Território dos Bravos 01 – Mangá de Verdade
Anime Pró 22-12-2005

A  Ediouro lançou a série Quark, de ficção científica ? que se apresenta já desde os releases como um “mangá holandês”. O acabamento gráfico é do mesmo nível que o Nathan Never da mesma editora, o formato é bem maior, etc. No entanto, independentemente da história ser boa ou não, o material tem sido recebido à pedradas pelo fandom de mangá ? antes mesmo do material ter sido lido. O motivo é a procedência.

Não deixa de ser curioso lembrar: Holy Avenger foi um produto que conseguiu se tornar bem aceito, que abarcou diferentes fandoms para criar o seu próprio ? mas NÃO É JAPONÊS; Apesar de algumas vozes “do contra”, iniciais, Ragnarok e Chonchu ? acho este muito bom ? mostraram a que vieram, se dirigiram a seus respectivos públicos ? e NÃO SÃO JAPONESES.

E uma vez que traremos vários quadrinhos dentro da estética mangá por aqui (não custa repetir que estética é uma coisa, estilo é outra; o estilo é pessoal de um autor, uma estética são caracerísticas estilísticas que unem vários autores numa catalogação comum), e que materiais como Endhers ? se valendo do espaço já conquistado por Holy Avenger ? não foram recebidos à pedradas (a definição dos fãs é como se vendessem Quark como “gato por lebre”), este é um assunto que nos interessa.

As críticas ao lançamento de Quark EM SI me parecem hipocrisia do meio dos fãs hardcore, que aceita um “mangá brasileiro” mas torce o nariz para um mangá não-japonês. Estes estão mais interessados em outro lançamento, o legitimamente nipônico Mouse, cuja premissa já não é um boa recomendação, e cá entre nós: os roteiros são do mesmo Satoru Akahori do hediondo Bakuretsu Hunters, o que para mim é uma PÉSSIMA recomendação. E pensar que eu vou jogar fora dez paus para poder avaliar esse treco. Algum dia vou fazer um saldão dos número um de coisas terríveis que tenho.

Não vou fazer juízo de valor quanto a Quark para poder me direcionar melhor ao meu foco: Mangá é quadrinho japonês ou Mangá é uma estética que como tal pode ser feita por japoneses ou não?

Desvendando os Mangás
O Scott McCloud fez um estudo comparativo interessante das linguagens narrativas de mangá, em termos de proporções de transições quadro-a-quadro. As transições seriam, efetivamente, os modos como entendemos o todo através da observação das partes. E em termos de quadrinhos, elas seriam definidas primordialmente de seis formas: 1) entre momentos, 2) entre ações, 3) entre temas, 4) entre cenas, 5) entre aspectos ? e 6) entre nada e coisa nenhuma, o que não chega a formar quadrinhos, mas pode ser colocado no papel. Não vou me detalhar muito sobre esses temas, porque o Sr. McCloud fez um excelente trabalho nesse sentido e se você se interessa MESMO por esse assunto, recomendo que compre sem falta o Desvendando os Quadrinhos de sua autoria, publicado pela Makron Books. Ainda guardo a primeira edição deste livro como um tesouro.

Mas o que conta aqui é: Enquanto no ocidente percebemos uma predominância gritante, e quase exclusividade das transições entre ações, temas, e cenas ? muitas vezes omitindo transições entre momentos e entre aspectos (nas palavras de McCloud: “Os tipos 2 a 4 mostram as coisas acontecendo de maneira eficiente; o tipo 1 mostra as ações, mas exige vários quadros para fazer o que o tipo 2 faz com dois ? enquanto no quinto tipo, por definição, não ‘acontece’ nada”), o que surpreende no quadrinho japonês, que criou uma linguagem própria, à parte do quadrinho ocidental ? seja americano, europeu, argentino(que esteticamente é meio que uma subdivisão do quadrinho europeu na minha humilde opinião) ? são as presenças dos mesmos primeiro e quinto tipo, meio que ausentes dos quadrinhos do resto do mundo. O quinto tipo ? aspecto para aspecto ? em especial, suplanta em uso o quarto tipo, importantíssimo para mudanças de cenário.

Ou seja, mangá não são apenas olhos grandes. Talvez nem sejam, embora eles façam parte de seu conjunto estético mais popular. Na época em que participei do fanzine Break the Hand, um dos participantes ? o Davison Carvalho, melhor conhecido como DChan, mandou essa pequena e útil mensagem a todos os envolvidos:

Do mangá moderno ao clássico:
Bem como comentei anteriormente, existem vários tipos e estilos de
diagramação e layout que podem ser usadas em um mangá. É muito importante saber qual estilo escolher de acordo com o conteúdo, lembrando que o mangá é feito de exceções e gambiarras… então nem sempre seguem-se todas as regras a risca, né!! Só pra ter uma idéia de como são os estilos de layout de mangá:

1) MODERNO:
Diagramação: Limpa e com poucos quadros; de vez em quando nem linhas de divisão entre os quadros são aparentes!!
Características gerais: Traço bem limpo e detalhado. Não possuem linhas de movimento. Não possuem quadros com linhas diagonais porém há muita sobreposição dos mesmos. Não são utilizadas muitas retículas. Todo o conteúdo é descrito sem muitas informações diretas, quase sempre os textos são subliminares e não dizem de cara o que querem passar. Esse estilo moderno aparentemente é fácil, mas é considerado o mais difícil de se usar devido à complexidade da linguaguem; é preciso que o roteirista (geralmente o próprio desenhista) esteja muito bem entrosado com a história, para conseguir passar a mensagem ao leitor sem confundi-lo! Praticamente todos os recursos modernos disponíveis para arte são usados.
Exemplos: Clover (Clamp), MPD Psycho, NEO, Beast of East

2) MODERNO-TRADICIONAL:
Diagramação: Limpa e com poucos quadros, de vez em quando nem linhas de divisão entre os quadros são aparentes!!
Características gerais: Possuem linhas de movimento mas não são usadas com exagero. Possuem quadros com linhas diagonais e sobreposições, são utilizadas reticulas ? mas sem exageros. Nesse estilo quase sempre os quadros são extremamente disformes. Esse estilo é um dos mais usados atualmente no Japão. Aparentemente também é fácil, mas é considerado um pouco difícil de se usar pois a parte da arte é muito trabalhosa. Praticamente todos os recursos modernos disponíveis para arte são usados.
Exemplos: Chobits (Clamp), Angel Dust (Aoi Nanase), Love Hina (Akamatsu Ken), Angel Sanctuary (Kaori Yuki).

3)  TRADICIONAL:
Diagramação: Não muito limpa e com muitos quadros.
Características gerais: Possui muitas linhas de movimento. Possui muitos quadros com linhas diagonais e poucas sobreposições. Retículas são muito bem usadas. Quadros extremamente disformes se misturam com quadros quadrados perfeitos. Esse estilo é o mais usado no Japão há anos, é considerado o padrão ideal dos mangás ? porém parte da arte também é muito trabalhosa, praticamente todos os recursos modernos disponíveis para arte são usados.
Exemplos: Megami Sama/Ah My Goddess (Fujishima Kosuke), X e Card Captor Sakura (Clamp). Evangelion (Sadamoto Yoshiuki) Blame, Bastard, Vampire Princess Myiu e a maioria dos mangás de 1992 em diante.

4) TRADICIONAL-CLÁSSICO:
Diagramação: Não muito limpa e com muitos quadros.
Características gerais: Possui linhas de movimento mas não muitas. Possui muitos quadros e poucas sobreposições. Retículas são pouco usadas. Muitos quadros quadrados perfeitos. Esse estilo foi o mais usado até 1992. Hoje em dia são poucos os desenhistas que adotam esse estilo, que foi considerado o padrão ideal dos mangás, porém hoje em dia não é muito atrativo para o público jovem com raras exceções. Poucos recursos modernos para arte são usados.
Exemplos: Akira e Domu (Otomo Katsuhiro), Nausicaa of the valley of the wind (Miyazaki Hayao), Dominion Tank Police (Shirow Masamune)

5) CLÁSSICO:
Diagramação: Bem suja e com muitos quadros.
Características gerais: Quase não possui linhas de movimento. Possui realmente muitos quadros por página sem sobreposições. Retículas praticamente não são usadas. Muitos quadros quadrados perfeitos. Esse estilo foi o primeiro estilo de mangá existente, hoje em dia nenhum desenhista adota esse estilo com exceção dos desenhistas de tiras de jornais japoneses. Hoje em dia ele não é muito atrativo para o público jovem com raras exceções. Nenhum recurso moderno para arte é usado.
Exemplos: A lenda de Kamui, Gen pés descalços, Princesa e o Cavaleiro, Astroboy, Yamato – Patrulha Estrelar e muitos outros clássicos do mangá.

Um aparte: não deixa de ser curioso que embora ele tenha colhido essas informações direto com a fonte (DChan foi escolhido pela Kadokawa para publicar um mangá no Japão), o chamado “Estilo Clássico” (Gen, Princesa e Cavaleiro, Kamui, etc..) é definido como o “com menos atrativo para o publico jovem’. Só que, curiosamente, aqui no Brasil é o tipo de mangá que mais tem sido bem recebido por quem não lê gibi. Qualquer um consegue ler Gen, Princesa e o Cavaleiro (este teve o azar de ser lançado em bancas e esnobado pelos fãs de sempre), Buda, Lobo Solitário, etc… Mas nem todo mundo consegue ler um Kenshin (que está bem longe de ser complicado visualmente comparado a outros mangás).

Não custa lembrar que Chonchu e Vagabond ? este um indubitável sucesso ? têm narrativas muito mais simples do que a média dos mangás publicados por aqui.

Mas vamos voltar ao assunto: Notaram que as classificações passaram por ditames de diagramação ? e por sua vez toda diagramação não passa de um instrumento do tipo de narrativa que se quer usar? Não se falou de estilos de traço por aqui. Pensem bem: Se para se ter mangá olhos grandes são essenciais, o que são os geniais Lobo Solitário (para citarmos um exemplo clássico) e Monster (para citarmos um exemplo atual)?

Então eu posso colocar finalmente meu ponto: Uma estética pode abarcar inúmeros clichês visuais, mas quem a define como tal é sua narrativa. E se uma estética é definida por narrativa e não procedência, é possível se fazer mangá fora do Japão sim.

American Mangaka
Se mangá é uma linguagem narrativa, o que é mangá fora do Japão? Bom, vamos convir: Ragnarok está mais próximo dos mangás do que os quadrinhos de Adam Warren (Livewires; Gen 13 ? Grunge the Movie; Bubblegum Crisis ? Grand Mal; Titans: Scisors, Paper and Stone; Dirty Pair ? Fatal but Not Serious). No entanto, isso não é juízo de valor: Warren é BEM melhor escritor do que Muioung Jin-Lee.

Mas o fato de ser bom não basta. Vamos continuar falando do Warren: No seu Bubblegum Crisis, ele absorve tão bem o character design original do Kenichi Sonoda que muito otaku hardcore não se perguntaria porque o sujeito ainda não se mandou de mala e cuia para o Japão. No entanto, a semelhança termina aí: ele enfia sua engenhosa trama de ficção científica no mesmo esquema tradicional dos quadrinhos americanos. E ele sabe disso. No seu posterior trabalho com os Titãs, onde ele lidou com uma versão futurista da equipe, ele avisou que “não faria nada para americanizar meu trabalho”. E era verdade. Ali, ele havia mostrado que domina a narrativa dos mangás e que o que ele faz é por opção. Um exemplo mais claro está em “Grunge ? the Movie”, que saiu por aqui como Gen 13 mangá. Podem conferir. Nas cenas do mundo real, onde Grunge e Roxy passeiam pelos shoppings da vida, a narrativa é objetiva. Nos delírios cinematográficos da mente de Grunge, a narrativa é decalcada dos mangás shonen. E no insight a la Sailor Moon de Roxy, mesmo que tenha sido apenas em uma página, temos uma antevisão do que seria um trabalho seu brincando com a narrativa difusa dos mangás shoujo…

… que não aconteceu no posterior Magical Drama Queen Sailor Roxy. A minha impressão é que Warren já tinha provado o que tinha que provar e que podia voltar ao que sabe fazer melhor: sátira social (a lista dos ex-namorados de Roxy em “Magical Drama Queen” é antológica). Warren, quando quer, é verborrágico de forma que nunca nenhum manga-ka com juízo na cabeça o seria. Mangá é algo produzido em nome da leitura rápida. Sua diagramção é feita para conduzir os olhos do leitor ao próximo quadro. Tudo é velocidade. Uma jump é lida em menos de meia hora, seus diálogos são enxutos, e tudo é ? via de regra ? muito digestivo. Um balão cheio de diálogos mandaria essa cineticidade às favas. Nesse sentido, o lado satirista do autor lembra muito o cinema de Kevin Smith, calcado em diálogos longos, “espertos” e cheios de citações referenciais (as sequências “reais” de “Grunge” também entram nessa categoria).

Em miúdos: Warren não quer ser necessariamente mangá; é apenas o estilo onde ele se sente confortável. E convenhamos, em tantos anos já batemos o olho nele e podemos dizer “é o Adam Warren”.

Ele é citado como um dos precursores e mestres do American Manga, bom dizer. Mas eu o vejo, em muitos aspectos, como um caso a parte. O que se chama de American Manga nasceu com os trabalhos de Humberto Ramos, se popularizou com artistas como Joe Madureira, e apostou numa iconização dos personagens inspirada na percepção superficial da estética do mangá ? notadamente olhos e pés grandes ? mas não resultou em grandes mudanças de narrativa. A grande contribuição do American Manga, que também bebeu um pouco da visão cartunizada de artistas que a primeira vista nada tinham à ver com essa estética, como Mike Parobeck (responsável pela versão em quadrinhos do Batman animado dos anos noventa), foi uma simplificação e acessibilização da narrativa dos quadrinhos americanos, viciada por anos de horror sob o estilo Image ? que é um paraíso para os fanboys, com suas imagens enormes em estilo pin-up, mas um pesadelo para o leitor comum, que bate o olho e não entende que raios de joça acontece ali dentro.

No final, o American Manga acabou tomando forma, criando seus cânones e se espalhando por outras mídias (Três Espiãs Demais, Jovens Titãs, Megas XRL). O termo passou a definir uma estética nova dentro do espectro dos quadrinhos americanos e seu nome é apenas um atestado de paternidade. Mas American Mangá não é Mangá Americano. Talvez séries como Bizenghast, da Tokyopop, sigam esse caminho. Depende da vontade e da necessidade dos autores. E dos leitores.

Então podemos falar de mangá holandês?
Talvez sim ? independentemente de que Quark o seja, ou não. Basta que um holandês(assim como um brasileiro, ou um americano, ou o que for) mimetize todos os aspectos estéticos do mangá a nível narrativo; use todos os recursos necessários de aproximação do leitor, como o efeito máscara ? se for preciso (Clover, da Clamp, não é um mangá com cenários fotográficos, por exemplo). Por outro lado, um japonês PODE, sim, mergulhar na narrativa dos comic books americanos e fazer a festa.

Em suma, é meramente o processo de aprender outra língua. Dizer que Ragnarok não é mangá por ser não ser japonês é como dizer que o Natiruts não faz Reggae porque ele não é Jamaicano. Subentende-se que o brasileiro tem que fazer, mesmo, é bossa nova. Eu acho bossa nova um saco. “O Pato vinha cantando alegremente…” “O barquinho vai, a tardinha cai, o barquinho vai, a tardinha cai…” Letras de gênio.

Falando línguas diferentes
Uma das histórias que ouvi sobre a difusão do Engrish (aquele inglês troncho do qual os japoneses usam e abusam ao escrever) é que quem aprender inglês corretamente pode quebrar a cara nas provas da faculdade ? porque ele está institucionalizado. Não sei se é verdade, mas faz sentido. Poderíamos dizer que o Engrish virou praticamente um dialeto? Não, porque ele não é falado no dia-a-dia, é apenas um quebra-galho quando o japonês PRECISA usar o inglês.

Mas de certa forma o que acontece na maioria os casos em que se tenta absorver as características estéticas de uma escola que não é a sua é algo parecido com o “Engrish” mesmo. Claro que o aprendizado de uma língua, com esforço e imersão, pode ser completo ou pelo menos muito satisfatório.

Por outro lado, qual a necessidade do leitor que está se buscando? Uma das coisas que me chamam a atenção nos fumettis italianos é que eles usam de descompressão narrativa ? ou seja, desenvolver uma sequência pelo número necessário de páginas de acordo com o clima que se quer passar, investindo mais em atmosfera ? sem que se torne aquela maldita coisa tediosa que aparece na nefanda linha Ultimate/Millenium da Marvel, onde um Ultimate Sr. Fantástico passa centenas de quadrinhos trancado numa mesma sala com um mesmo diálogo com o Ultimate Coisa. Você passa boas horas com um Tex Ouro ou com um Zagor Especial, se você gosta do gênero.

O mangá por sua vez é feito para ser lido em grossas antologias. Picadinho de quadrinho nos herdeiros modernos do folhetim gráfico. Vapt. Vupt. Próxima semana vemos mais, ainda nos lembramos do que aconteceu antes. Há revistas mensais, claro. Quanto mais rarefeita é a periodicidade, mais coisa acontece para a história valer seu peso. Gostando, compra-se o volume completo. Que por sua vez tende a ser tão rápido quanto sua periodicidade o exigiu. O Próximo Tanko-hon de Naruto virá em nove semanas. O próximo de Tenjou Tenge, em nove meses.

O mangá é mais digestivo do que o fumetti porque o japonês tem menos tempo para ler quadrinhos do que o italiano e ambas as narrativas atendem as necessidades de seus respectivos públicos. Simples assim.

E acredito que a narrativa de um autor siga a linguagem das necessidades de seu público, a menos que ele exista como autor em um mundo próprio onde o leitor é algo secundário. Acredito que o mangá tenha encontrado grande difusão na internet pelas próprias necessidades da leitura dentro da internet ? curta, fragmentária. A leitura, como eu disse, é rápida ? e a leitura nos metrôs do japão, enquanto não se chega ao trabalho ou a escola, é igualmente rápida. Os olhos são conduzidos pela narrativa em médias de três segundos por quadro. Em um contexto onde quadrinhos dowloadeados em sites de scanlations tem que competir com a interrupção do modo hipertexto, de várias telas que se abrem ao redor ? lê se enquanto se conversa em messengers e verifica-se rapidamente o mail que acabou de chegar ? o mangá sai em vantagem a materiais como, digamos ? para citar boas histórias ? o Quarteto Fantástico de John Byrne. Ou qualquer Asterix. Estes, exigem algum esforço de atenção. Asterix é uma ótima companhia para uma tarde vazia. Longe do computador. Agora só resta uma última questão.

Tudo é Gibi
No Japão, há o consenso de que toda história em quadrinhos é mangá. No entanto, eles tem sua própria estética de quadrinhos, que pode ser definida como estética mangá ? aquela que superficialmente aparenta ser calcada em olhos grandes e linhas de movimento. No entanto, se publicarmos um X-Men no Japão, ele vai ser chamado de mangá.

Da mesma forma, o fumetti é o termo com que os quadrinhos EM GERAL são conhecidos na Itália, embora nós os associemos a quadrinhos anatômicos em preto e branco, baseados em páginas na divisão tradicional de seis quadros. Da mesma forma que os quadrinhos como um todo, nos Estados Unidos, são conhecidos como comics, mas nós praticamente o associamos a formato americano, páginas coloridas e ? infelizmente ? um gênero só, o de supers. Da mesma forma que pensamos em Bande Dessinée como álbuns europeus em formato grande, capa dura ou mole, cerca de cinquenta páginas e com um altíssimo grau de densidade narrativa. Claro, todas as descrições aqui são generalizações. Me lembro de uma declaração totalmente falha que dizia que desenhistas brasileiros usavam a linha grossa na arte-final e isso era característica do quadrinho americano, não era mangá. Bom, Monkey Punch, Tetsuo Hara e Ryoichi Ikegami não fazem mangás, são americanos que nasceram no Japão, e Coleen Doran, que trabalha com linhas finas de nanquim, é mangaka da gema, certo?

Diferença estilística não define uma estética. Porque em uma estética, cabe uma miríade de estilos. Mas todas essas estéticas partem de um princípio comum: carregam os nomes pelos quais os quadrinhos eram conhecidos como um todo em seu país. Quando surgiram “estéticas nacionais” para o material local, eles continuaram sendo o que eram: quadrinhos. Mas fora de seus países de origem, passaram a indicar essas estéticas ? como um indicativo de sua procedência. Fumetti é o anatômico em preto e branco por excelência; Mangá são os olhos grandes; Comics são supers ultra-marombados ? e por aí afora. Já vimos mangás Brasileiros(precisamos REALMENTE repetir a lista?), mas já vimos também BD linha-clara brasileiros (o último foi o álbum da Intempol, The Long Yesterday); Fumettis brasileiros (me lembro de um faroeste que saiu, se não me engano, pela Vecchi chamado Cyprus Hook, desenhado por Eduardo Ofeliano, com um raro pistoleiro negro); tivemos também Chet, pela mesma Vecchi, e agora ? embora o formato seja diferente ? nossas bancas toparam com um “Cavaleiros do Oeste”, que aposta num formato diferente do fumetti, mas oferece uma boa combinação tamanho/preço.

Mas quanto a GIBI, só nos lembramos de material infantil, certo?

Todos esses materiais, ao pisarem por aqui, são classificáveis pela sabedoria popular como “gibi” ? e eu gosto desse termo. Porque ele é simples e popular. Não me importo com o fato de que ele quer dizer “moleque” ? é um desses termos arqueológicos usados na época em que a revista foi feita.

Mas o fato é que ainda não existe um “estilo gibi”. E isso levará décadas para aparecer, a menos que surja um Tezuka do nada que mude toda a face do nosso quadrinho de forma definitiva. Da mesma forma que o manhwa, por mais que aponte uma leva interessante de trabalhos, para mim é tão coreano quanto os quadrinhos argentinos são argentinos. A face definitiva do manhwa ainda está para nascer. A do gibi também.

Então por ora, o mangá é gibi japonês. O fumetti é um gibi italiano. A Bande Dessinée é um gibi francês. E o manhwa é um mangá coreano, sim ? mas não deixa de ser um gibi por causa disso. Ao invés de se preocupar com a procedência do que se traz ou do que se produz, o mais importante é se saber se o material é bom ou não.

Até dia 1º do mês que vem,
Alexander Lancaster

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