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Cinema, Quadrinhos, Cultura de massas
ANo meio de toda a confusão
sobre as novas diretrizes da política cultural do governo nos jornais, encampada
por gente como Cacá Diegues e Arnaldo Jabor, o que me vem a mente - e que resume
a diferença entre os velhos parasitas do cinema nacional, que vivem do erário do
estado, e a nova geração de cineastas que lutam contra a ideologia das viúvas de
Gláuber Rocha, tentando estabelecer um nicho verdadeiro no mercado - foi a
entrevista com o Babenco(Carandiru) e o Meirelles(Cidade de Deus) juntos na
Folha Ilustrada. O Meirelles disse que sempre filma pensando no publico e no que
ele vai achar. E ele perguntou pro Babenco se ele tinha essa preocupação.
Babenco disse que não. Não conseguia fazer isso. Na verdade nem se preocupa.
Sinceramente, com esse respeito ao público, é melhor que ele vá fazer vídeo
caseiro. Mas esse tipo de visão é recorrente entre todos esses cineastas que vem
apoiados pelas antigas regras. Não sou de puxar saco de governo nenhum, mas uma
vez que eles são responsáveis pelo dinheiro que cai na mão dessa gente, será que
eles não tem direito a nenhum tipo de interferência ou retorno, COMO QUALQUER
PRODUTOR?
Um cineasta, assim como um quadrinhista, depende de retorno de público. Os
japoneses não fazem pesquisas sobre quais séries agradam ou deixam de agradar
nas suas revistas semanais à toa. Os quadrinhistas sabem que seu sustento
depende da resposta do público. E em qualquer lugar do mundo onde uma mídia se
sustenta por si só, quem está por trás dela é uma lógica de mercado.
Talvez o melhor exemplo da necessidade de uma produção cultural de mercado seja
o atual cinema francês. Creio que todos os 17 leitores brasileiros da Cahiers du
Cinema - a revista que serviu de plataforma ideológica para a Nouvelle Vague -
odeiam um sujeito chamado Luc Besson, o mesmo de Nikita e O Quinto Elemento. Só
para que não digam que eu não explico nada do que cito: Nouvelle Vague é aquela
estética cinematográfica tediosa que me fez pensar que cinema francês só servia
para se fazer passar por inteligente para tentar transar com mulheres que gostam
de parecer mais inteligentes do que são - e isso nos anos sessenta - até que eu
descobri que existia gente como Jean Cocteau e Jean Renoir, notadamente ANTES de
picaretas como Godard aparecerem. Os cineastas franceses, para fazer seus dramas
intimistas morosos, chegaram a defender subsídios governamentais para se
proteger do "imperialismo americano". Por mais que pintasse de vez em quando um
filme como Adorável Gozador(com roteiro do mesmo Goscinny de Asterix) ou O
Magnífico(com Jean Paul Belmondo), cinema francês era sinônimo de crítico feliz
e público correndo para os filmes com Arnold Schwarznegger na sala de cinema ao
lado.
Bobagem. A existência de um Luc Besson, que por acaso é odiado pela crítica
"séria" francesa - ele é meio que visto como uma espécie de traidor - mais o
fato de que ele sempre conseguiu levar o público às salas de projeção, provou
que há uma verdadeira viabilidade de um cinema comercial na França. E vieram
filmes como "Rios Vermelhos"(adequado a quem gosta de filmes como "Seven - os
Sete Pecados Capitais") e "O Fabuloso Destino de Amélie Poulain"(que é um
daqueles filmes perfeitos para se levar a namorada). Independente de como foram
produzidos, eles são filmes que não se pretendem "de arte". São filmes simples,
de apelo popular e muito bons no que se propõem. Aqui, filme popular é Xuxa,
metade de criaturas que aparecem nos programas da Globo e que nem de longe podem
ser considerados atores, e o resultado final só pode ser lixo. E, naturalmente,
é interessante para os nossos cineastas sérios que a idéia de um cinema de
massas seja associada a esse tipo de lixo. Porque assim eles não terão
competição na sua "seriedade".
Já a França agora compete de igual para igual com os americanos no mercado
interno - sem precisar de subsídios ou leis protetoras - porque perceberam que é
necessário se falar com o público e respeitá-lo. Coisa que enche de calombos os
Babencos, Jabores e Diegues do Brasil.
E nós? Bom, precisamos de um senso de comercialidade. Seja nos quadrinhos, seja
no cinema. Mesmo Babenco, com sua mentalidade de teia de aranha, se valeu do
marketing de uma Globo Filmes para atrair público ao cinema. Iniciativas não
faltam - na verdade, elas nunca faltam; o problema é fazê-la ir para a frente.
Um projeto interessante em sua natureza pode ser visto em http://www.projetodragao.com/trailersweb/dragaoWeb640.wmv
- e pouco importa que o site seja feio. É alguém tentando fazer ficção
científica(mais ainda: uma história no gênero tão supostamente japonês dos
"mechas" - e digo supostamente porque NENHUM gênero pertence a nenhum país.
Acreditem em mim) num país onde se martela que o assunto nada tem a ver com a
gente - porque o que é "brasileiro" é a pobreza, embora não se diga isso
abertamente.
Joãozinho trinta foi brilhante ao dizer que "pobre gosta de luxo; quem gosta de
miséria é intelectual". Mas eu ampliaria isso: quem consome, de verdade, é a
classe média. E nem ela gosta de pobreza. Já basta a que o cerca.
Talvez nisso nós, que gostamos de quadrinhos ou queremos consumi-los estejamos
na frente dos demais. Nas nossas bancas, está se concluindo a saga de Holy
Avenger(sobre o qual quero falar melhor ASSIM QUE A SÉRIE ACABAR), e se
iniciando uma nova revista, a Dungeon Crawler(eu digo e repito: porque essa
insistência com nomes em inglês - ainda mais quando o nome é tão longo e pouco
memorizável para o público médio?).
O universo do mundo de Arton, firmado por esses dois títulos, é o vislumbre da
mentalidade de franquia que precisamos. Temos um produto básico(rpgs), que
inicia sua segunda série de quadrinhos. Muitos leitores pedem uma série animada
de Holy Avenger - e todos sabem que isso não é possível no momento. Animação,
como eu disse em uma coluna anterior, precisa de dinheiro e precisa render
dinheiro como franquia para retornar o investimento. Holy Avenger também se
beneficia do efeito Senhor dos Anéis. O gênero foi "descoberto" pelo grande
público e é natural que se queira ler mais e mais material do gênero - tanto nas
livrarias quanto nas bancas. Séries de fantasia como "Prydain" de Lloyd
Alexander estão sendo publicadas no Brasil, fortalecendo o que se tornou um novo
filão de público por aqui.
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