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Nove pequenas considerações avulsas...
Eventualmente não se tem muito a dizer. É uma
consequência direta de se escrever semanalmente - chega uma hora onde você não
tem idéias muito claras. Por isso vou me limitar a pequenas considerações vagas
desta vez, ao invés de tentar me aprofundar em algum assunto em especial.
1) Num momento em que Victory é publicado nos Estados Unidos e um desenhista
brasileiro está prestes a publicar no Japão, fica a pergunta... porque não se
voltar ao Mercosul e a sua política de tarifas menores? Conceber um gibi
pensando em sua versão em espanhol para ser distribuída América Latina afora?
Lógico que sem qualidade não adianta. Quadrinho com traço de amador esforçado
mas ainda amador em bancas é perda de dinheiro. O produto tem que atender a um
leitor mais exigente. Caso contrário será rotulado de arremedo do gênero que
tentar emular.
2) Desvendando os Quadrinhos, de Scott McCloud, continua fora de catálogo - o
que é uma vergonha. Outrora publicado pela Makron Books, ainda funciona como uma
das mais espetaculares referências sobre o que são quadrinhos a nível de
narrativa. Para os fãs de mangá é particularmente precioso: nada escapa ao olhar
atencioso de McCloud, e entendemos o que faz do mangá o que é - e
definitivamente, não são os olhos grandes. O cara é sensacional.
3) Más notícias para "a mais longa saga dos quadrinhos nacionais": Holy Avenger
é ok, mas Judoka, o super-herói brasileiro dos anos setenta(que virou um obscuro
filme com Pedro Aguinaga e Elizângela, inclusive), teve mais de cinquenta
números, contra os quarenta que Holy Avenger terá completado no final. Portanto,
não chega a ser um recorde. Mas isso é insignificante: quarenta números não são
pouco. E duvido que alguém não tenha apresentado esse dado até agora em algum
lugar. Mas fica o registro.
4) Aproveitando a deixa... Holy Avenger, Dungeon Crawler, Sad Heaven, Ragnarok...
tirante Oiran, que deixou saudades apenas com um número, será que só vai se
produzir no Brasil material de fantasia? E com nomes em inglês(sim, eu sei que
Ragnarok não conta por ser de origem nórdica, mas para fins práticos é a mesma
coisa)? A impressão que se tem é que só existe um tipo de público no Brasil. E
nós sabemos que não é bem assim.
5) Love Hina acaba quando? E mais importante... que mangá a JBC irá colocar no
lugar dessa série que nunca foi uma das minhas favoritas, mas tinha lá seu
sentido, seu apelo e seu gancho para público - até que Keitaro passou na
faculdade e os editores originais ordenaram que a série continuasse de qualquer
jeito, pelo visto. Eu no fundo sempre fui a favor de que se substituísse uma
série por outra do mesmo gênero ou voltada ao mesmo público - um shoujo no lugar
de Sakura, uma história limítrofe de gênero no caso de Rayearth, uma história de
samurai no lugar de Kenshin quando ela acabar... mas como isso não parece estar
realmente acontecendo, eu sugiro logo Shaman King e Yu-Gi-Oh antes que a Conrad
seja mais rápida.
6) Ainda sobre Shaman King... um dos pontos mais legais da série é que ela
jamais vai se tornar totalmente estranha para nós. Fossem Yoh Asakura um baiano
filho-de-santo e Amidamaru um capoeirista que brigou com a polícia na década de
trinta, a série seria a mesma coisa. Séries com ganchos de identificação sempre
têm melhores chances comerciais do que as que carregam carga local até a medula.
Rurouni Kenshin e histórias de samurais em geral também funcionam porque sua
fórmula não é muito diferente do faroeste - que se pensarmos bem é
universal(Irmãos Coragem, o original, não aquela coisa que passou há poucos anos
atrás, é uma prova viva disso). Não é a toa que Maurício de Souza procura sempre
limar características locais demais nas histórias de seu estúdio.
7) Pensando bem, porque ninguém pensou num quadrinho de faroeste brucutu para
vender no interior que sustenta Tex há décadas? Se a idéia é fazer mangá... É só
vencer a tentação dos gotões e dos super deformed. Algo mais para Vagabond do
que para Samurai Deeper Kyo - desde que seja menos chato do que Vagabond, onde
os personagens tenham um rumo e a história não fique enrolando. E por melhor que
seja a arte, o leitor não sinta que perdeu seu dinheiro. Diversão é tudo.
8) Para mim é um mistério porque ainda ninguém trouxe o mangá do Ayrton Senna
aqui para o Brasil. Eu nunca fui um grande fã de automobilismo. Mas acho que
deve ser extremamente divertido ver a saga de Senna ser tratada com clichês de
shonen, tendo como grandes vilões Alain Prost e o nefando Jean-Marie Ballestre.
E mais, esse tipo de coisa teria público certo por aqui. Senna ainda é mito, mas
mitos não duram para sempre. Se houvesse sido feito um mangá sobre Pelé em 1972,
seria muito tarde para aproveitar a onda se o lançassem agora no Brasil. Ainda é
tempo para aproveitar a memória de Senna, antes que ele se torne alguma coisa
que os pais contarão para os
filhos - e estes não terão o menor interesse. Pergunte a um garoto de onze anos
quem é Emerson Fittipaldi.
9) Eu tenho que repassar esse link: www.discotecabasica.blogspot.com
Não é sobre mangá. É sobre música em geral e rock em particular. Entrem, vejam e
não deixem de ver as resenhas sobre discos antigos, com direito a
contextualização histórica e tudo mais. Aproveitem. Porque a vida não é feita só
de quadrinhos, e ficar só lendo as mesmas coisas acaba por emburrecer a gente.
Vão por mim.
Sem mais
Alexander Lancaster (
lordlancaster@hotmail.com )