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Passeando por Campos de Lírios
Conversando sobre Yuri e Shoujo-ai
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    Não seria justo falar de shoujo mangá e ignorar uma das vertentes que vem ganhando mais espaço nos últimos tempos. Não é nada recente, não é nada novo, mas em um país onde falar em homossexualismo ainda gera controvérsia, muita gente talvez se espante. Lá no Japão, entretanto, "as meninas que amam meninas" são muito freqüentes tanto nos animes quanto nos mangás. Considerem esta coluna como mais uma investigação histórica sobre um dos tipos de shoujo mangá mais esquecido e até discriminado por alguns fãs. Aliás, a discriminação, entre os fãs de shoujo, parece ser ainda maior do aquela que ocorre com o yaoi e shonen-ai, pois, para muita gente, Yuri não é shoujo, é simplesmente hentai.
    "Yuri" em japonês quer dizer lírio e passou a estar associado – lá no país de origem – ao lesbianismo. Muita gente diz que esta flor estará sempre presente nos mangás quando existe o romance, ou sugestão de romance, entre mulheres. Discordo, afinal, tenho mangás onde o lírio nem é representado, embora o romance esteja claramente presente. Então, esse papo que circula entre os fãs não deveria estar muito correto.
    Um dos melhores sites sobre yuri e shoujo-ai – e são poucos se comparados aos sobre mangás yaoi –, é do Yuricon um evento americano sobre o gênero. De acordo com a página, o termo “Yuri” está associado ao mundo das lesbianas – reais ou imaginárias – faz muito tempo, mas ficou consagrado quando um redator de uma revista gay dos anos 70 denominou as denominou-as de "yurizoku" (tribo do lírio), enquanto a "barazoku" (tribo da rosa) se referiria aos homens gays. De qualquer forma, o termo só serve para dar nome a práticas que já existiam faz tempo. Em uma sociedade como a japonesa, onde durante muito tempo os papéis eram rigidamente definidos, muitas vezes mesmo o mundo de homens e mulheres pouco se tocava, assim, surgiu uma cultura tipicamente feminina.
    Foi esta cultura que possibilitou a criação de todo um mercado de quadrinhos dominados por mulheres e voltados para um público de meninas, moças e mulheres. Somado a isso, temos a ausência da condenação religiosa, materializada entre nós pelo discurso cristão. Nesse contexto as amizades entre, de caráter sexual ou não, eram, e ainda são, muito comuns.
    A grande pioneira na representação desses relacionamentos, antes do boom do mangá, foi Yoshiya Nobuko (1896-1973), autora das chamadas "Hana Monogatari" (Lendas das Flores). Seus contos e romances geralmente mostravam meninas adolescentes, estudando em colégio internos femininos, seus laços de solidariedade e relacionamentos afetivos (*afetivo aqui não significa obrigatoriamente sexual*), e como estas meninas “tornavam-se” mulheres. Alguém que conheça Maria-sama Ga Miteru, já deve estar imaginando em quais fontes a série – que começou em forma de romance – foi beber.
    A verdade é que os termos "yuri" e shoujo-ai" estão cada vez mais presentes na net e na boca dos fãs de anime e mangá. Ambos se referindo aos romances entre mulheres. Algumas pessoas, como eu, tendem a associar "yuri" a histórias que tenham no sexo o seu foco principal e "shoujo-ai" (shoujo=menina/moça, ai=amor) ao romance, que pode ou não ter implicações sexuais. A fronteira entre os dois termos, entretanto, é bem fluída, assim como acontece com os termos yaoi e shounen-ai.
    Obviamente as relações entre mulheres estão presentes tanto no material shoujo quanto no shounen e, por isso, muitas pessoas não fazem distinção entre yuri e hentai, chamando de yuri qualquer material que apresente sexo entre mulheres. Como aqui o objetivo é falar de shoujo, pelo menos dentro desta coluna, comentarei somente o yuri dentro da esfera dos mangás femininos. Assim, a produção hentai (doujinshis inclusos), mesmo sendo ambos pornografia, não me interessa nesse texto.
    Me importa, aqui, o que é produzido por mulheres e para mulheres, e não os fetiches masculinos em relação às relações lesbianas, mesmo que muitas meninas curtam esse tipo de material (*Por que, não?*) ou que alguns autores consigam realmente fazer excelentes histórias do gênero. Agora, se alguém quiser visualizar como o tipo de fantasias as quais me referi se materializam de forma "light", basta pegar qualquer volume de Love Hina.
    Como eu já sinalizei anteriormente, os relacionamentos entre meninas nos mangás estão presentes desde pelo menos os anos 70. Mesmo que timidamente, autoras como Ryoko Ikeda ajudaram a construir esse universo. Um primeiro exemplo a ser citado é, sem dúvida, a Rosa de Versalhes. Mesmo que no mangá a heroína seja heterossexual, sua proximidade com outras mulheres era muito grande e o amor que as moças devotavam a Oscar, em especial Charlotte e Rosalie, era mais do que evidente.
    Há inclusive um momento da história, no qual Oscar se lamenta por não poder amar Rosalie, já que a moça lhe dedicava um afeto e devoção a toda prova. Mas, em seu grande clássico, Ikeda não desenvolveu a questão, cortando qualquer possibilidade para Oscar e Rosalie. Assim, o resto fica por conta da imaginação dos fãs da série.
    Já em uma obra posterior (*mas ainda na década de 70*) Oniisama E, a coisa muda de figura e a autora retrata com muita ternura o romance entre duas adolescentes em uma escola feminina de elite. Conhecendo a obra de Ikeda, porém, não convém esperar pos um final “e viveram felizes para sempre”, claro, nem tão pouco se deve pensar que o lesbianismo era o tema deste mangá ou do excelente anime baseado na obra. Coube a Ikeda, entretanto, escrever uma das primeiras histórias adultas sobre a questão.
    No seu mangá curto intitulado Caludine, passado na França da primeira metade do século XX, Ikeda mostra o drama de uma jovem que, por se sentir atraída por outras mulheres, não consegue se enquadrar, é abandonada pela amada, e termina se suicidando. Não fossem os finais trágicos tão comuns na obra da autora, alguém poderia dizer que é perseguição.
    Mas o pioneirismo em abordar o amor entre meninas, coube a outra autora clássica, Yamagishi Ryoko. Ainda em início de carreira e com uma arte muito distante daquela que a consagrou em mangás como Arabesque e Hi Izuru Tokoro no Tenshi (**O Filho do Céu na Terra do Sol Nascente**), ela vai produzir Shiroi Heya no Futari que traduzido poderia ser “o par ou o casal do quarto branco”. Neste mangá, datado de 1971 (*ou 1975*), a autora recorre a vários elementos da cultura feminina recorrente nos shoujos: o colégio interno feminino estilo ocidental, a tomboy, a menina insegura, e, como era comum na época, a história se passa fora do Japão. No decorrer da história, o que começa com animosidade e curiosidade, torna-se amizade, amor e termina, como de praxe nos anos 70, em tragédia. Estavam lançadas as bases do shoujo-ai.
 

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