. Simplesmente ele repetiu, de forma muito mal disfarçada, a MESMA história publicada nas edições dezessete e dezoito. Reciclar temas é uma coisa. Mas copiar a si mesmo dessa forma...
Até a próxima!

Alexander Lancaster ( lordlancaster@hotmail.com )