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O Vôo rasante do Robô Gigante

Apenas para fugir um pouco dos assuntos de sempre, ou seja, distribuição, mercado e público...

Recentemente chegou às bancas, nos números 11 e 12 de Gundam Wing - ao mesmo tempo que a série em questão encerra sem grande brilho sua carreira na Cartoon Network - uma side story do mesmo universo chamada G-Unit. Não tem uma grande arte nem um grande roteiro. Na verdade, Koichi Tokita tem problemas de ritmo, seus diálogos e sua arte são fracos, e fracos e fracos...

Mas G-Unit é divertido, embora não seja bom. E pensando bem é melhor - se olharmos para além dos defeitos da superfície - do que toda a série de Gundam Wing na televisão, que sempre que parecia começar a ter um rumo de história, tinha esse rumo bagunçado... para que no final não se tivesse contado realmente uma história, e sim se amontoado um monte de prelúdios para alguma coisa que não chegava. Tudo que restou foi uma batalha final e uma continuação forçada.

Gundam Wing, no entanto, chegou até nós com uma carga de fofocas plantada pela internet, sobre cenas que não existiam, personagens que não eram o que se pintava deles, e principalmente - e vou ser direto aqui - MUITA boiolagem. Apesar da presença do personagem Quatre Raberba Winner(reparem no sobrenome do meio... okay, okay, vou tentar segurar as piadas daqui para a frente), muito da tão propalada vida liberal dos cinco pilotos Gundam não passa, pura e simplesmente, de lenda.

O mais incrível é que se não fosse esse monte de bobagens plantadas na internet, provavelmente a série não teria feito tanto estrago lá fora. Falou-se MUITO - e nesse muito se inclui muita coisa que cai por terra após uma olhadinha na série. Baseadas em cenas MUITO vagas e que dificilmente forneceriam base para qualquer um fazer mau juízo de alguém(só para que se tenha uma idéia, a coisa que chega mais perto disso durante a série inteira é um clássico do "nada a ver": uma cena, totalmente deslocada de qualquer contexto - apenas surgiu do nada e acabou - onde Trowa toca flauta e Quatre toca violino. Sem a ajuda de Freud, no entanto, essa cena não quer dizer nada), as fãs construíram toda uma espécie bizarra de mitologia própria. No entanto, se a série nada confirma, nada também desmente. Tudo bem que não há base lógica para se enxergar um caso homossexual entre Duo e Heero(novamente, a única cena que poderia ser torcida para isso é uma cena besta: Duo, ao lado de Heero, olhando as estrelas, fala, fala e fala - e Heero diz: "Você não para de falar, não?" no melhor estilo "pô, não quebra o clima...").

Isso é o que foi definido por Alan Moore como desimaginação. Em Wing, ela aparece às vezes em UMA OU OUTRA cena durante toda a série, para alimentar doujinshis(fanzines) de todos os tipos. Isso na verdade não passa de marketing comercial. Em Love Hina, há uma cena exemplar: há uma insinuação clara de que Motoko teria sido ESTUPRADA pela irmã de Keitaro, disfarçada de Naru. E isso(que na verdade é, ou deveria ser, algo SÉRIO) foi tratado como uma mera piada que não durou mais do que poucas páginas...

... e de repente o fã de Love Hina vai escrever para mim dizendo que na verdade não foi nada disso, que eu é que tenho a mente suja, certo? "Devolva minha pureza" é parte da piada, certo?

PRONTO, SAIU EXATAMENTE COMO O PLANEJADO. Num momento em que a série estava sendo esticada desnecessariamente, se alimentam discussões inúteis que manterão a série viva na mente do público. A verdade é que JAMAIS SABEREMOS O QUE ACONTECEU ENTRE NANAKO E MOTOKO NO QUARTO. E para os doujinshis hentai, isso é ótimo. Porque eles alimentarão mais e mais a popularidade da série entre os que se interessam por isso. Os fãs da série que não gostarem da idéia poderão muito bem negar isso de pés juntos. Caracterização, em si é secundário ou funcional dependendo do ponto de vista: contanto que se continue metendo caraminhola na cabeça dos leitores, tudo vai bem - agora Love Hina(no momento em que está sendo publicado no Brasil) ataca com um falso incesto em potencial, para alimentar mais e mais a imaginação de jovens solitários que sonham estar cercados de Narus, Motokos, Shinobus e Kitsunes...

Reparem que nos dois casos, muda o alvo(homens com Love Hina, mulheres com Wing), e ele é executado de formas diferentes mas o procedimento por trás da ação é similar. A questão é... se isso funciona com os fãs, funciona necessariamente com o público de verdade? Gundam, a série original dos anos setenta, surgiu com intuito comercial - alia-se a produção de model kits à uma série para divulgá-los. Mas isso não é problema: dali surgiu uma história memorável de ficção científica, com personagens carismáticos e marcantes - tão marcantes, aliás, que a figura de um deles se tornou uma sombra sobre todas as séries que vieram depois(porque vocês acham que TODA série de Gundam tem que ter um ás mascarado?)

Gundam, no entanto, é uma série shonen, que nunca teve grande apelo ao público feminino. Bom lembrar que o otaku dos gundam clássicos tem mais a ver com o perfil do trekker. Gundam tem um quê de institucional. A primeira vez que eu vi uma série gundam, fiquei perdido com referências a Newtypes e coisas do tipo. Wing surgiu como a segunda tentativa de se alcançar públicos diferentes(G Gundam foi a primeira, feita para atingir um público mais infantil) - no caso o feminino. Usou-se a presença em massa de garotões para fazer a alegria das meninas, e com isso se mandou o roteiro às favas. Curiosamente, Gundam Seed conseguiu a unanimidade que Wing jamais teve: até
agora teve um roteiro de verdade(que conseguiu aplacar a ira dos fãs tradicionais, e deixou o elenco cheio de garotos com ar esquisito para as garotas que amam isso - até porque elas não ligam para roteiro mesmo).

Quanto a G-Unit, porque ele é mais divertido? Porque mesmo Koichi Tokita não tendo um bom trabalho, ele não se furtou a seguir a cartilha do roteirista feliz, mesmo com o kit-clichê e tudo o mais. Uma história não precisa ser original para ser divertida - eventualmente nem precisa ser brilhante, caso se execute sua intenção devidamente. E Tokita, desta vez, não errou nas duas edições publicadas aqui, mesmo dentro de suas limitações. Vale o dinheiro da compra.

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