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O Público, os fãs e as revistas de antologia

Uma das coisas que o brasileiro sempre consumiu bem foram revistas de antologia de quadrinhos. Os fanboys que faziam barulho nas seções de cartas da Abril, movidos por um preciosismo purista que, como todo purismo, é contraproducente para o leitor médio, sempre pressionaram(e acabaram conseguindo em vários casos) as editorias em prol do formato americano, com uma história por edição de preferência.

Leitor médio nem está aí para isso. Devemos muito à cultura quadrinhística brasileira ao chamado formatinho, ou "Formato Gibi", que é barato, prático, e ainda pode ser encontrado com esse nome nas gráficas. É natural que eu goste de abrir aquelas páginas imensas da Panini, onde os desenhos saltam aos olhos, mas comparem o ato físico de abrir uma revista dessas num ônibus com o ato de segurar um gibi tranquilamente em minha cadeira.

Mais ainda: quadrinho de grande público, em qualquer lugar do mundo, é leitura ligeira. Parem para pensar naqueles executivos que lêem os tijolões de mangá e deixam na sua cadeira do metrô, onde outras pessoas vão ler. Já fiz isso com quadrinhos que eu não gostei, e espero que alguma pessoa que tenha a tendência de gostar do que eu não gosto tenha lido. E os quadrinhos ganhem um novo leitor. O fato é: trinta e duas páginas para um leitor médio é pouco, muito pouco. Quando você termina, sente vontade de ler mais alguma coisa para passar o tempo.

Um dos campeões de longevidade nas bancas é Tex. Duvido que os leitores médios dessa coluna tenham se interessado em ler Tex em algum momento da vida, mas por um momento olhem as prateleiras de quadrinhos: Tex este mês chegou ao seu número... 400! E é difícil entre nós conhecer alguém que leia Tex. Mas Tex vende, para um público mais velho - e primordialmente localizado no Interior. Eu já viajei para lugares bem distantes na infância e encontrava Tex nas esperas de barbearias e dentistas, em lugares tão afastados entre si quanto o interior de São Paulo e a capital de Rondônia. E Tex é formatinho, e bem recheado de páginas. Garantia de tempo morto com tranquilidade - se você gosta de faroeste, claro.

Os mangás não são muito diferentes na forma em que são apresentados no Brasil. Cerca de cem páginas em média. Assim como Tex, não formam uma antologia na aparência. Mas se pensarmos bem, no Japão são publicados como antologia e republicados num espírito que conhecemos dos velhos Almanaques e Superalmanaques que eram publicados nos anos setenta e oitenta: a republicação de histórias, focadas num personagem só. Li Jack Kirby pela primeira vez na infância, através de um "Almanaque Os Quatro Fantásticos", lançado meio a toque de caixa na tentativa de aproveitar o lançamento daquele velho desenho da Hanna Barbera na televisão Brasileira.

Da mesma forma, os mangás no Brasil são publicados como uma espécie de antologia de um personagem só. No último número de Samurai X a sair em banca, não temos uma história de Kenshin. Temos CINCO. Ou melhor, cinco capítulos, devido a natureza estrutural da série. Será que se lançassem Samurai X a um capítulo por mês, o sucesso seria o mesmo?

Talvez sim, se ele viesse numa revista de antologia - talvez temática. Mas ela teria que ter um mix de sucessos garantidos. A única tentativa feita nesse sentido foi aquela mal-fadada revista onde estavam no mesmo bolo o nefando Bakuretsu Hunter, Geobreeders e outras de menor monta AINDA. Não adianta nada ter títulos ruins puxados por um material tão otaku por natureza quanto Bakuretsu, com seus protagonistas tarados, cenas de fanservice gratuito e um par de boiolas para fechar o bolo. Mas a idéia de antologia ainda vale.

Um formato LIGEIRAMENTE maior ajudaria a diferenciar uma antologia das séries, e talvez algum tipo de matéria de alcance de grande público ajudaria a revista a ter um apelo extra. Funciona no Japão - e Witch, que é mezzo quadrinhos, mezzo matérias de comportamento, prova que essa fórmula funciona por aqui também, e bem o suficiente para a revista entrar para o seleto clube das revistas adquiríveis por assinaturas - coisa que as Premiums da Abril jamais conseguiram.

Sobre a Premium, eu acho que cada fã de mangá no Brasil tem que acender uma vela aos responsáveis por sua implementação. Sem ela, o mercado talvez não tivesse tido a abertura para recebê-los.

A Premium foi um formato voltado para FÃ - os mesmos que tanto execraram o pobre formatinho por anos. Isso aconteceu em parte por um fator fora do controle da Abril: as HISTÓRIAS se voltaram para os fãs nos Estados Unidos. Eu sempre digo e torno a repetir: público é público, fã é fã, e o fã compra de qualquer maneira, enquanto o público precisa ser seduzido, cativado, e mantido num exercício editorial de diálogo contínuo. Como um relacionamento. Se os mangás fossem publicados no sentido de leitura em que todos os brasileiros foram ensinados a ler desde o tempo do C.A., os otakus COMPRARIAM DA MESMA FORMA, e não inventariam essa história de "autêntico mangá".

Mas mesmo invertidos(porque para nós, quem está invertido é o sentido de leitura original), eles vingaram por esse acaso da sorte: Com a linha premium, os quadrinhos da Abril se tornaram caros demais para o público médio que quer ler quadrinhos da mesma forma. Tudo se resume à opção disponível. E a opção disponível era lida "de forma esquisita". Mas no final o bolso manda no mundo. A Abril via suas revistas de R$ 9,90 sendo emparedadas entre um público fiel mas que nem sempre tinha esse dinheiro em mãos em um só momento, mesmo que gastasse mais do que isso em quadrinhos num mesmo mês. Samurai X nº1 custou R$ 2,90 e já havia sido exibido pela Globo. Não era um total desconhecido. A Abril tentou trazer o formatinho de volta, num movimento desesperado que disse tudo sobre o "enorme sucesso" da linha Premium apregoado por seus editores - mas já era tarde. Um quintal que havia sido seu por anos já havia sido tomado.

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