Entrevista com o quadrinista Daniel HDR
Anime Pró 26-01-2006

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Nascido em Porto Alegre (Estado do Rio Grande do Sul – Brasil), começou a trabalhar  com histórias em quadrinhos muito cedo, desde 1986 quando ainda tinha 14 anos. Já tendo trabalhado com quase todos os estilos, de terror a eróticos para editoras brasileiras, iniciou em 1995 atividades com o mercado norte-americano de HQs, nas editoras Image e Marvel Comics. Publicitário formado, em 97, cria o Deadline Studio, iniciando atividades constantes no mercado publicitário e de quadrinhos brasileiro. Hoje seria impossível descrever em poucas paginas as centenas de trabalhos publicados por HDR.

-Primeiramente, diga-nos como foi que sua carreira teve inicio. Quais foram seus primeiros contatos com a prática de desenhar?
O inicio do meu trabalho com quadrinhos, exclusivamente quadrinhos, foi com HQs eróticas, que eu fiz com pseudônimos, pois era menor de idade, e minha vontade por publicar não me impediu de trabalhar com esse gênero. Teve material de Terror, mas inicialmente, era apenas como leitor-colaborador, não exatamente como desenhista da editora, como posteriormente viria a ser. Indiretamente ligado a quadrinhos, houveram trabalhos publicitários, como folders, cartilhas, nas quais eu usei de ilustrações a HQs completas vinculadas a um produto ou empresa.

-Como foi para sua família o fato de você querer seguir uma carreira um tanto quanto arriscada, como a de desenhista? Você obteve total apoio ou houveram contratempos?
Apoio mesmo só de amigos e de minha mãe em especial, que segurou as barras sozinha desde que meu pai veio a falecer, quando eu tinha 6 anos de idade. Os demais parentes ou eram indiferentes a isso, ou achavam que era coisa de doido, que não ia levar a nada, etc. Arriscado eu já tinha consciência de que seria, tanto que procurei me formar em publicidade e propaganda (pra quem conhece, sabe que é um terreno tão arriscado quanto : ) mas que tem mais opções de mercado do que os quadrinhos aqui no país.

-Muitos acham que o HDR seja as siglas do seu sobrenome. Conte-nos o significado do HDR.
E são. Meu nome é de difícil pronuncia, e eu teria de escolher ou Daniel Horn ou Daniel da Rosa. Assinar com o nome completo não ia ficar legal (pelo menos eu acho). Daí optei por HDR. Inicialmente nos EUA eu assinei somente Daniel Horn, mas desde que assumi o Digimon, eu passei a assinar no exterior tal como aqui.

-Você teve uma grande carreira no exterior, desenhando para as maiores editoras de comics, como a Marvel, por exemplo. Como e quando surgiram essas oportunidades?
Não acho que tenha uma grande carreira no exterior. Ainda tenho muita coisa a fazer. Bom, na Marvel, como na Image, foi através de agenciamento, como muitos dos desenhistas brasileiros que trabalham para o exterior, mostrando trabalhos para as editoras, e, ao despertar o interesse, fazendo prospecções para uma determinada revista/personagem. Na época (95/96), Internet era uma um luxo distante para mim e um bocado de gente, e o processo era bem mais lento e desgastante. Hoje em dia o trabalho para o exterior é muito mais fácil, seja como exposição de material na rede ou até mesmo o contato do autor/editora.

-E no mercado nacional você também obteve grande sucesso, inclusive com a quadrinização de Digimon. Conte-nos sobre como ocorreram essas oportunidades.
Na verdade a versão para quadrinhos do Digimon foi para o exterior, a versão publicada aqui pela Editora abril era uma versão chinesa. O Digimon foi um trabalho muito legal, pois era uma linha bem mais estilizada de trabalho diferente da minha mais realista, e me permitiu experimentar outras técnicas de desenho com traço bem limpo, puxando o character design da animação, e havendo, mesmo que com algumas restrições, algumas liberdades artísticas no trabalho. O Digimon foi feito na época que a Dark Horse estava iniciando parceria com empresas de outros paises, como no caso, os detentores dos direitos dos personagens no Japão. Mas veio em uma hora bem estranha para mim, pois ao contrario do que muita gente pensa, um desenhista não apenas desenha, mas tem vida pessoal, etc, e problemas sérios com um câncer de mama que minha mãe enfrentou na época, muita barra pesada, e eu tendo de fazer bichinhos fofinhos, etc… isso muitas vezes pega o cara em horas que ele não está a fim de fazer aquilo, que pode estar de saco cheio, mas que é preciso de postura profissional e realizar o serviço.

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-Falando em Digimon, quais foram os maiores contratempos que você enfrentou quando desenhava a versão em quadrinhos do animê?
Na parte do desenho mesmo, foi o character Design, mas isso só ocorreu nos primeiros números, pois a marcação do pessoal no Japão e na própria Dark Horse pra que os personagens ficassem como na animação foi só no inicio, depois pude soltar mais o traço, e adicionais mais elementos do meu estilo. Me incomodava aquele aspecto raquítico de alguns personagens, e dei umas pequenas alteradas. Mas foi mais na parte de narrativa mesmo. As páginas deviam (conforme eles queriam) ter uma diagramação bem convencional, pois era publicado nos EUA (outros países da Europa, como vim a saber depois) e no Japão. E no Japão, o material deveria ser “flipado” (ou seja, espelhado, invertido). Daí procurei compensar essa diagramação convencional com ângulos de cena mais dinâmicos, diferentes principalmente dos costumeiros no anime. Isso agradou bastante eles, e eu não precisei deixar as páginas paradas demais.

-Quanto a Dragon War e Brasimon, conte-nos como foi o começo e o fim desses projetos.
O começo foi a solicitação por parte da Mythos que eu e meu estúdio produzíssemos para eles, sob encomenda e seguindo pré-definições da editora, dois projetos ios quais deveriam seguir tendências de momento no mercado (acho que nem preciso dizer quais seriam, pelo nome dos projetos, né?. O fim foi que Brasimon não teve boa vendagem pq foi um material pra crianças, sendo que manga é consumido no país na grande maioria por adolescentes. E Dragon War teve uma aceitação de vendas legal, mas o desentendimento da editora com o roteirista e detentor de parte dos direitos da série interrompeu uma possível virada de mesa na trama, que eu estava quase convencendo o sujeito a fazer, até pq eu estava de saco cheio de remendar um monte de coisas que ficavam DBZ demais, sendo que podia se fazer algo diferente.

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-E para você, como desenhista, quais são os maiores contratempos que você tem de enfrentar para exercer sua profissão?
Como todo profissional liberal, não se tem leis trabalhistas que realmente protejam o artista gráfico no país, que paga tributos por seu trabalho como qualquer outro autônomo neste país. Sobre espaço no mercado, acho que isso tem mudado, principalmente se você tiver a consciência de que é preciso versatilidade no traço e na proposta.

-Como surgiu a proposta de que você lecionasse em uma faculdade? Como foram seus primeiros dias de professor?
Bom, professor eu já sou desde 1994, quando iniciei como professor de quadrinhos em parceria com o Governo do Estado do RS, dando aulas de quadrinhos no Museu de Comunicação Social do Estado do RS, juntamente com o colega e amigo Marcos Pinto. O convite para lecionar em uma faculdade, no caso a UNISINOS, foi inesperado, por parte da mesa, e do Consulado Geral do Japão, que me indicara como professor de manga na cadeira então experimental do assunto dentro da universidade. O clima formal das primeiras aulas, tendo em vista que os alunos que procuram o curso são interessados no assunto, por desenharem, escreverem ou simplesmente lerem logo deu lugar ao que realmente os mangas e os demais gêneros de quadrinhos são: meios de comunicação. E tem sido uma experiência muito legal, com uma excelente infra-estrutura para a explanação do conteúdo. E o melhor é que não tem atrapalhado minhas atividades como autor, um dos meus maiores medos, pois apesar de gostar muito de lecionar, gosto mais ainda de trabalhar com desenho.

-Dentre as atuais publicações de mangás das diversas editoras, você têm participação em alguma delas?
Para o Brasil, material de ilustração do Universo Tormenta, da editora Talismã, o projeto Mangá Tropical, publicado recentemente pela Via Lettera (em HQ feita em parceria com o amigo Fabio Yabu), algumas capas para a Manga Sex, da Escala, e a série Dungeon Crawler, para a Editora Mythos. Pro exterior, dois projetos que estão em faze se negociação com o meu agenciamento, um deles pela Dreamwave e o outro eu não posso comentar ainda. Mas tendo novidades, se fala, sem problemas.

-E o Dungeon Crawler? Quando menos se esperou, foi divulgado na web pela Mythos Editora que o projeto estava sendo produzido. Sobre o que se trata?
Dungeon Crawler é escrito pro Marcelo Cassaro, e estou desenhando. As cores são do Ricardo Riamonde, e se passa no Universo Tormenta. A história mostra sobre o período após a tomada da cidade do elfos pelos hobglobins. Está sendo meu primeiro trabalho na linha espada e magia, e trabalhando em parceria com o Cassaro. O trabalho com ele está sendo bem legal, pois o roteiro tem diversos elementos que me agradam em narrativa e estou podendo alternar ação e humor de modo que o resultado está sendo único. Estou tendo liberdade no meu traço, sem pré-definições, e a cor que o Riamonde está fazendo está sendo ótima. A editora deve estar lançando mais detalhes do projeto em breve. Até, enquanto respondo essa entrevista, estou com as páginas do número 2 já pra fazer 😛 … e o prazo cooorre…

-Você curte a animação e quadrinhos japoneses? Cite alguns exemplos de obras que você gosta.
Em animação japonesa, são pouquíssimos os animes para tv ou com temática mais comercial que gosto. Minha praia mesmo é o anime-arte, como o material do Ghibli, de diretores como Katsuhiro Otomo, entre outros, entre outros. Minha preferência fica mais em histórias fechadas, onde a narrativa é bem mais explorada, num espaço x de tempo, em movies, não em séries longas ou longos ovas. Sendo mangas, posso me interessar por mais gêneros pois é minha área de atuação, e procuro ler o que me agrada ou possa ser útil. Gosto muito do traço mais realista, que não estiliza tanto, tal como Vagabond, Blade the Immortal, Bastard, entre outros. Os que estilizam mais, esses são muito poucos os que costumo escolher alguns.

-Quais os seus principais idolos como desenhista? E fora do profissão, quais são seu ídolos?
Xí, isso é uma pergunta muito difícil. Sempre se acha que se esqueceu de alguém, ou colocou gente demais. Melhor dizer o que ando vendo bastante… Gosto de character designs de games, Boris Varejo, Takehiko Inoue, Katsura, Iasamia, Geof Darrow, Flavio Colin, Watson Portela, Brian Hitch. Eu gosto de literatura de terror, HP Lovecraft, Stephen King Clive Baker, gosto de musica eletrônica (seja um pouco pop ou mais minimalista-industrial), muito, muito cinema, seja comercial, ou não.

-Você acha que é justo denominar uma obra brasileira desenhada nos padrões japoneses como um “mangá brasileiro”?
Acho que é quadrinho brasileiro com influência de manga. O é sub-dividir os quadrinhos entre si. A estilização no manga é associada como sendo manga única e exclusivamente. Daí o que não é estilizado, e é realista, não será manga?

O que você aconselha para os jovens que queiram se tornar desenhistas profissionais? Quais caminhos eles devem percorrer para alcançar êxito profissional como desenhistas?
Estudar. Não achar que isso será a resposta para tudo na vida. É preciso educação e pés no chão. O mercado aqui não é instantâneo ou fácil. Ter a consciência de que as áreas de atuação que um desenhista pode ter são diversas ajuda e muito a poder perseguir um objetivo. Se eu tenho trabalhado com desenho, é mais por teimosia, pois eu já fui DJ, Office-boy, balconista de farmácia, tudo pra, paralelamente, continuar a trabalhar no meu traço, tentar publicar aqui e acolá. Ter um senso critico sobre seu trabalho é muito importante também. As criticas construtivas sempre devem ser bem-vindas, pois elas te ajudam a achar alternativas pra que os problemas sejam resolvidos. E na parte de mercado, o importante é ser versátil, ler de tudo, procurar experimentar desenhar em um outro estilo diferente, estudar anatomia, perspectiva, programação visual, tudo isso é legal, acresce um bocado e no final deixa teu trabalho dinâmico e o melhor, te deixa sempre com vontade de continuar a fazer o que gosta.

-E para você? O que você ainda acha que está faltando?
Ter mais tempo pra estudar mais e mais. Porque quando se desenha e sabe que existe tanto pra se ver e se fazer, nunca se sabe o suficiente. Tirando isso, acho que graças Deus eu tenho trabalhado com o que gosto, e isso faz um bem danado em tudo na nossa vida, acredite.

-Quais são suas ambições e sonhos para o futuro?
Continuar tendo sonhos para o futuro, pq se não eu me acomodo =)

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