Shoujo Café 40 – Peach Girl: O Retorno (E Outros Assuntos)
Anime Pró 29-12-2007

Apesar de estar sem tempo (é verdade, podem acreditar), precisava escrever sobre o retorno de Peach Girl.  Como disse em minha última coluna para o site, 2007 é o ano do shoujo mangá no Brasil, e mesmo que Nana ainda não tenha aparecido em nossas bancas, creio que ninguém tem razão para reclamar das editoras no quesito lançamentos.  Mas voltemos à Peach Girl que é o assunto principal de hoje.

Para quem não se recorda, Peach Girl foi o primeiro shoujo mangá lançado pela Panini do Brasil e seu primeiro volume chegou às nossas bancas em outubro de 2003.  Foi um lançamento de peso, pois a série era muito famosa, apesar da média dos fãs brasileiros não conhecer Momo, Sae, Kairi e Toji, as quatro personagens principais da série.  Seguindo o padrão escolhido pela Panini ? que ia contra o modelo que estava sendo estabelecido em nosso país ? o mangá foi publicado espelhado, em formato meio tankoubon.

Os atrasos eram comuns, o que é muito prejudicial quando se trata de uma série onde os acontecimentos dependem uns dos outros, afinal, as pessoas esquecem.  Muita gente desanimou e deixou de comprar Peach Girl.  Outro ponto que pesou contra a série no início foi a tradução que tinha por base a versão francesa.  Mal feita, fragmentada, ela tirou algo do brilho do mangá.  Esse último problema foi sanado com a mudança no tradutor e a chegada da Elza Keiko para chefiar a equipe de mangá, mas os muitos erros não puderam ser apagados, e em 2005, foi anunciado que o mangá seria cancelado por baixas vendagens.

Como no Brasil não temos clareza do que vende ou não, jamais saberemos se Peach Girl era realmente um fiasco ou se simplesmente era caro demais e não vendia aquilo que a editora esperava.  De qualquer forma, a Panini fez escolhas ruins e estava engatinhando na área de mangá.  Os fãs se mobilizaram e eu ajudei aqui com essa coluna, coisa que pode ser acompanhada utilizando os arquivos do site.  Foi uma luta em várias frentes, aqui no Anime-Pró, nas comunidades do Yahoo, no Orkut, e, sim, por parte da Elza junto à editora.

Como nunca me canso de falar, cancelamentos acontecem, são normais em qualquer mercado saudável e não adianta se rasgar porque sua série favorita foi interrompida.  O problema é o silêncio das editoras ou, no caso Peach Girl, as esperanças e promessas.  Muita gente acreditava que o mangá não retornaria mais e confesso que eu era uma dessas pessoas.  É muito raro um mangá cancelado retornar, em relação aos shoujo mangá, fora Peach Girl aqui no Brasil, só me recordo do caso de Boku to Kanojo XXX (Your and My Secret) de Ai Morinaga que a ADV cancelou e a Tokyopop relicenciou.

Quando a Elza anunciou o retorno de Peach Girl no início do semestre, eu realmente fiquei surpresa.  Não duvidei dela, é uma profissional da máxima seriedade, mas fui tomada de um sentimento difícil de definir.  De qualquer forma, mas terça-feira ? 23 de outubro ? comprei meu exemplar de Peach Girl e isso me deu uma satisfação muito grande.  Acredito que este sentimento seja compartilhado por outras pessoas, apesar de algumas vozes dissonantes que tentam vender a idéia de que a Panini foi tão desrespeitosa que não devemos voltar a comprar Peach Girl ou nenhum outro mangá que eles publiquem.  Mas todo mundo tem o direito à sua opinião, mesmo que muitas vezes não tenha coragem de explicitar os verdadeiros motivos da mesma.

A edição espelhada causa mais estranheza agora do que antes, afinal, nada mais fora da realidade dos mangás atualmente vendidos no Ocidente, mas foi escolha dos fãs.  A Elza fez a pergunta e a maioria optou por manter uniformidade da coleção.  Meio tankoubon também já não satisfaz mais como antes, no meu caso, terei que esperar um mês para saber se os eventos do anime casam com os do mangá.  Tenho a série inteira raw no meu computador, mas não fui olhar.  De qualquer forma, consideraria a edição absolutamente impecável não fossem duas expressões utilizadas no volume.

Na página 56, Kairi pergunta se Momo “Tá de Chico”.  Entendeu?  Pois é, essa expressão, que conheci somente depois de adulta, equivaleria ao muito mais conhecido “Tá naqueles dias”.  É regional demais, até vulgar, e nunca vi na boca de ninguém dos meus conhecidos que tivesse estudado para além da quinta série.  Os adolescentes em São Paulo usam essa expressão?  Os do Rio e de Brasília nunca vi usarem.  Também nunca vi adolescentes de novela ou seriado de TV usando. As parentas paraibanas do meu marido de mais de cinqüenta anos usam, já minha família, que é de origem sergipana, não costuma usar a expressão, falam em “regras”.  Fui ao dicionário Houaiss, que registra muitos neologismos e gírias, e não consta.  No Aurélio tem registro, mas é somente uma mostra de como a expressão é restrita.  Será que somente eu não ri?  Sei que se tropeçasse na expressão alguns anos atrás não entenderia.

Outro ponto, já na página seguinte, foi o “dar uns malhos”. Se fosse na cabeça do Kairi, até muito bem, mas quem usou o verbo foi a Momo.  É vulgar, não ouço meus alunos usando com freqüência, minhas alunas, acho que nunca vi usarem.  Momo é uma moça recatada, será que ela usaria tal gíria?   Não combina com ela, mas eu não sou mais adolescente e o fato de não usarem a expressão na minha frente não quer dizer que não usem entre si.  Mas fica a minha questão, acho que transar seria mais adequado.  De qualquer forma, é muito menos destoante do que o “Tá de Chico”.

De resto, a edição estava perfeita.  Foi um prazer poder gastar R$5,90 com ela.  Sim, aumentou de preço, eu sei, mas se passaram dois anos, não vejo como um abuso.  Se você é fã e não acredita que possa fazer diferença, lembre do caso Peach Girl.  Se os fãs tivessem sido indiferentes, ninguém se preocuparia com a nossa causa.  Se tivéssemos ficado quietinhos achando que tudo estava perdido, o mangá seria cancelado como foram já alguns em nosso país.  Você faz diferença e se os brasileiros e brasileiras acreditassem mais nisso, não teríamos somente um mangá de volta, mas um país melhor.

Nada garante que Peach Girl vá vender mais do que antes, ainda mais depois da interrupção e com tantos mangás na banca, mas sei que a maioria daqueles que pediram tanto vão completar a coleção.  Espero que tenhamos algum relançamento para que novos fãs possam aparecer. Sei que pedir que corrigissem os cinco primeiros números seria demais, mas estou sonhadora.  De qualquer forma, se você é fã de shoujo mais realista e tivesse que escolher dentre os que estão no mercado, eu sugeriria Peach Girl e Paradise Kiss.

Fiquei feliz com o retorno de Peach Girl, mas, para mim, não é o melhor lançamento do ano ou relançamento, para ser mais precisa.  Paradise Kiss é o melhor mangá feminino do ano.  Sei que Nana é mais famoso e aguardado, sei que Vampire Knight é um título bem mais pop deve ter anime em breve e vende bem em todo o mundo, sei que Gravitation é pioneiro por ser o primeiro BL-Yaoi, mas, mesmo assim, considero Paradise Kiss uma história bem mais envolvente e interessante, além de enxuta e direta.  As capas não são atraentes, isso pesa contra o título, pois ele pode passar despercebido na prateleira.  Mas sei também que é questão de gosto, já vi gente que diz amar as capas de ParaKiss.  Será que o detalhe pode atrapalhar as vendas?

Se Peach Girl é o perfeito shoujo escolar, ParaKiss faz a crítica ao sufocante sistema educacional japonês, à insensibilidade das famílias e visita o universo da moda.  O traço elegante de Ai Yazawa é um trunfo nesta hora. Ela entende de moda, curte desenhar os modelitos.  George, Yukari e as outras personagens são bem sólidas e consistentes.  Yukari me agrada mais que Momo, por exemplo, e ela é mais corajosa, também.  Além disso, ela caminha com passos mais firmes rumo à vida adulta.  E aqui cabe um acréscimo, ParaKiss, se eu levar em conta a informação do site Comipedia sobre a revista Zipper, é nosso primeiro josei.  O site é confiável e eu acredito que esteja certo.

ParaKiss é bimestral e só tem cinco volumes.  Se você se interessar pela série pode juntar dinheiro e comprar o volume.  Aliás, o atraso (*e houve gente por aí espalhando que eu era mentirosa e que a série não iria ser lançada*) foi exatamente para conseguir negociar um preço mais acessível.  ParaKiss pode não ter a qualidade gráfica de um Adolf, mas une preço e qualidade.  Daí, sugiro uma olhadinha.

Claro que pode não ser o seu tipo de mangá.  Você pode preferir outra coisa, mas Peach Girl e Paradise Kiss, junto com Karekano ? apesar de o arco atual ser sombrio demais ? são três das melhores séries shoujo (*ou shoujo e josei*) em nossas bancas.  São realistas, mas tem humor e um traço elegante.  Agora, se você quer algo mais “sobrenatural” pode correr para Vampire Kiss, Conde Cain ou Angel Sanctuary, mesmo o coreano Tarot Café se qualifica aqui.  Se curte algo com algum homoerotismo, temos Gravitation, Princess Princess e, também, Angel Sanctuary e Tarot Café podem ser listados.  Se quer um mangá histórico, 1945 está nas bancas também.  Se quiser chorar com um drama pesado, busque Socrats in Love.

Veja que agora podemos escolher, antes não podíamos.  Não era isso o que pedíamos?  Não é ideal, está longe de ser, mas agora podemos escolher.  E poder escolher implica em saber que, mais cedo ou mais tarde, o drama de Peach Girl pode se repetir, só que sem o final feliz.

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Por hoje é só.  Adorei fazer a coluna de novo.  Obrigada pelo carinho, algumas pessoas me escrevem (*e, às vezes, eu não consigo responder*) perguntando se a coluna acabou.  Ela continua, mas não tenho como trabalhar, estudar, escrever para a Neo Tokyo e manter a coluna regular. Meu site, o Shoujo House está praticamente abandonado. Meu blog, o Shoujo Café, ajuda a manter um pouco o espírito da coluna, mas é muito pouco, eu sei, se comparado à outros tempos.

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Valéria Fernandes

shoujofan@uol.com.br

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