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Shoujo anime x shoujo mangá - Parte 1

     Aqui no Brasil, nosso contato com os quadrinhos japoneses foi direcionado a partir da animação japonesa. Mesmo que os animes tenham desaparecido das nossas tvs por quase uma década, eles eram a fonte de referência. Entre Robotech – a bem sucedida montagem americana em cima de Macross – e Cavaleiros pouco ou nada apareceu nas nossas tvs. Se pensarmos em termos de shoujo anime, fora o escasso material de locadora, tivemos A Princesa e o Cavaleiro, nos anos 70; Candy Candy – somente um punhado dos capítulos –, Angel e Honey Honey, nos anos 80; e depois tivemos que esperar muito até que chegasse Sailor Moon. Mas Sailor Moon no Brasil parece que não emplacou e acabou sinalizando para as empresas que esse tipo de material não funcionaria por aqui, tanto que o clone das Guerreiras da Lua, Wedding Peach, foi dublado e nunca lançado. Agora, querendo ou não, gostando ou não, são os animes de garotas mágicas que predominam nas nossas tvs.

     Bem, no Brasil mesmo com a rarefeita presença dos animes shoujo, tivemos passando por aqui, alguns dos melhores exemplos de suas respectivas épocas. A Princesa e o Cavaleiro, de Osamu Tezuka, foi baseado no mangá que é considerado o marco inicial do shoujo. Candy Candy, de 1974, teve uma das melhores equipes técnicas da época e com seu rítimo de novela mexicana ainda é um dos animes mais lembrados. Já Angel, que contou com quase toda a equipe que trabalhou em Candy Candy, foi o primeiro anime shoujo a ser pensado junto com uma grande campanha de merchandising, incluindo toda a sorte de bugingangas, mais a trilha sonora. Esses três animes marcaram a minha geração, uma geração pré-Cavaleiros que ainda tinha como opção Patrulha Estelar e outras grandes clássicos. Já Sailor Moon, representa o repensar de um gênero que marcou o início dos animes shoujo, as histórias de garotas mágicas.

     Por mais que as pessoas torçam o nariz aqui no Brasil, foram os animes de garotas mágicas, os famosos “mahou shoujo” que abriram as portas das tvs japonesas para animações direcionadas principalmente às meninas. Inspirado pelo sucesso da série A Feiticeira (Bewitched), Mitsuteru Yokoyama criou em 1966 uma série de tv baseada em seu mangá de sucesso na revista Ribon. O nome da série era Mahou Tsukai Sally. Ora, o primeiro anime shoujo foi um mahou shoujo, criado por um homem e inspirado em uma série americana – sucesso também no Brasil. A partir da bruxinha Sally o conceito foi se transformando através de dezenas de séries que povoaram as tvs e as revistas japonesas. Aqui no Brasil, antes de Sailor Moon, Card Captor Sakura, Licca-chan e Corrector Yui, só tivemos Angel (Hana no ko Lun Lun). Para quem não lembra direito ou não assistiu, Angel, Lun Lun no original, era uma garota que recebia a missão de encontrar a flor das sete cores para salvar o planeta Floral e quem sabe casar com o príncipe herdeiro. Acompanhada de um cachorro e uma gata falantes ela bateu calçada em dois continentes – Europa e África – e me ensinou muito de geografia nos primórdios da minha vida.

     Os animes de garotas mágicas são voltados principalmente para um público bem jovem. Os mangás, nos quais se inspiram muitas animações, são publicados nas revistas voltadas para meninas até 13 anos como a Ribon, a Nakayoshi e a Ciao. Se formos pensar em fases, teremos em um primeiro momento a bruxinha solitária – estou descartando os bichinhos – que vem a terra cumprir uma missão; depois é a menina humana que recebe poderes ou se descobre herdeira de uma linhagem de bruxas. Nos anos 80, predominaram as mahou shoujo que se transformavam em adultas e muitas vezes viravam cantoras, as famosas idols japonesas. Até que veio Sailor Moon, em 1992, e inaugurou a idéia do grupo de guerreiras mágicas lutando contra o mal... um super sentai com apetrechos bonitinhos. Mas este estilo não desbancou o estilo de história dos anos 80, pois Full Moon Wo Sagashite de Arina Tanemura mostra bem o quanto as mahou shoujo idols ainda fazem sucesso.

     A ênfase nessas histórias é mostrar o amadurecimento das heroínas, que assim como as leitoras enfrentam problemas típicos da idade, mas também tem que lutar contra o mal. Bem, pelo menos a regra do amadurecimento vale para os mangás. Já nos animes, infelizmente, nem sempre a idéia original das autoras se salva. Exemplo clássico é Sailor Moon que no anime continua chorona, desastrada e burra do início ao fim da série. Enfim, ela não cresce, mas ganha muitos apetrechos e que são ótimos para alavancar as vendas. Guardem bem esse ponto porque ele é a base da segunda parte dessa coluna.

     Só recapitulando: Animes shoujo são menos freqüentes nas tvs do que os animes shonen, isso acontece no Brasil mas na matriz, o Japão, é o mesmo. Entre os gêneros transformados em anime, o mahou shoujo é o mais conhecido aqui no Brasil e, se não me engano, o mais freqüente lá no Japão. Bruxinhas são sucesso desde os anos 60, mas a partir dos anos 80, com Angel, a questão do merchandising passou a ser um impulsionador. Fora isso, esse gênero que inaugurou o shoujo na tv é voltado prioritariamente para audiências muito jovens e mesmo que consiga agradar um público mais adulto, não é surpresa que encontre também alguma rejeição. Só que o que pretendo tratar na continuação é uma questão outra: Por que as heroínas desse tipo de anime, e Serena é o melhor exemplo, tendem a despertar uma certa antipatia em algumas meninas brasileiras? Antipatia que diminui o interesse pelos mangás shoujo, independente de serem no mesmo estilo ou não.

     Deixo a pergunta porque não interessa oferecer conclusões fechadas. Mas gostaria que vocês refletissem e voltassem para ler a coluna da semana que vem.

Valéria Fernandes
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