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O duro ponto da virada
Eu sou membro de uma Mailing List de Anime já antiga. Recentemente, um rapaz andou postando nela um thread para lá de sensacionalista("mais lama no Studio Gabia") e tentando provar que os DVDs que eles lançam em banca são produtos inferiores, sob a desculpa que "uns paulistas"(que mais tarde ele admitiu não saber quem são) "riparam o dvd de Vampire Princess Miyu e descobriram que o bitrate é baixo", fazendo questão de enfatizar o quanto o vcd pirata é muito superior. Não é a primeira vez que algo assim acontece.
Entre outras coisas, ele declarou que Ken
Akamatsu(Love Hina) havia dado apoio a pirataria simplesmente torcendo
inexplicavelmente um apelo de "se puderem ver minha série, por favor vejam"(a
desculpa é que, como egresso do meio fanboy, Akamatsu saberia muito bem como as
coisas funcionam). Foi duramente atacado em massa, por gente que sabe que os
produtos do Gabia são passíveis de crítica, sim, mas que também sabe que eles
merecem nosso apoio e toda crítica deve ser feita no sentido de fazer o mercado
evoluir, não de destruir as iniciativas que o fazem crescer.
Aqui cabem algumas considerações. Inicialmente mangá e anime eram coisas de um
gueto muito minúsculo. Falamos de fãs que freqüentavam associações mas não
tinham por onde crescer. Estavam sozinhos. Em seguida, veio Cavaleiros do
Zodíaco - gostem ou não, sem o sucesso estrondoso que essa série teve o gueto
continuaria invisível - e as conseqüentes revistas de informação superficial. As
revistas se popularizaram, se multiplicaram e com o tempo se tornaram um nicho
no mercado persistente o suficiente para que o gueto virasse tribo. E uma tribo
com subdivisões e pontos de discórdia, em sua maioria abastecidos de animes e
trilhas sonoras pela internet. Alimentaram um mercado de fansubbers e distros,
provando que havia viabilidade para se trazer animes e mangás para o Brasil, o
que nos leva à situação atual, onde vários mangás saem no sentido oriental,
protelando um pouco a expansão para fora da tribo(esse tópico fica para outra
ocasião) mas não a impedindo. Uma história em quadrinhos nacional em estilo
mangá, Holy Avenger, inicia uma longa(em termos brasileiros) publicação que está
próxima de seu término, não por cancelamento, mas por decisão editorial - e uma
nova história no mesmo universo, "Dado Selvagem", já vem sendo anunciada. Era só
questão de tempo até que alguém percebesse o óbvio, aproveitando o mercado de
dvds em bancas para lançar novos materiais, antes tidos como improváveis de
chegar ao Brasil. Com o tempo, o mercado paralelo de distros se tornará
redundante. Se
as promessas do novo governo derem resultado, ou seja, o problema de
subsistência for sanado, o foco terá que se voltar para a educação - e se não
barrarem o Lula nesses quatro(possíveis oito) anos que virão, teremos uma
população sedenta de leitura e que precisará de material popular de consumo.
Material que não tenha a cara de nichos específicos.
Acredito seriamente que esse material popular, pelo menos no que tange a
quadrinhos, vai sair de dentro do núcleo influenciado pelo mangá. Mas para
invadir o Brasil, ele terá que se reinventar - e trazer do mangá apenas o que
for universal, trazendo até algum resto de sua origem, mas deixando as
orelhinhas de raposas, gotonas e sds para trás.
O que vemos nas listas, tentando bloquear o avanço da história, são os últimos
gritos de uma raça de dinossauros que lucra com a presente situação - e que vê
com imensa agonia algo que eles percebem e algo que eles intuem. O que eles
percebem é que com a possibilidade de termos mais animes populares licenciados,
diminui o número de materiais que eles podem piratear abertamente e portanto seu
lucro vai desaparecer - ou reduzir, caso eles tenham que pagar impostos com uma
eventual legalização.
O que eles intuem é o fim da tribo. Uma característica normal em tribos urbanas
é a de reagir quando sentem que sua estética de identidade adolescente está
sendo absorvida e, portanto, eles deixam de ser "diferentes". Se qualquer um
assiste um anime ou lê um mangá, o fã de carteirinha deixa de ser para si
próprio parte de uma elite especial. A normalidade pode ser algo apavorante.
A mudança no entanto parte do público. O "fã de animes" ainda existe, mas está
dando lugar aos fãs específicos, que não vão comprar todas as revistas em banca,
preferindo apenas os títulos que o interessam. É sua necessidade de crescimento
que os faz reagir quando as campanhas difamatórias surgem, tentando manter as
coisas como estão. É difícil prever como o mercado estará em oito anos. Mas se
algo pode ser dito é que ele definitivamente não será mais como é hoje.
Sejam bem-vindos. Seja qual for o futuro, é nele onde viveremos pelo resto de
nossas vidas.
Alexander Lancaster ( lordlancaster@hotmail.com )