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Discutindo o fenômeno dos fansubers e a história da pirataria
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01- 02 - 03

Durante os últimos meses, entre as várias sugestões de temas para as colunas, recebi muitos pedidos para que falasse sobre os fansubers e distros. Nada mais justo, afinal, boa parte de nós, fãs brasileir@s de anime, dependemos dos fansubers para ter acesso aos últimos animes que estão saindo no Japão, da mesma forma que dependemos dos grupos de scanlations para ler os mangás – principalmente shoujo – que dificilmente vão chegar ao nosso país. A polêmica d o suposto lançamento de Evangelion no Brasil pelo DAC reacendeu a discussão sobre os fansubers e podemos facilmente localizar posições divergentes entre os fãs. A coluna de hoje vai discutir a questão e eu vou estar deixando bem clara a minha posição em relação a questão.

O fenômeno dos fansubers, ou clubes de fãs que legendam animes, começou nos EUA no final dos anos 80 e, tão logo as tecnologias se tornaram mais acessíveis, os nossos começaram a aparecer no início dos anos 90. Antes já existiam grupos de fãs que tinham acesso a material vindo do Japão, ou mesmo dos EUA, só que geralmente as exibições eram feitas sem legenda. Eu me lembro de ir comprar revistas na Gobimania, perto da Praça Sans Peña no Rio, antes do boom de Cavaleiros do Zodíaco na Manchete, e ver cartazes de um clube de exibições de animes e live actions japoneses. Tudo sem legendas, nunca fui a nenhuma mostra, mas imagino o quanto deveriam ser restritas essas atividades.

O surgimento dos fansubers mudou consideravelmente este panorama. E quando apareceram os distros, i.e. os grupos que se responsabilizavam por distribuir por preços de custo os animes legendados, a coisa ganhou impulso. Cavaleiros do Zodíaco e as revistas que vieram na esteira de seu sucesso, somado a maior acessibilidade da Internet, fez com que muita gente pudesse assistir animes antes nunca sonhados. Talvez o primeiro fansuber-distro a se destacar no Brasil tenha sido o BAC (Brasil Anime Club) que, infelizmente, sumiu sem deixar saudades.

Mas qual a função dos fansubers e distros? A maior função seria divulgar a animação japonesa, atrelado a isso seria servir de termômetro para que as empresas pudessem saber o que seria viável e vendável entre os fãs, em um momento onde a cultura pop japonesa ainda não era tão disseminada. Nos EUA, foi mais ou menos isso que aconteceu, e há um excelente artigo americano sobre isso (When Piracy Becomes Promotion/Quando a Pirataria se torna Promoção - citado em matéria recente da Herói. Fora isso, nos EUA, alguns fansubers acabaram se tornando empresas e passando a negociar o lançamento de animes aqui no mercado americano.

Aqui no Brasil, essa ponte – grupo de fãs que se torna empresa – ainda não foi feita. Temos fansubers/distros antigos como o Shinseiki e o Lum’s Club que continuam distribuindo seu material, mas agora a moda é baixar direto da Internet. Muitos grupos brasileiros estão se dedicando a legendar em português e distribuir gratuitamente na net episódios de animes recentes, a velocidade em alguns casos às vezes é tão grande que antes que Tenjo Tenge saísse em inglês, já se tinha o episódio em português disponível. Aliás, tamanho foi o sucesso deste anime, que ele já foi licenciado nos EUA... já por aqui...

Obviamente, como boa parte da população brasileira não tem acesso à Internet, muitos fãs e possíveis consumidores, continuam excluídos ou a mercê de picaretas. Quem estou chamando de picaretas? Grupos que copiam da net gratuitamente episódios de anime legendados em português, passam para CD ou VHS e vendem esse material na cara-de-pau. Na minha última ida à São Paulo vi de novo fitas de anime sendo vendidos por R$15,00 ou mais. Claro que já vi coisa pior, já que em certa gibiteria do Méier, Rio de Janeiro, há um catálogo com fitas disponíveis, a maioria copiadas de fansubers, mas da última vez que dei uma olhada tinha até Evangelion gravado com som mono da Locomotion sendo vendido por R$20. E olha que já faz tempo... Tá certo que é preciso pagar o aluguel da lojinha e outros gastos, mas nada justifica que esse pessoal seja chamado de fansuber, como muita gente faz por aí por ingenuidade ou maldade mesmo, ou digam que fazem isso por amor à animação japonesa. É um negócio, e ilegal ainda por cima, fora que esses sujeitos não contribuem em nada para que os licenciamentos no Brasil se tornem mais freqüentes.

A gota d’água no assunto foi o tal DAC anunciar o lançamento oficial de Evangelion aqui no Brasil. Por que estou dizendo isso? Simplesmente porque eles fizeram questão de dizer que a coisa era LEGAL. Mesmo que possam estar cometendo o mesmo crime que os fansubers e distros, o DAC – que distribui regularmente material pirateado – se disse dono dos direitos, está cobrando preço de material licenciado, e até pressionou fansubers sérios como o Shinseiki a tirar Evangelion das suas listas de requisição. Golpe sujo e que pode enganar algumas pessoas, assim como muita gente foi enganada com o primeiro lançamento de Gunnm (Alita) no Brasil. Lembram disso? (***E até hoje tem gente que queima a pirataria dos fansubers mas lamenta que Gunnm tenha ido parar legalmente nas mãos da JBC.)

Isso quer dizer que a maioria dos fansubers/distros que fazem a coisa de fã-para-fã é confiável? De forma nenhuma e não podemos ser inocentes. Quem tem algum tempo de fã no Brasil sabe muito bem como o BAC sumiu do mapa, sem cumprir com a entrega de várias requisições, sem devolver o dinheiro do pessoal, sem dar nenhuma satisfação, enfim, um papelão que deixou muita gente traumatizada só de ouvir a palavra fansuber ou distro. Posso achar exagero, mas respeito o sentimento destas pessoas, afinal, eu mesma estive na alça de mira de perder a última requisição que fiz com o clube. Só que felizmente para mim, ela chegou, depois de muito atraso! Mas seriam mesmo os fansubers/distros necessários? Por que nenhum dos grupos brasileiros se tornou empresa até agora? Será que no Brasil as atividades dos fansubers são termômetro para futuros licenciamentos?

Eu fiquei refletindo sobre isso e sei bem que não existe resposta única para a questão. Aliás, uma das coisas que todos nós sabemos é que é muito difícil abrir uma pequena empresa em nosso país. Fora isso, os impostos sobre os produtos, às vezes, os tornam tão caros que não são acessíveis a boa parte da população de um país com uma das piores distribuições de renda do mundo. Quando sabemos que mais de 44% do preço de um carro no Brasil é imposto, imaginamos o quanto seja difícil para uma empresa mediana vender seu produto, pagar os impostos e ainda obter lucro com isso.
 

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