Shoujo Café 39 – Com certeza é o ano do Shoujo Mangá
Anime Pró 03-05-2007

Pensei em escrever esta coluna na semana passada, mas fico feliz de não tê-la feito. Sabe por quê? Acabo de saber que Peach Girl retorna, se tudo correr bem, agora em setembro. A notícia, para quem não acredita, foi dada em uma palestra do Fest Comix e confirmada pela própria Elza Keiko lá no Orkut. Fosse outra pessoa, fosse boataria de fórum, eu não acreditaria, nem comentaria, mas vindo da Elza, eu acredito.

Não costumo ser uma pessoa otimista, tento, no máximo, ser realista, e isso faz com que alguns amigos e amigas me vejam como pessimista persistente. Não acreditava no retorno de Peach Girl. Pois bem, no início do ano, conversando com uma das moças que mantém o site italiano Shoujo Manga Outline sobre o mercado de mangás no Brasil e como se publicava pouco shoujo e nenhum josei ou yaoi/BL, ela disse algo como “Não se preocupe, na Itália também era assim. Daí, por conta das vendas, os preconceitos contra mangá feminino começaram a ser um entrave aos lucros e começaram a publicar um número cada vez maior de shoujo e tudo mais.”.

Mesmo sem levar muita fé, as coisas já se mostravam promissoras no mês de janeiro. Afinal, havia o anúncio de Paradise Kiss, havia mais dois shoujo a caminho, um deles Zettai Kareshi, e a nova editora, a NewPOP, entrava no mercado com 1945, o primeiro shoujo one shot a ser publicado por aqui. Foi um marco importante, mas passou um pouco despercebido… na verdade, muito despercebido.

Sei que muita gente não notou 1945 ainda. A distribuição atrapalhou um pouco, mas agora ele está chegando até as bancas do país. Espero que a recepção seja boa, porque a história é interessante, forte, e o cuidado com a produção do volume foi grande. Não pensem que é autopromoção, escrevi a introdução do volume, verdade, mas eu não sou remunerada se 1945 vender bem, é o prazer de ver um bom (shoujo) mangá valorizado e que as pessoas possam, através de um quadrinho, se interessar mais pela História recente do mundo.

Não sei se as vendas aqui são tão boas, não saberemos nunca a depender da política que impera. A Conrad disse em seu press release de Zettai Kareshi que Fushigi Yuugi vendeu cerca de meio milhão de volumes, isto é, mais ou menos 13 mil e 900 unidades de seus 36 números. Não sei se isso é a média de vendagem para um mangá no Brasil.  Só me lembro de alguém falando em vendagens para dizer que Dragon Ball vendia cerca de 80 mil por volume. Neste caso tratava-se de um hit indiscutível, com grande apelo comercial e anime (quase) não censurado na TV.

Será que Fushigi Yuugi vendeu o que a média vende?  Não acho que tal informação será publicada um dia. Mas o fato é que de acordo com o que me disse o Alexandre Linares, prejuízo a série não deu. Lançar outro mangá de Yuu Watase é sinal disso. Independente de termos a informação sobre as vendas e tiragens, o fato é que não esperava o anuncio de tantos shoujo mangá este ano.

É uma vitória e, sem falsa modéstia, acredito ter contribuído um pouco para chamar atenção para os shoujo mangá. É trabalho de formiguinha, aqui no Anime-Pró, em listas de discussão, no meu site e blog, na Neo Tokyo, mas é trabalho importante. Acredito que vocês, fãs de shoujo, também têm responsabilidade nessa pequena mudança. Por exemplo, se os fãs não tivessem insistido, talvez não tivéssemos mais notícias de Peach Girl.  Sei que muita gente vai dizer que não, mas quanta movimentação vocês viram dos fãs-consumidores de Shin-chan ou Dr. Slump? Os fãs de Peach Girl se mexeram, mesmo que muitos, eu incluída, tivessem perdido a esperança.

O que temos de concreto este ano? Fruits Basket termina.  De mangá feminino a JBC anunciou Gravitation. Não é o substituto de Fruits Basket e muita gente aposta que Nana será anunciado por esta editora em breve. Não sei de nada ainda. Só que é preciso anunciar o substituto de Fruits Basket. E digo o seguinte, Nana não é um mangá a se colocar no lugar de uma série como Furuba. São estilos diferentes.

De qualquer forma, a JBC saiu na frente e com segurança ao lançar o primeiro BL. Não sei se a aceitação será tão grande quanto nos EUA e em outros países, mas por certo venderá o suficiente para que a JBC se sinta compensada. Agora, se Gravitation fizer sucesso, esperem por uma enxurrada de yaoi nos próximos anos. Não comprei Gravitation (ainda), então não vou comentar nada do mangá.

A Conrad lançou Zettai Kareshi e gostei da qualidade do mangá e da fluência do texto. Não sou entusiasta de Yuu Watase, mas ela cumpre bem o seu papel. A história consegue ser leve, ingênua e, ao mesmo tempo, picante.  Parece que além de melhorar o traço, a autora afiou o seu humor, ou talvez a nossa versão tenha ficado muito boa.

Falando em humor e em texto, é preciso pontuar que Yuu Watase trabalha muito bem o humor tanto nas situações cotidianas quanto nas extraordinárias, e se você consegue rir das piadas é porque a tradução e adaptação estão em sintonia. Vi algumas pessoas dizendo que preferiam o texto das scanlations em inglês. Bem, não é possível agradar a todos.  E no caso de mangás como Anatolia Story, eu também preferi a versão dos fãs àquela oferecida pela VIZ.

É fato que alguns grupos de scanlations trabalham muito bem, tão bem que mesmo quando não são fiéis ao japonês original, como alguns colegas não cansam de dizer, conseguem dar alma ao texto e convencer os leitores. Como não leio japonês, não consigo fazer o tipo de observação que alguns colegas podem fazer, mas como leitora, prefiro um texto com alma, agradável, do que uma tradução literal e dura. Verter textos de uma língua para outra não é trabalho mecânico é quase uma arte que exige múltiplos conhecimentos para ficar interessante. Nesse sentido, ainda não vi nada o que reclamar de Zettai Kareshi ou Zekare, como os fãs chamam.

A opção por mangás curtos da Conrad, e Paradise Kiss, que pode ser o primeiro josei no Brasil, também o é, pode ajudar a alavancar as vendas de um mangá sem que a editora corra muitos riscos. Afinal, a popularidade de um título longo pode começar a cair no decorrer da publicação e os lucros com ele. É possível perceber que as editoras brasileiras tem olhado esse aspecto quando lançam shoujo mangá. Gravitation da JBC; Merupuri, Bijinzaka, Count Cain, Princess Princess da Panini, também se qualificam como mangás curtos.

O ideal, claro, é sempre combinar mangás mais longos e mais curtos e mexer nas periodicidades. E parece que isto será feito. Vampire Knight da Panini será bimestral. Algo coerente, já que há poucos volumes lançados no Japão e o número crescente de mangás tende a pesar no bolso. E então, eis que surge minha grande preocupação: é ótimo ter tantos shoujo nas bancas ou a caminho, mas será que daremos conta? Aliás, a Panini é a campeã de lançamentos em shoujo mangá e que fique claro são todos títulos que são no mínimo boas e cabe ao público dar o veredicto se algumas delas podem ser chamadas de excelentes. Será que a editora manterá o ritmo? E se as vendas não forem tão boas? Teremos cancelamentos?

Vejo em muitos consumidores de mangá a angustia de ter que escolher títulos, ao invés da possibilidade de comprar tudo o que sai. Lamento dizer, mas em um mercado saudável de mangás, não podemos consumir tudo. É fato. Só que as editoras também precisam pensar na capacidade de absorção do mercado consumidor. De que vale lançar um monte de títulos e ter prejuízo? Só que, outra vez, é pura especulação, já que não temos números de vendagem, nem informação de pesquisas sérias de mercado. Acho uma pena.

Temos muito que comemorar. É fato. Parece que a negligência das editoras vem cedendo espaço por um crescente interesse pelos fãs de shoujo mangá.  Sinal de que shoujo vende, ou que as editoras locais estão de olho no que ocorre no mercado internacional, ou as duas coisas juntas. Quem sabe? O legal é poder ler seu mangá favorito em português. Alguns títulos eram óbvios, como Karekano, mas quem poderia esperar por Vampire Knight tão cedo ou pelo retorno de Peach Girl ou Yuu Watase ao Brasil?

O que mais podemos esperar? Bem, se nada mudou, há um steamy shoujo a caminho. E é um subgênero do shoujo que deve agradar muita gente. Paradise Kiss talvez estréie depois de Nana, a julgar pelos boatos.  Aliás, todos os boatos este ano eram corretíssimos, e se for regra é só esperar.

Não é muito a minha praia, eu não sou das mais empolgadas com quadrinhos coreanos, mas teremos o nosso primeiro Sunjeong manhwa este ano. Trata-se de Tarot Café que a meu ver lembra um pouco Pet Shop of Horros. É possível ler uma sinopse rápida aqui no blog da Sett ou uma matéria mais completa escrita por ela na Neo Tokyo 18. É um marco, é o primeiro e merece a nossa atenção por conta disso, só para início de conversa.  A julgar pela empolgação de muitas fãs com os manhwa para garotas, talvez Tarot Café seja o primeiro de muitos. E também é uma série curta, tendo somente sete volumes.

Veja que o leque de opções para as leitoras está se abrindo. Faltam os josei e eu adoraria ver Nodame Cantabile, Honey & Clover, Kimi Wa Pet e Gokusen sendo cogitados pelas editoras. Faltam mahou shoujo e mangás para um público pré-adolescente. Fruits Basket conseguia contemplá-lo, mas e agora? Sugar Sugar Rune seria uma boa pedida. Aliás, Moyoco Ano seria uma boa pedida para qualquer idade, seja shoujo, josei ou seinen, pois ela manda muito bem. Precisamos de clássicos também.  Bem que a Conrad poderia investir em um shoujo clássico no formato que tem usado para o material de Tezuka. A Rosa de Versalhes, por exemplo, está fazendo 35 anos.

Não podemos afirmar que o ano de lançamentos está fechado. Temos seis meses que podem ser de anúncios surpreendentes, ou nem tanto. Peach Girl para mim já conta como grande surpresa. Agora, se tivesse que apostar em dois títulos para 2008 (pela Panini, provavelmente) estes seriam Sunadokei e Ouran Host Club. Outra a posta que não me canso de fazer é em Full Moon Wo Sagashite ou outra obra de Arina Tanemura, como Shinshi Doumei Cross que vem fazendo muito sucesso no Japão e nos Estados Unidos.

2007 realmente está sendo um ano bem interessante. O que será que ainda iremos ver?

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Valéria Fernandes

shoujofan@uol.com.br

http://www.shoujo-cafe.blogspot.com

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P.S.1: Falando em Yuu Watase, o novo mangá da autora se chama Sakura-Gari (Cherry Blossom Hunting), e está na nova revista da Shogakukan, a Rinka publicada em 14 junho. Esta revista é uma spinoff de revista Monthly Flowers. É o primeiro BL/yaoi da autora, só para mostrar que autoras de shoujo são também autoras de BL e que estes têm espaço em revistas shoujo mainstream. Aliás, Watase vai dividir o espaço nesta revista com Chiho Saito, Michiyo Akaishi,  Yumi Tamura, entre outras.

P.S.2: A editora Asahi Sonorama, editora fundada em 1959, e que publica algumas revistas shoujo, como a Nemuki, vai encerrar as suas atividades em setembro. A notícia completa está no Anime News Network e diz que a empresa que pertence ao grupo editorial que publica o Asahi Shinbun não publicará mais por conta de decisões gerenciais e das mudanças de mercado. Depois de setembro, algumas revistas continuarão saindo por conta do grupo editorial, mas sem o selo Asahi Sonorama. A Nemuki, onde está sendo publicado Shin Pet Shop of Horrors, continua, mas alguma revista da editora poderá ser suspensa. A editora também publicou a série Terra E e responsável pelas light novels de Vampire Hunter D. É um fim triste para uma editora tão bem sucedida.

P.S.3: Kazueko Morimoto, autora de Gokusen, publicou uma oneshot na edição #29 da Shounen Jump. Sua história se chama Hissatsu Doubutsu Club, diz o site Shojos de Deirdre. Ao que parece, o traço da autora está bem cuidado, como é a regra quando as autoras de josei publicam para outras faixas etárias. aliás, não sei porque elas tem tanto prazer em rabiscar quando sabem desenhar muito bem. Gokusen terminou recentemente e teve dois doramas e uma série animada. É o primeiro caso que eu vejo de autora josei indo para o shounen, a maioria das autoras de shoujo ou josei geralmente migram ou fazem visitas em revistas seinen. Mas vejam que ela não foi para Jump para fazer sucesso, ela está lá exatamente porque faz sucesso. Gokusen é muito legal. A Deirdre colocou o mangá para download no seu site.

P.S.4: O dorama de Hanakimi está para estrear. O site oficial do dorama é este aqui. Há várias fotos, inclusive de todos os alunos juntos e do Umeda-sensei. Não sei se me empolgo com o dorama ou mantenho baixas as expectativas. De qualquer forma, torço para que o dorama dê fôlego para um anime em 2008. Quem sabe?  A estréia é 3 de julho.

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