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A guerra e o mercado de quadrinhos 2

Um dos pontos pacíficos da produção cultural em tempos de guerra é que guerra só funciona como matéria prima de produção quando se há interesse nela - e o material funciona como apoio moral ou propaganda travestida de diversão. Uma olhadinha superficial nos momentos históricos em que isso aconteceu mostra que Inglaterra e Estados Unidos(que ironicamente desempenham hoje o mesmo papel de ameaça que seus adversários nos anos quarenta desempenharam) tiveram o seu boom de produção cultural na esteira da grande depressão(mais EUA do que Inglaterra). Na verdade, a própria "Era de Ouro" dos quadrinhos é fruto da depressão: numa época onde se tinha pouco
dinheiro, qualquer produção barata se torna um alívio. Tínhamos os quadrinhos, vendidos a dez centavos de dólar, as Pulp Magazines - conhecidas dessa forma por serem impressas em um papel de polpa de madeira muito vagabunda - e o rádio, que atingia a tudo e a todos.

Analisando os quadrinhos da época, se vê que a ordem do dia era escapismo puro e simples. Os inimigos eram ingênuos(o que dizer quando um dos inimigos do Lanterna Verde original era "o esportista", que assaltava bancos usando tacos de golfe?) e não tinham grandes comprometimentos políticos - até que veio a Segunda Grande Guerra e os super-heróis perderam sua inocência em termos. Mas se analisarmos friamente, nos países onde a guerra não afetou diretamente o cotidiano, AINDA se procurava fugir. É bom lembrar que os grandes filmes de Guerra vieram DEPOIS do fim da Segunda Guerra - e quem estava no auge eram os musicais.

Não foi à toa, aliás, que um musical ganhou o Oscar de melhor filme este ano - depois de um longo hiato onde se apregoou que o gênero estava morto e apenas deu um soluço de vida(Moulin Rouge). Ao mesmo tempo, no Japão, uma das mais sólidas franquias de ficção científica dos animes, Gundam, teve que apelar para uma situação sexual insinuada em horário impróprio, envolvendo seu protagonista adolescente, para levantar a audiência. Considerando que Gundam Seed estava conseguindo uma unanimidade que Gundam Wing jogou para o limbo, essa é a única explicação plausível nesses tempos de saturação causada pela guerra na tv - onde soldados, mesmo pilotando robôs gigantes, já existem em excesso. Não pensem que os executivos não sabiam o que poderia acontecer caso fosse exibida essa cena(que não teve nada além de Kira Yamato, o herói de quinze anos da vez, vestindo as calças na frente de uma coadjuvante da mesma faixa etária deitada na cama). Ninguém ali é burro.

O que se deduz em um cenário desses? Escapismo e nostalgia de tempos mais simples sempre retornam. É instintivo para um ser humano querer retornar ao útero quentinho e seguro em tempos de crise. E guerra não vai ter tanto apelo por pelo menos uns dez anos.

Eu já falei na coluna passada sobre como aproveitar esse momento para CRESCER, no momento imediato após a retração inevitável. Não sou adivinho nem tenho poderes psiônicos que me permitam ver o futuro(porque senão eu teria descoberto os números da próxima Sena Acumulada). Mas é evidente que temos a nosso favor, além de tudo isso, uma demanda de material que, por meia hora, mantenha o público médio longe da realidade. E por mais que o terreno seja fértil, há um fator novo que não existia nos tempos pós-depressão e pré-guerra: Televisão.

Antes que alguém se lembre do rádio, que entrava em todas as casas, temos que lembrar que o rádio não era uma mídia visual. Os quadrinhos cumpriam bem essa função tanto em preto e branco, toda manhã nas tiras de jornais, cotidianamente, quanto com as cores berrantes típicas da impressão daquele tempo na maioria das revistas.

O ser humano costuma reagir a estímulos visuais e nesse sentido, o rádio não representava ameaça. Muitas vezes, havia uma colaboratividade em que ambos se beneficiavam no processo. As séries em quadrinhos serviam de matéria prima para seriados de rádio da mesma forma que hoje alimentam franquias para cinema. Alimentavam seriados de televisão, mas numa época em que os filmes eram preto e branco, o apelo visual dos quadrinhos era irresistível.

Como podemos nos beneficiar quando temos que competir com uma mídia cara demais para que possamos nos beneficiar dela, e pior, entra na casa do espectador sem que ele tenha que caminhar para uma banca atrás dela?

Para começo de conversa: o problema de se contar muito com o público baseado na internet é que ele, por mais que tenha um mínimo de poder aquisitivo(ele tem um computador e tem que mantê-lo, e aí incluímos periféricos, programas não-adquiridos via pirataria e um eventual HD de onde pode sair fumaça), não corresponde a maioria da população - mesmo que à primeira vista não tenha leitores potenciais.

Uma perspectiva de recessão cria maior demanda de escapismo e ele tem que ser barato. A internet oferece isso(a editora americana Crossgen oferece um sistema de assinaturas para quadrinhos online muito barato, por exemplo), mas no Brasil, já se sabe que isso não funciona. Se lá fora há quem pague, aqui há uma mentalidade de que tudo tem que vir de graça na Internet - ou mais barato fora dela. Por isso, a pirataria campeia.

Enquanto a lei não desce o porrete sobre os camelódromos e não cerca a fronteira do Paraguai - e empresas legítimas como a Abril Music fecham as portas por conta dos prejuízos causados pela Pirataria - temos que parar para pensar o que se fazer. A Hant tentou vender suas revistas pelo sistema online, e foi um fracasso(pena, porque a julgar pelo primeiro número, Oiran começou bem e tinha tudo para ser MUITO bom). A solução forçosamente é a banca. Não há jeito.

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