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Quadrinhos, uma telenovela
Uma das leituras mais
interessantes que tenho tido ultimamente é um pequeno livro da coleção
princípios chamado "A TELENOVELA", de Samira Youssef Campedelli. Tem 96 páginas,
formato de bolso e o encontrei pegando mofo em uma papelaria. Não é um livro que
se propõe a esgotar um assunto, e sim a servir de introdução. Mas é muito útil
nesse sentido.
Porque eu estou falando nisso? Por um motivo simples: No Japão, a mesma função
social cumprida pela telenovela no Brasil é cumprida pelos mangás e animes. No
Japão, pessoas de todas as classes sociais, sexos e idades consomem mangás da
mesma forma que as pessoas, aqui no Brasil, consomem a telenovela.
Ambos são formatos que, no entanto, estão em crise. A crise do mangá/anime tem a
ver com fatores diferentes dos da Telenovela: No Japão, o meio parece padecer de
uma aparente crise criativa, onde os novos autores parecem meramente reciclar o
que veio antes - e num país que já deu ao mundo Hayao Miyazaki e Osamu Tezuka(e
até mesmo grandes artesãos pop como Masamune Shirow e Katsuhiro Otomo), a
existência de coisas como Samurai Deeper Kyo, Sorcerous Stabber Orphen e, mais
recentemente, Rahxephon(feitas para aproveitar o filão de séries de sucesso que
terminaram, no caso Samurai X, Slayers e Evangelion) é preocupante - antes se
reciclava obras arqueológicas, hoje se recicla o sucesso de ONTEM - e há o
risco, em alguns casos, de que seja até pelo desconhecimento do anteontem...
Além disso, os mangás e animes ainda tem que competir com os videogames, cada
vez mais impressionantes. Mais: a profusão de "Animes de Otaku" também é uma
bela trava ao crescimento, a medida que se deixa de procurar soluções criativas
de audiência e se cria coisas que não terão audiência prática, mas gerarão rios
de dinheiro em produtos assim mesmo desde que se mostre uma ninfeta e uma
calcinha.
Parece estranho que se ouça isso de minha parte, uma vez que muita gente
acredita que eu defenda o "dinheiro antes de tudo". Eu defendo a existência de
um MERCADO SÓLIDO NO BRASIL, que gere sustento para os que dele queiram viver, e
com um público fiel, disposto a comprar. E o Japão tem isso, talvez com mais
força do que em qualquer lugar do mundo. Quadrinhos e animação estão enraizados
em sua cultura pós-guerra, e por isso mesmo a situação atual é calamitosa. Falta
renovação na terra do sol nascente.
Ironicamente as telenovelas brasileiras também passam por uma crise de renovação
- e, principalmente, de bom-senso. Quando elas começaram, originariamente elas
eram um produto voltado ao mesmo público feminino, e tinha o formato básico das
novelas de rádio que por sua vez eram muito embasadas no molde da "Literatura
para Moças" da época. Os rapazes, por sua vez, tinham no rádio séries de
aventura que clonavam séries americanas como Zorro e O Sombra. Num comparativo
mais próximo às séries de mangá, seria como se nossa telenovela tivesse nascido
shoujo - e um shoujo típico dos anos setenta, com mocinhas louras, ambientações
de época românticas e exóticas. Vieram então duas novelas que mudaram tudo: a
primeira delas foi Beto Rockfeller, que introduziu um anti-herói trapaceiro que
não foi bem-visto nos primeiros capítulos - foi preciso criar uma motivação
"simpática"(mãe doente) para que o personagem fosse aceito e ganhasse
popularidade(detalhe: hoje o personagem não precisaria de mãe doente nenhuma, e
quanto mais ele sacaneasse um eventual personagem bonzinho, mais ele ficaria
popular. Ô país que nos tornamos...). O outro foi Irmãos Coragem, que subverteu
a natureza "feminina" da telenovela criando um faroeste repleto de ação,
tiroteios, e elementos folhetinescos que não fariam feio em nenhum capa-e-espada
do
Alexandre Dumas - e de quebra descobriu o poder do público interiorano, o mesmo
que levou Tex a completar quatrocentos números nas bancas.
Logo essas mudanças amadureceram para uma estrutura de programação dirigida onde
vários públicos eram atingidos. Estou transcrevendo os dados a seguir do livro
citado. Notem que isso dizia respeito aos anos setenta:
- Horário das seis da tarde, para os adolescentes, as domésticas, as donas de
casa, com adaptações da literatura romântica.
- Horário das sete, ainda para os adolescentes, as donas-de-casa e eventualmente
para a mulher que trabalha fora com histórias leves, românticas e temperadas com
algum humor(nota minha: nos anos oitenta esse espaço foi ocupado pela comédia).
- Horário das oito, dirigido para a mulher madura, para o marido, para a célula
familiar em geral, com histórias que enfoquem o dia-a-dia, os problemas
familiares, as grandes questões.
- Horário das dez, naturalmente seletivo, destinado a histórias experimentais.
Hoje no entanto, como até eu disse antes, o formato está em crise. O horário das
dez não existe mais. O resto foi relevado a um nível denominador comum que
repousa lá no chão - pode-se dizer que não existe mais segmentação de verdade. O
fim dessa segmentação repousa no infeliz sucesso da novela "A Viagem": Quando eu
vi o primeiro capítulo, percebi que tudo - aquela música brega, a abertura de
mau gosto, e uma novela que negou todo o avanço de um gênero em anos, a ponto de
atingir todas as classes sociais - apontava para um retrocesso. O denominador
comum passou a ser a dona-de-casa, que nem de longe é essa massa amorfa pintada
pelos cabeças atuais da globo. A maior prova disso pode ser apontada em duas
novelas que refletem essa crise - A Padroeira e O Beijo do Vampiro.
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